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da tirania do belo

e ainda entro em cena com a cara de ontem, à luz do castiçal parece impecável... ninguém reparou que me estava grande. dizem: depõe a máscara, mas com mais luz do lado de cá e tapa essa mancha na bochecha, e não tragas o corpo inteiro, há sempre alguma parte que destoa. mas eu arrastava um jardim pelo corredor e as roseiras encalharam nas portas, deixando no verniz arranhões e um perfume a excesso pela casa. nisto, um anjo pede-me lume, já tem as asas amarelas de tabaco, e eu tive de dizer que não, já nos ardeu a sala uma vez. (e ainda há quem elogie a cor das paredes) queriam verdade? abri a camisa  e pediram-me que a fechasse: a cicatriz não fica bem na foto. coberta por uma jóia e umas pétalas, quem sabe? ó fantasmagoria da arte, faz-me um sonho bonito, que apodreça devagar sem perder o perfume. mas deixa os andaimes à vista, a seda rota e os pregos onde o brilho das flores  ganhou ferrugem, para que saibam onde pus as mãos, onde falhou a cola e quem ficou por baixo quando ...

à prova de Hamlet

os salgueiros choram os ramos por todo o lado. fossem lágrimas e estaria afogado. nesta terra tão divina e bestial, eu era um anjo a viver num jardim do mal. mas há uma  lâmpada no fundo do charco. chorar ou não chorar? eis a questão. será mais nobre deixar os proveitos de uma fortuna infame acontecer, ou erguer o terremoto das mãos contra um oceano de azares e, em combate, acertar um tiro num potencial melhor amigo? dormir. sonhar. nada mais.  e no sonho deixar que a dor desate  os seus perfumes em poemas, que a carne se livre de uma herança dos espasmos e das feridas de deuses e monstros, com a paz de saborear  as tuas últimas palavras como haxixe. o meu coração está uma lástima. se eu o  suportasse  sozinho, eu não  tentava tanto  sedar  o que já  ficou para trás. sonhar morrer. morrer e lá sonhar. eis a fissura.  que sonhos florirão desse charco, quando despirmos a mortalha febril? que rosas de outroras, que venenos?  que s...

de seis anéis na mão

(quando a armadura aprendeu a cantar) o faz de conta recontado, os mitos todos matizados... ó, eu não quero convencer-te: tenho os sonhos todos espalhados... luzes e reflexos nas ondas, e os anjos saem para brincar,  mares de jóias em excesso!  vi-me sangrado e a boiar, entre esplendor e progresso (da maré). os clarões de luz incidem, insistem,  deixam-me atordoado (vêm de todo o lado). no meio de tanto néon a arder, rezo que a fama não me venha dissolver! vês um dragão requintado, nos seus pecados sofisticado, mas não mente, ele não morre na praia. é pai, mãe, filho, espírito solto, esta família é atraente pa' caralho, será que sobrevivias ao que passámos? cai e levanta, pronto para outra ronda: despenhámos, desempenhámos e ó, se ousámos... eu acho que é hora, senta-te lá e sê humilde: nem tudo o que reluz precisa que se valide, e se não consegues ser bom,  sê melhor no que fazes. ó, não quero rosas às dúzias, não quero manjares novos e esquisitos, não quero passeio...

re:corda

Ó estranho,  dá-me força, recorda-te de mim. Acorda, estende a mão. Salva o que vem a seguir: para eu reconhecer ainda cá o gesto de quem depois dá. Respira: devia ser bem fundo. De fé: devia dar um salto. Sabor: da melancolia ao submundo. Perde o que já não tens no asfalto. Espaço: à medida dos teus passos. Uma milha a caminhar nestes sapatos, poderão conter os teus cansaços? E tinha a chave da porta que se abria para o jardim das rosas. Do outro lado, ninguém dizia o meu nome, e eu podia entrar. Hoje, o brilho da estrada  turva-me a vista, tantas ondas de calor,  sinto-me a nadar num espelho! Não sei o que encontrar, mas sei que vou chorar  todas as minhas lágrimas. E o jardim é este lugar onde já não cabem os que partiram, de onde nenhum deles saíram. Os sonhos rebentam as costuras. Ou tudo o que resta, ou tudo o que fui. Ó estranho, recorda-te de mim, até do que não viste: a mão pequena, a chave demasiado grande, as oito voltas em correria  em direção às ros...

uma lição perdida de um mestre perdido

Quando o meu Mestre me perguntou como tinha corrido a viagem, eu disse-lhe que julgava ter encontrado a razão da minha existência.  — Creio entender agora como cada pessoa atravessa a vida convencida da sua própria virtude. Como se tivessem sido escolhidas para redimir o mundo através de uma luz permanente e fixa. Mas a luz, se se fixa, não passa de uma fachada. Dentro de cada coração há sombra e muitas vezes aquilo a que chamamos virtude não passa de uma farsa bem iluminada. Se saber disto é a minha maldição, aceito-a de bom grado. O Mestre escutou-me e disse que eu devia ter confrontado muita escuridão, para falar com tanta certeza. Ousei, então, formular a minha teoria: — Aqueles que ambicionam um poder de forma desmesurada roubam-no aos que o têm e convencem-se de que o merecem. É assim que começam a sujar-se. Acreditam naquilo em que pretendem acreditar. Inventam razões fúteis para justificar as suas acções. Repetem as mesmas desculpas até que se confundam com a sua verdade. E...

prelúdio para um labirinto

ó sonhos virtuosos, acordes desesperados, formas disformes, frascos endiabrados, quimeras da fronteira entre a magia e a ficção, voltai: quererei fixar-vos um dia? será que este meu coração à vossa superstição se renderia? ó carnaval mirabolante, de sorrisos e de pouco siso, envolve-me, como dantes, nesse vosso triunfo: eis-me, sou vosso (gritem por mim, anjos,  como se estivessem a morrer). e tu, ó canto que encantas a multidão, com a melodia que escolheres, com o timbre que quiseres, electrifica o desplante,  surpreende, radiante: podes ser remédio, veneno e droga, a partir de atlas e herbários para findar rituais. segue, pela urbe, o tropel dos desejos, enquanto desvanece o chão, não se espanta; emana subtis verões juvenis e até os dragões mais lúcidos abrandam. ei-la! ó boémia de outrora, dos que se comoveram em horas de ouro, no enlanguescer do fim de um dia, em que todos aparecem despidos e gloriosos (horas de ouro… como escoaram). o amor e o aplauso são como chicotadas,...

beladona de Láquesis

estou a viver em tempo extra um décimo-terceiro esforço para uma vigésima-quinta hora. enquanto a tensão cresce e a lua corrompe o caos que se vê e o caos que se é talvez se confundam, na ária de um pianista sem nome, num poema pintado em nuvens, nas badaladas das beladonas... (que sempre houve anestesia na alquimia) hora obscura, talvez já diurna e amar corta como uma lâmina de pétalas a perder o tempo em levitação e delírio... será que devia pegar fogo a tudo — a fama, a fortuna e que mais! —  contigo ver tudo arder, e começar de novo? é que até a gente boa sangra... mas há uma luz,  no meio de tantas, uma, e uma pista de dança sobre que olho, ambas me contam algo que se passou: do fogo no nosso chão, da devassidão da minha devoção, para que o mesmo conto se repita e onde está o nosso olhar estrelado? onde acaba a glória e começa o sonho.