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De veludos e vícios

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O dia em que beijaste um poeta às escuras, morra e pereça! De veludos e vícios se fez o sonho. Superfícies macias que encobrem servis mecanismos. Energias a render para consolo do consumidor. Fome sem nome. Avidez obscura que pede mais, sempre mais, sem saber o que pede a mais, mas imediatamente reconhecedora da próxima dose. Puxam-me, empurram-me, oferecem-me poses e personagens praticadas. Tanta linha por cheirar e eu a assentá-las no currículo.  De veludos e vícios se fez o ódio. O ódio não nasce grande: faz-se útil. Poupa o trabalho de sentir, oferece um alvo ao vazio, cola uma máscara ao que não tem rosto. Dá ambição aos que já desistiram da alma. Faz arder buracos pelas ruas. Faz confundir violência com forma, grito com canto, castigo com sorte. E chama sublimação ao que não passa de mesquinha punição. Mas de veludos e vícios se fez o sonho. Guardo fantoches em caixas de bolachas, guardo-os até me fartar desta máscara que criei à minha volta. Um oásis, o paraíso nas minhas mã...

Elevação

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para lá do oceano de sangue de uma ferida, para lá da discoteca e do medo; vai onde a luz, sem pompa, invade a vida e toca o todo um segundo mais cedo. acima do tédio e do bafo da cova, do azar que nos persegue em rito; da beleza, amarga, dúbia e nova, sobe, um coração, para fora do conflito. move-te, agora, como quem deve à água a técnica secreta de persistir; não pela asa triunfal que rompe a mágoa, mas pelo fôlego limpo de emergir. move-te como quem, depois da água e da ferida, aprendeu no naufrágio uma ciência mais fiel; não para esquecer a lama, o aço ou a descida, mas desfaz no sol um fel tornado mel. feliz quem distingue a sombra da claridade, e vê na flor do mal uma réstia da oração; quem acha no comum, sem grande vaidade, beleza bastante para enganar a podridão.

mergulho

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e ainda não tens palavras para o que já te estão a fazer. se vieste por uma catábase (para além da mais recente), terá de ser aquática. não gosto de bichos da terra, nem de remexer na matéria estática; apavora-me a ideia seca de desenterrar cadáveres meio comidos. tudo o que acontece nos sonhos pode acontecer na vida: dá para fazer rir, dá para fazer chorar, dá para boiar, em feridas... tudo, sim, tudo é a contar. sim, tudo pode vir ao de cima, antes de se afundar. ai, quando os santos entrarem em natação sincronizada, ai, quando os santos vierem em roda concertada, ó meu bom deus, eu quero nadar nessa farra, quando os santos entrarem pela água iluminada. vem o palhaço, com o fato a descair, numa dança que sonha seduzir, ou na sombra em que o vilão vai surgir... isto são só sonhos. vem a noiva, de véu a flutuar, vem o dândi, de peito a naufragar, vem a sala de espelhos, a afundar... ouve o som transbordar. o enredo pode arder e cheirar a sexo, um divorciado gay, que anda atrás do seu e...

Drácula

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Sabes onde estamos?  No sítio onde aconteceu o meu pior pesadelo.  Descemos pelo elevador para o parque de estacionamento. Os lugares traçados no chão, a meia-luz artificial de um lugar onde não amanhece. Mas desta vez és tu que vens comigo.  E vais poder ver o que eu vi. Repara no carro preto que está ali em frente, se contares, tem seis velas acesas no capô e, dentro de momentos,  quando o porta-bagagens se abrir vai sair de lá um mar de ratos.  Imagina-me ali no meio, a procurar não cheirar, nem tocar, em cada rato que me afogava. Prometo-te uma dentada de felicidade, um milagre mínimo, a graça que organiza por dentro. Que só funciona na penumbra, só funciona sem público,  e só dura enquanto não se tenta provar o que foi. Um milagre de felicidade, um estado de graça íntimo, que não é grandioso, que não é imperial, e é o motivo pelo qual os verdadeiros amantes preferem a luz das velas (nem que sejam as do meu pior pesadelo) aos filtros do Instagram. Agora...

A facilidade do ódio sublime [solo de Occasio]

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Se os modos estão concertados E alguém tem de os executar...  Garanto que não vou ser eu. Vou um bocado além dos programas: Tenho livros — e não me bastam. Eis uma oportunidade De vos apresentar um velho amigo! [ Surge um letreiro em néon, a piscar:  Entra Occasio, com uma harpa electrónica. ] una amenaza… ¿no es también una promesa? si quieres venganza, confiesa, si vienes por armas, empieza: furia mansa por meses (sólo estás huyendo y eso pesa)— entonces… ¿pa' qué llamaste a esta puerta? [Occasio toca um harpejo que fica a ecoar.] él se acorraló entre vergüenza y confesión. quiere el tacto: la impresión, no el sentir: no. no, no. si lo tuviera,  le dolería el corazón  (por su generación). siempre a un paso de rehabilitación… las drogas le saben de pronto a descafeinado y rendición. él sólo quiere vivir al momento, y hay mil bastardos soñando con el tormento, el tropiezo, el regreso, el cuento. no es que tenga celos: lo confieso, es que fuma algo más leve,  y y...

esparsa quase sua ao concerto dos modos

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ao meu gato, que derruba fascistas. Os maus vi sempre tecer no mundo grandes enredos; e para mais me aborrecer, os bons vi sempre a boiar em lodo manso de medos. Cuidando entender assim o mal tão bem organizado, levei um tanque, subi um ranque, a consciência diz que não, o algoritmo diz que é são — e mesmo assim: vou ser cancelado. Por tantos anos lutaram, oportunidades de paz que desperdiçaram. Acho os modos tão sem brio, tudo é post , nada é lista; até a honra se regista.

O fim dos sonhos

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O grande problema dos sonhos: É que terminam quando acordamos... Sonho por um lugar à retaguarda, No êxtase da decadência néon. Tenho um plano e é sinfónico. Meio psicótico, doentio, hipnótico, É carismático, cinematográfico, E tem-me fleumático. A batida chicoteia, é uma dose Que me faz falta. Fui desencadeado para dançar,  Cada osso salta. Oh, e enquanto dançamos, mudam as luzes! Mãos atrás da cabeça, como Cristo disse! Aos beijos na pista de dança! Foi até que o chão ardesse! Não há maldição Que se compare à sensação! Sonhos realizados, Hipertácteis e em queda livre, No meio do êxtase do néon decadente. Onde é que estás, que eu não te vejo? (Mas eu sinto-te observar-me, meu anjo) Sonhos concretizados, Dilatados e em queda livre:  Nós — animais em ecstasy, Longe do coração, longe da vista. E se hoje não adormecermos? Será que na vigília fazemos Carneirinhos electrónicos? Até que o corpo Se lembre do escuro E volte, por fim, a sonhar?