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mergulho

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e ainda não tens palavras para o que já te estão a fazer. se vieste por uma catábase (para além da mais recente), terá de ser aquática. não gosto de bichos da terra, nem de remexer na matéria estática; apavora-me a ideia seca de desenterrar cadáveres meio comidos. tudo o que acontece nos sonhos pode acontecer na vida: dá para fazer rir, dá para fazer chorar, dá para boiar, em feridas... tudo, sim, tudo é a contar. sim, tudo pode vir ao de cima, antes de se afundar. ai, quando os santos entrarem em natação sincronizada, ai, quando os santos vierem em roda concertada, ó meu bom deus, eu quero nadar nessa farra, quando os santos entrarem pela água iluminada. vem o palhaço, com o fato a descair, numa dança que sonha seduzir, ou na sombra em que o vilão vai surgir... isto são só sonhos. vem a noiva, de véu a flutuar, vem o dândi, de peito a naufragar, vem a sala de espelhos, a afundar... ouve o som transbordar. o enredo pode arder e cheirar a sexo, um divorciado gay, que anda atrás do seu e...

Drácula

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Sabes onde estamos?  No sítio onde aconteceu o meu pior pesadelo.  Descemos pelo elevador para o parque de estacionamento. Os lugares traçados no chão, a meia-luz artificial de um lugar onde não amanhece. Mas desta vez és tu que vens comigo.  E vais poder ver o que eu vi. Repara no carro preto que está ali em frente, se contares, tem seis velas acesas no capô e, dentro de momentos,  quando o porta-bagagens se abrir vai sair de lá um mar de ratos.  Imagina-me ali no meio, a procurar não cheirar, nem tocar, em cada rato que me afogava. Prometo-te uma dentada de felicidade, um milagre mínimo, a graça que organiza por dentro. Que só funciona na penumbra, só funciona sem público,  e só dura enquanto não se tenta provar o que foi. Um milagre de felicidade, um estado de graça íntimo, que não é grandioso, que não é imperial, e é o motivo pelo qual os verdadeiros amantes preferem a luz das velas (nem que sejam as do meu pior pesadelo) aos filtros do Instagram. Agora...

A facilidade do ódio sublime [solo de Occasio]

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Se os modos estão concertados E alguém tem de os executar...  Garanto que não vou ser eu. Vou um bocado além dos programas: Tenho livros — e não me bastam. Eis uma oportunidade De vos apresentar um velho amigo! [ Surge um letreiro em néon, a piscar:  Entra Occasio, com uma harpa electrónica. ] una amenaza… ¿no es también una promesa? si quieres venganza, confiesa, si vienes por armas, empieza: furia mansa por meses (sólo estás huyendo y eso pesa)— entonces… ¿pa' qué llamaste a esta puerta? [Occasio toca um harpejo que fica a ecoar.] él se acorraló entre vergüenza y confesión. quiere el tacto: la impresión, no el sentir: no. no, no. si lo tuviera,  le dolería el corazón  (por su generación). siempre a un paso de rehabilitación… las drogas le saben de pronto a descafeinado y rendición. él sólo quiere vivir al momento, y hay mil bastardos soñando con el tormento, el tropiezo, el regreso, el cuento. no es que tenga celos: lo confieso, es que fuma algo más leve,  y y...

esparsa quase sua ao concerto dos modos

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ao meu gato, que derruba fascistas. Os maus vi sempre tecer no mundo grandes enredos; e para mais me aborrecer, os bons vi sempre a boiar em lodo manso de medos. Cuidando entender assim o mal tão bem organizado, levei um tanque, subi um ranque, a consciência diz que não, o algoritmo diz que é são — e mesmo assim: vou ser cancelado. Por tantos anos lutaram, oportunidades de paz que desperdiçaram. Acho os modos tão sem brio, tudo é post , nada é lista; até a honra se regista.

O fim dos sonhos

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O grande problema dos sonhos: É que terminam quando acordamos... Sonho por um lugar à retaguarda, No êxtase da decadência néon. Tenho um plano e é sinfónico. Meio psicótico, doentio, hipnótico, É carismático, cinematográfico, E tem-me fleumático. A batida chicoteia, é uma dose Que me faz falta. Fui desencadeado para dançar,  Cada osso salta. Oh, e enquanto dançamos, mudam as luzes! Mãos atrás da cabeça, como Cristo disse! Aos beijos na pista de dança! Foi até que o chão ardesse! Não há maldição Que se compare à sensação! Sonhos realizados, Hipertácteis e em queda livre, No meio do êxtase do néon decadente. Onde é que estás, que eu não te vejo? (Mas eu sinto-te observar-me, meu anjo) Sonhos concretizados, Dilatados e em queda livre:  Nós — animais em ecstasy, Longe do coração, longe da vista. E se hoje não adormecermos? Será que na vigília fazemos Carneirinhos electrónicos? Até que o corpo Se lembre do escuro E volte, por fim, a sonhar?

Liga dos sonhos geométricos

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Manipular os sonhos dos outros é fácil: há uma evidente geometria entre as expectativas do sonhador e o que este pensa ser princípio, mas não passa de hábito.  O sonho pode ser tão costumeiro como a rotina do autocarro para o trabalho. E é tão fácil entrar numa paragem e sair quando me apetecer.  Acordadas, as pessoas defendem com unhas e dentes as identidades que alucinaram. As versões de si que gostam de vender são portas fechadas por fora. Mas quando dormem, rascunho geometricamente todos os seus materiais:  o disparate, o erro, a cobiça, pecados pertinentes, arrependimentos fracos, o veneno, o incêndio e o punhal, os prazeres clandestinamente roubados, o abuso, os chacais, as panteras, os escorpiões, os macacos, os abutres e as serpentes... e o mais maligno e o mais imundo de todos, o tédio...  Imploram que os endireite e mostre precisos. Ora bem, visto tratar-se de expectativas relativas a um costume, os sonhos tendem a seguir padrões. Esses padrões vêm da exper...

Oblívio

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eu prometi decadência, mas também prometi  ir do declínio do tétrico ao fascínio do mítico! ... ou será que era... ir do declínio do mítico ao fascínio do tétrico! logo decido... e já vos disse: não me tragam o horizonte,   que eu chego lá! da maldição da imortalidade, esse luxo de nunca acabar, esse castigo de não passar. mas hoje não vos vendo duração. eis o antídoto para a imortalidade. bendito seja o oblívio, não como fuga, mas como justiça. bendito seja o apagar lento do que nos apodrece a alma por dentro, os dentes de Cronos soltos das costas, as marcas a desaparecer devagar, o peso de sermos sempre alguém. cantemos então: um hino para que desça o oblívio — o intervalo, o justo silêncio, a página equilibrada tornar-se um quarto, macio e sem ecos. não é morte: é descanso da cortina, finalmente baixada, sem aplausos, vénias ou público. bendito seja o oblívio, não como virtude, mas como direito. é misericórdia sem altar: é liberdade de não ser lembrado, de não ser vist...