De veludos e vícios
O dia em que beijaste um poeta às escuras, morra e pereça! De veludos e vícios se fez o sonho. Superfícies macias que encobrem servis mecanismos. Energias a render para consolo do consumidor. Fome sem nome. Avidez obscura que pede mais, sempre mais, sem saber o que pede a mais, mas imediatamente reconhecedora da próxima dose. Puxam-me, empurram-me, oferecem-me poses e personagens praticadas. Tanta linha por cheirar e eu a assentá-las no currículo. De veludos e vícios se fez o ódio. O ódio não nasce grande: faz-se útil. Poupa o trabalho de sentir, oferece um alvo ao vazio, cola uma máscara ao que não tem rosto. Dá ambição aos que já desistiram da alma. Faz arder buracos pelas ruas. Faz confundir violência com forma, grito com canto, castigo com sorte. E chama sublimação ao que não passa de mesquinha punição. Mas de veludos e vícios se fez o sonho. Guardo fantoches em caixas de bolachas, guardo-os até me fartar desta máscara que criei à minha volta. Um oásis, o paraíso nas minhas mã...