De veludos e vícios
O dia em que beijaste um poeta às escuras,
morra e pereça!
De veludos e vícios se fez o sonho. Superfícies macias que encobrem servis mecanismos. Energias a render para consolo do consumidor. Fome sem nome. Avidez obscura que pede mais, sempre mais, sem saber o que pede a mais, mas imediatamente reconhecedora da próxima dose. Puxam-me, empurram-me, oferecem-me poses e personagens praticadas. Tanta linha por cheirar e eu a assentá-las no currículo.
De veludos e vícios se fez o ódio. O ódio não nasce grande: faz-se útil. Poupa o trabalho de sentir, oferece um alvo ao vazio, cola uma máscara ao que não tem rosto. Dá ambição aos que já desistiram da alma. Faz arder buracos pelas ruas. Faz confundir violência com forma, grito com canto, castigo com sorte. E chama sublimação ao que não passa de mesquinha punição.
Mas de veludos e vícios se fez o sonho. Guardo fantoches em caixas de bolachas, guardo-os até me fartar desta máscara que criei à minha volta. Um oásis, o paraíso nas minhas mãos. Agarro-me tanto ao estatuto: pirata, roqueiro, para que serve a caveira? Não é mania, é só o último grito da moda. Aguento a mente em sítios bonitos, o paraíso nas minhas mãos.
De veludos e vícios se fez o sonho. Onde vivemos montões de vidas diferentes. Onde somos vários em cada uma delas. Enchi o coração de vazios. Fiz do excesso disciplina. Do desencanto elegância. Do cansaço estilo. E recordo, pela enésima vez, uma lei pobre e quase indecente de tão simples: não há crime na gentileza. Nem toda a gente saiu de casa para te lixar. Por vezes só te querem conhecer. Guarda-me no teu coração esta noite, na magia da pálida luz lunar, salva-me desta luta fútil do jogo da vida.
De veludos e vícios. Problema meu, problema meu, nunca aprender a ser feliz. Problema meu, problema meu, o tempo que demoro até ao sucesso. Problema meu, problema meu, querer pegar nas minhas coisas e bazar. Problema meu, problema meu, esta falta de amigos, esta vontade de me matar.
Veludos e vícios. Ó, nós não possuímos os nossos paraísos; conhecemos apenas os nossos infernos. E, neste intervalo, fazes-me falta, e eu ainda te faço rir. Podes ser o palhaço da turma e eu a Vénus de Milo em lágrimas. Chegou o tempo de não vivermos só de medo e nojo. Há manhãs em que a luz que brilha docemente invade o dia, pintando em mim a ilusão.
Veludos e vícios. Recuso-me a viver de medo e nojo. Recuso-me a rebentar de náusea e pânico. Quero sentir-me a flutuar. Quero perder a gravidade, sem perder o corpo. Quero uma elevação sem pose, uma leveza sem mentira, uma beleza que não precise de nojo para parecer profunda. Então, levito desde o cadafalso, um furacão de esmeraldas que desce pelas ruas e rompe a festa como um risco num disco. Quase me parece, por um instante, que alguém poderia ter medo de mim.
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