Elevação
para lá do oceano de sangue de uma ferida, para lá da discoteca e do medo; vai onde a luz, sem pompa, invade a vida e toca o todo um segundo mais cedo. acima do tédio e do bafo da cova, do azar que nos persegue em rito; da beleza, amarga, dúbia e nova, sobe, um coração, para fora do conflito. move-te, agora, como quem deve à água a técnica secreta de persistir; não pela asa triunfal que rompe a mágoa, mas pelo fôlego limpo de emergir. move-te como quem, depois da água e da ferida, aprendeu no naufrágio uma ciência mais fiel; não para esquecer a lama, o aço ou a descida, mas desfaz no sol um fel tornado mel. feliz quem distingue a sombra da claridade, e vê na flor do mal uma réstia da oração; quem acha no comum, sem grande vaidade, beleza bastante para enganar a podridão.