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O pacto com os diamantes

Vem a mim, Musa, com glamour e crueldade, por favor. Faz aquilo que tu fazes, e eu dispo-te. É mais uma noite, a luz da lua reflecte, a urbe acorda, começa a rotina dos noctívagos. A mente desfoca-se, por isso foca-te na tua sina. Entra o diabo pela janela e pergunta, como sempre: "Sabes qual é a fórmula para a beleza?" Mas eu já sou letrado nestes pactos e dei-lhe duas opções. Será chegar ao momento em que dizemos "Demora-te! És formoso" e vendemos a alma? Ou será lutar contra um mar de obstáculos e perdê-la, ainda assim? (Um é Fausto, outro é Hamlet). Insiste com aforismo e aborrecimento "A vida é um enigma do esotérico" e eu, tolo, pergunto-lhe pela morte e os seus encantos. E o comércio exotérico com o que escapa às extremidades do alcançável? Na jogada do costume, pretende mostrar-me as imagens que já vi, num outro filme (que mais parecia um longo anúncio de uma imobiliária mental com que me cruzo todas as quartas-feiras). Sugere uma eléctrica e eclét...

a admiração pela honestidade

As imagens na minha retina passam  mais depressa  do que se fixam!  Mais uma volta  e pode ser que fique eterno! Queria estudar a honestidade através de um olhar selvagem, mas a estranheza das asas persiste em erguer-se! Há uma alquimia secreta, obscura e delicada, onde a mente do artista se faz labirinto e as almas perdidas ensaiam felicidade e ferida. Como um poema dito por um velho bandido, Escutas as palavras que sempre te prometeram! Num timbre assombrado (já te sentes perdido) Está na hora de lançares o  feitiço da noite! Se a fantasia pudesse inventar um amigo, a paleta dos vossos sonhos incendiaria o mundo, para além do universo (esqueçam o seu fim). A vida só se cumpre arte num lugar terminal, onde o paliativo é lugar sem promessa, onde a natureza cavalga sem rei nem tribunal. Oh! Fantasmas da pista de dança, venham a mim —  cantem-me a melodia das minhas vergonhas! Engasga-te na tua própria fama, até te livrares da lama, senta-te na fila da frente...

vida boémia

[título alternativo: Uma crucifixão é como ver de cima] Para quê ter uma voz,  se já ouço vozes? Atrozes, velozes,  a fugir por ensaiadas poses? Osmoses de egos sem posses,  credores morais, cobranças banais,  prostituições intelectuais. Eu admito, sou um bocado solitário, tive de crescer criativo,  para não parecer ainda mais perdido. A minha mãe ensinou-me a não falar com estranhos, agora o estranho sou eu e ninguém me fala. Passei demasiado tempo a cultivar mística, (farmar aura na rotina banal) E posso não ser um bom exemplo: não singrei, fiz-me feliz, o que eu digo não se escreve, e o que eu escrevo não se diz e tirando este verso,  os outros todos são as mentiras que eu quis. Mas só vejo um tipo de pessoas imitar-me (estou a ver-te, sim) e se ninguém aqui me dá, eu tiro (instinto, impulso, estilo) vou ser vilão por umas horas, para ver quem vos salva desse delírio! Se não te vês no futuro  ( mutatis mutandis,  trocado por miúdos) és descartá...

última surpresa [tema e variações]

os melhores esquemas traçados pelos homens e pelos ratos nascem certos, morrem tortos são dívidas a prestações por risos a curto prazo. bom dia, o meu nome é n-n-não vale a pena, conhecer-me (longe de mim!) é risco desnecessário, há dias em que fujo dos holofotes, outros em que não evito o contrário (e eu não sei ficar parado) eu não sei se sou eu que não tenho o tempo, ou se é o tempo que não me tem a mim... se calhar, tenho de escrever mais uma (estas últimas não bateram) se não me meto a escrever vou fazer os trabalhos de deus  pro bono mas o Bono, desde que casou,  acredita numa vida depois do amor e eu já só acredito no amor depois da vida. queres passar à frente? (tem calma) pede às Musas pulmão para este fôlego, ou instinto para estas altitudes, não conheces esta arte? (ciência profética) não leste o livro? vê o espectáculo, não viste os sinais? sente o impacto. e quando olhas para o horizonte (nem uma nuvem) mas o olho do furacão já te engoliu, parece que veio do nada...

Estudos Avançados em Partir Corações

[Com interpolações de NERVE] Preâmbulo: Isto não é para novos. Regra número um: faz regras e esquece-as. O corolário é evidente. Não me dou bem com nós e laços . Sou amigo dos fleumas, que guardo nas veias; dou-me bem com os nervos frios das cadeias, se tentas salvar-me, sustém a respiração: E digam ao Mestre de Pesadelos que estou no ponto em que a tortura parece uma bênção. Não me dou bem com nós e laços , aprendi a entrar em silêncio, por passos baixos, sem pedir licença, sem liberdade de expressão, porque "o demónio mora ali, na porta em frente à porta em frente à minha". No princípio era o ruído, o rumor no corredor, dito baixinho, a edificar uma casa de terror. Não há aqui quem ame; há quem observa, há quem mede a distância entre o rosto e a reserva. Um gesto fora de tempo, uma frase mal traçada, a repetição, a dúvida, tenho a alma destravada. Partir corações é só a superfície, apenas o começo, a parte mais funda é fazer do medo um endereço. Tu não viste quando começou....

De veludos e vícios

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O dia em que beijaste um poeta às escuras, morra e pereça! De veludos e vícios se fez o sonho. Superfícies macias que encobrem servis mecanismos. Energias a render para consolo do consumidor. Fome sem nome. Avidez obscura que pede mais, sempre mais, sem saber o que pede a mais, mas imediatamente reconhecedora da próxima dose. Puxam-me, empurram-me, oferecem-me poses e personagens praticadas. Tanta linha por cheirar e eu a assentá-las no currículo.  De veludos e vícios se fez o ódio. O ódio não nasce grande: faz-se útil. Poupa o trabalho de sentir, oferece um alvo ao vazio, cola uma máscara ao que não tem rosto. Dá ambição aos que já desistiram da alma. Faz arder buracos pelas ruas. Faz confundir violência com forma, grito com canto, castigo com sorte. E chama sublimação ao que não passa de mesquinha punição. Mas de veludos e vícios se fez o sonho. Guardo fantoches em caixas de bolachas, guardo-os até me fartar desta máscara que criei à minha volta. Um oásis, o paraíso nas minhas mã...

Elevação

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para lá do oceano de sangue de uma ferida, para lá da discoteca e do medo; vai onde a luz, sem pompa, invade a vida e toca o todo um segundo mais cedo. acima do tédio e do bafo da cova, do azar que nos persegue em rito; da beleza, amarga, dúbia e nova, sobe, um coração, para fora do conflito. move-te, agora, como quem deve à água a técnica secreta de persistir; não pela asa triunfal que rompe a mágoa, mas pelo fôlego limpo de emergir. move-te como quem, depois da água e da ferida, aprendeu no naufrágio uma ciência mais fiel; não para esquecer a lama, o aço ou a descida, mas desfaz no sol um fel tornado mel. feliz quem distingue a sombra da claridade, e vê na flor do mal uma réstia da oração; quem acha no comum, sem grande vaidade, beleza bastante para enganar a podridão.