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A facilidade do ódio sublime [solo de Occasio]

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Se os modos estão concertados E alguém tem de os executar...  Garanto que não vou ser eu. Vou um bocado além dos programas: Tenho livros — e não me bastam. Eis uma oportunidade De vos apresentar um velho amigo! [ Surge um letreiro em néon, a piscar:  Entra Occasio, com uma harpa electrónica. ] una amenaza… ¿no es también una promesa? si quieres venganza, confiesa, si vienes por armas, empieza: furia mansa por meses (sólo estás huyendo y eso pesa)— entonces… ¿pa' qué llamaste a esta puerta? [Occasio toca um harpejo que fica a ecoar.] él se acorraló entre vergüenza y confesión. quiere el tacto: la impresión, no el sentir: no. no, no. si lo tuviera,  le dolería el corazón  (por su generación). siempre a un paso de rehabilitación… las drogas le saben de pronto a descafeinado y rendición. él sólo quiere vivir al momento, y hay mil bastardos soñando con el tormento, el tropiezo, el regreso, el cuento. no es que tenga celos: lo confieso, es que fuma algo más leve,  y y...

esparsa quase sua ao concerto dos modos

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ao meu gato, que derruba fascistas. Os maus vi sempre tecer no mundo grandes enredos; e para mais me aborrecer, os bons vi sempre a boiar em lodo manso de medos. Cuidando entender assim o mal tão bem organizado, levei um tanque, subi um ranque, a consciência diz que não, o algoritmo diz que é são — e mesmo assim: vou ser cancelado. Por tantos anos lutaram, oportunidades de paz que desperdiçaram. Acho os modos tão sem brio, tudo é post , nada é lista; até a honra se regista.

O fim dos sonhos

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O grande problema dos sonhos: É que terminam quando acordamos... Sonho por um lugar à retaguarda, No êxtase da decadência néon. Tenho um plano e é sinfónico. Meio psicótico, doentio, hipnótico, É carismático, cinematográfico, E tem-me fleumático. A batida chicoteia, é uma dose Que me faz falta. Fui desencadeado para dançar,  Cada osso salta. Oh, e enquanto dançamos, mudam as luzes! Mãos atrás da cabeça, como Cristo disse! Aos beijos na pista de dança! Foi até que o chão ardesse! Não há maldição Que se compare à sensação! Sonhos realizados, Hipertácteis e em queda livre, No meio do êxtase do néon decadente. Onde é que estás, que eu não te vejo? (Mas eu sinto-te observar-me, meu anjo) Sonhos concretizados, Dilatados e em queda livre:  Nós — animais em ecstasy, Longe do coração, longe da vista. E se hoje não adormecermos? Será que na vigília fazemos Carneirinhos electrónicos? Até que o corpo Se lembre do escuro E volte, por fim, a sonhar?

Liga dos sonhos geométricos

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Manipular os sonhos dos outros é fácil: há uma evidente geometria entre as expectativas do sonhador e o que este pensa ser princípio, mas não passa de hábito.  O sonho pode ser tão costumeiro como a rotina do autocarro para o trabalho. E é tão fácil entrar numa paragem e sair quando me apetecer.  Acordadas, as pessoas defendem com unhas e dentes as identidades que alucinaram. As versões de si que gostam de vender são portas fechadas por fora. Mas quando dormem, rascunho geometricamente todos os seus materiais:  o disparate, o erro, a cobiça, pecados pertinentes, arrependimentos fracos, o veneno, o incêndio e o punhal, os prazeres clandestinamente roubados, o abuso, os chacais, as panteras, os escorpiões, os macacos, os abutres e as serpentes... e o mais maligno e o mais imundo de todos, o tédio...  Imploram que os endireite e mostre precisos. Ora bem, visto tratar-se de expectativas relativas a um costume, os sonhos tendem a seguir padrões. Esses padrões vêm da exper...

Oblívio

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eu prometi decadência, mas também prometi  ir do declínio do tétrico ao fascínio do mítico! ... ou será que era... ir do declínio do mítico ao fascínio do tétrico! logo decido... e já vos disse: não me tragam o horizonte,   que eu chego lá! da maldição da imortalidade, esse luxo de nunca acabar, esse castigo de não passar. mas hoje não vos vendo duração. eis o antídoto para a imortalidade. bendito seja o oblívio, não como fuga, mas como justiça. bendito seja o apagar lento do que nos apodrece a alma por dentro, os dentes de Cronos soltos das costas, as marcas a desaparecer devagar, o peso de sermos sempre alguém. cantemos então: um hino para que desça o oblívio — o intervalo, o justo silêncio, a página equilibrada tornar-se um quarto, macio e sem ecos. não é morte: é descanso da cortina, finalmente baixada, sem aplausos, vénias ou público. bendito seja o oblívio, não como virtude, mas como direito. é misericórdia sem altar: é liberdade de não ser lembrado, de não ser vist...

Necromântico [a Magnanimidade da Ópera Pop-Electrónica]

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Overture:  [entra Occasio, com uma guitarra eléctrica, a cantar uma última Lamentação] lo que tiene no fue más que un legado, y ha sido olvidado por cada sueño guardado. siente que no habrá posvida, al final, que no existe otro lado, otra señal; cuando se apagan las luces, sin testigo, se queda solo, tan solo, consigo. cuando se apagan las luces, piensa, al despertar, que quizá no despierte, que no hay “más allá”; que no existe otro lado, ningún abrigo, y se queda tan solo, tan solo, consigo, mientras todo sonríe, juega, vive entero, él siente que la vida es dura — y morir, ligero. Recitativo: [entra em cena o Mestre de Pesadelos] Retomo a voz. Eis a prometida magnanimidade da ópera pop-electrónica! [corre o palco de um lado ao outro] Afino sintetizadores, estabeleço o tom. Acendo velas, baixo luzes, controlo as cortinas: sobem e descem. [parece um cientista louco a produzir o seu próprio espectáculo ao vivo] Vou explicar-te as regras do meu ofício. E por que preciso de encena...

magia da simpatia / simpatia pelo diabo [medley]

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nos sonhos, a memória é disléxica, os nomes e as caras confundem-se, só existe o dantes e o depois. e as luzes nos sonhos são assim, como a lama que escorre pelos dedos, o único Deus que conheci e que não precisa de mim de joelhos para crer. (será que sou diferente? será que não mudei?) permite-me que me apresente, sou pessoa de valor e gosto, tenho andado por aqui há muito e já arrebatei muitas almas e crenças. não reconheço uma cara sem cicatrizes, engasgo-me na fama que não consigo cuspir, agachado e de blazer, ansioso e envergonhado. nas vagas humilhações da reputação. não vejo no valor uma virtude já nem tento ser bom no que faço para me safar, prefiro o consolo da magia da simpatia. prazer em conhecer, espero que adivinhes o meu nome, mas aquilo que te assusta é a própria natura do jogo. e como cada polícia é ladrão, e cada santo um pecador, e como as coroas são as caras, chama-me Caos pois preciso de humildade. se precisares de mim, mostra cortesia, tem simpatia e redefine elegâ...