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Liga dos sonhos geométricos

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Manipular os sonhos dos outros é fácil: há uma evidente geometria entre as expectativas do sonhador e o que este pensa ser princípio, mas não passa de hábito.  O sonho pode ser tão costumeiro como a rotina do autocarro para o trabalho. E é tão fácil entrar numa paragem e sair quando me apetecer.  Acordadas, as pessoas defendem com unhas e dentes as identidades que alucinaram. As versões de si que gostam de vender são portas fechadas por fora. Mas quando dormem, rascunho geometricamente todos os seus materiais:  o disparate, o erro, a cobiça, pecados pertinentes, arrependimentos fracos, o veneno, o incêndio e o punhal, os prazeres clandestinamente roubados, o abuso, os chacais, as panteras, os escorpiões, os macacos, os abutres e as serpentes... e o mais maligno e o mais imundo de todos, o tédio...  Imploram que os endireite e mostre precisos. Ora bem, visto tratar-se de expectativas relativas a um costume, os sonhos tendem a seguir padrões. Esses padrões vêm da exper...

Oblívio

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eu prometi decadência, mas também prometi  ir do declínio do tétrico ao fascínio do mítico! ... ou será que era... ir do declínio do mítico ao fascínio do tétrico! logo decido... e já vos disse: não me tragam o horizonte,   que eu chego lá! da maldição da imortalidade, esse luxo de nunca acabar, esse castigo de não passar. mas hoje não vos vendo duração. eis o antídoto para a imortalidade. bendito seja o oblívio, não como fuga, mas como justiça. bendito seja o apagar lento do que nos apodrece a alma por dentro, os dentes de Cronos soltos das costas, as marcas a desaparecer devagar, o peso de sermos sempre alguém. cantemos então: um hino para que desça o oblívio — o intervalo, o justo silêncio, a página equilibrada tornar-se um quarto, macio e sem ecos. não é morte: é descanso da cortina, finalmente baixada, sem aplausos, vénias ou público. bendito seja o oblívio, não como virtude, mas como direito. é misericórdia sem altar: é liberdade de não ser lembrado, de não ser vist...

Necromântico [a Magnanimidade da Ópera Pop-Electrónica]

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Overture:  [entra Occasio, com uma guitarra eléctrica, a cantar uma última Lamentação] lo que tiene no fue más que un legado, y ha sido olvidado por cada sueño guardado. siente que no habrá posvida, al final, que no existe otro lado, otra señal; cuando se apagan las luces, sin testigo, se queda solo, tan solo, consigo. cuando se apagan las luces, piensa, al despertar, que quizá no despierte, que no hay “más allá”; que no existe otro lado, ningún abrigo, y se queda tan solo, tan solo, consigo, mientras todo sonríe, juega, vive entero, él siente que la vida es dura — y morir, ligero. Recitativo: [entra em cena o Mestre de Pesadelos] Retomo a voz. Eis a prometida magnanimidade da ópera pop-electrónica! [corre o palco de um lado ao outro] Afino sintetizadores, estabeleço o tom. Acendo velas, baixo luzes, controlo as cortinas: sobem e descem. [parece um cientista louco a produzir o seu próprio espectáculo ao vivo] Vou explicar-te as regras do meu ofício. E por que preciso de encena...

magia da simpatia / simpatia pelo diabo [medley]

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nos sonhos, a memória é disléxica, os nomes e as caras confundem-se, só existe o dantes e o depois. e as luzes nos sonhos são assim, como a lama que escorre pelos dedos, o único Deus que conheci e que não precisa de mim de joelhos para crer. (será que sou diferente? será que não mudei?) permite-me que me apresente, sou pessoa de valor e gosto, tenho andado por aqui há muito e já arrebatei muitas almas e crenças. não reconheço uma cara sem cicatrizes, engasgo-me na fama que não consigo cuspir, agachado e de blazer, ansioso e envergonhado. nas vagas humilhações da reputação. não vejo no valor uma virtude já nem tento ser bom no que faço para me safar, prefiro o consolo da magia da simpatia. prazer em conhecer, espero que adivinhes o meu nome, mas aquilo que te assusta é a própria natura do jogo. e como cada polícia é ladrão, e cada santo um pecador, e como as coroas são as caras, chama-me Caos pois preciso de humildade. se precisares de mim, mostra cortesia, tem simpatia e redefine elegâ...

Timóteo 6:11-21

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tenho de fazer um hino, um cântico pela luta justa... a do bom caminho da fé, aquela das minhas inspirações, dos grandiosos a quem devo espaço em largos ombros, onde deslizo,  prudente verme. (quem sou eu? talvez nem aqui esteja, será que nem sou único?) acorda,  levanta-te,  estende a mão, sai para as ruas, deposita o fogo em poemas e levanta a voz aos que injustiçam, mas questiona: porque é que ninguém quer mudar? meu irmão Timóteo, se há frutos, é para colher, até morrer. sê rico em boas ações, guarda a fé que recebeste por herança. o sonho pode ser aquilo que nunca morre, envolto numa luz impenetrável, verdadeiro salvador, o paraíso na terra, que podia ser contigo aqui.

teoria do Serafim

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[entrada em barítono] Bienvenue dans la maison de l'Ordre! Voici les anges  que j'entretiens en moi: Entre ces murs que je bénis, Laissez-moi, ô,  p artager mes rêves! vamos lá teorizar o serafim, o da mais alta ordem, sete asas douradas "dos que ardem". dizem que no fim  vem tudo purificar, numa armadura  da mais sacra prata. o seu testamento traz sete paraísos, nas suas mãos, relíquias da ascensão; talvez nos teus livros  tenha o nome de Maldição. e vê-lo é ver a hierarquia da quebra - o momento em que tudo rompe - passado e presente; remorso e auspício. ao passar da divina excalibur  da luz solar.

do abismo

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eu tentei não te largar  (mas nunca agarrei) eu não gosto das visões  da moca da ressaca. deixa-me acordar, enfim, no meio das rosas  já terminou a vida que ficou para trás  qual seria o ponto de ficar, com tudo a arder? e tudo a cair... eu sei, que sei eu… estou a cair à velocidade dos nossos sonhos  estou a desaparecer à medida que a tua cara diminui  diz-me só uma vez as únicas palavras que me dão vida  pode ser que nos encontremos do outro lado. agarra bem forte no meu coração sabes que bate por ti estou a cair à velocidade dos nossos sonhos pode ser que nos reencontremos ainda aqui. deixa-me abrir os olhos com dignidade. o mundo está adiante. salta a fronteira, (muito que custe) vamos começar,  é só escalar,  é só subir... Nossa Senhora do Caos,  se eu vou rezar, não é para fugir,  é para acordar.