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re:corda

Ó estranho,  dá-me força, lembra-te de mim. Acorda, estende a mão. Salva o que vem a seguir: para eu reconhecer ainda cá o gesto de quem depois dá. Respira: devia ser bem fundo. De fé, devia dar um salto. Sabor: da melancolia ao submundo. Perde o que já não tens no asfalto. Espaço: à medida dos teus passos. Uma milha a caminhar nestes sapatos, poderão conter os teus cansaços? E tinha a chave da porta que se abria para o jardim das rosas. Do outro lado, ninguém dizia o meu nome, e eu podia entrar. Ou tudo o que resta, ou tudo o que fui. O brilho da estrada turva-me a vista, ondas de calor, estou a nadar num espelho! Não sei o que encontrar, mas sei que vou chorar  todas as minhas lágrimas. E o jardim é este lugar onde já não cabem os que partiram, de onde nenhum deles sai. Os sonhos rebentam as costuras. Ó estranho, recorda-te de mim. Recorda-te até do que não viste: da mão pequena, da chave demasiado grande, das oito voltas em correria  em direcção às rosas e dos mares de...

uma lição perdida de um mestre perdido

Quando o meu Mestre me perguntou como tinha corrido a viagem, eu disse-lhe que julgava ter encontrado a razão da minha existência.  — Creio entender agora como cada pessoa atravessa a vida convencida da sua própria virtude. Como se tivessem sido escolhidas para redimir o mundo através de uma luz permanente e fixa. Mas a luz, se se fixa, não passa de uma fachada. Dentro de cada coração há sombra e muitas vezes aquilo a que chamamos virtude não passa de uma farsa bem iluminada. Se saber disto é a minha maldição, aceito-a de bom grado. O Mestre escutou-me e disse que eu devia ter confrontado muita escuridão, para falar com tanta certeza. Ousei, então, formular a minha teoria: — Aqueles que ambicionam um poder de forma desmesurada roubam-no aos que o têm e convencem-se de que o merecem. É assim que começam a sujar-se. Acreditam naquilo em que pretendem acreditar. Inventam razões fúteis para justificar as suas acções. Repetem as mesmas desculpas até que se confundam com a sua verdade. E...

prelúdio para um labirinto

ó sonhos virtuosos, acordes desesperados, formas disformes, frascos endiabrados, quimeras da fronteira entre a magia e a ficção, voltai: quererei fixar-vos um dia? será que este meu coração à vossa superstição se renderia? ó carnaval mirabolante, de sorrisos e de pouco siso, envolve-me, como dantes, nesse vosso triunfo: eis-me, sou vosso (gritem por mim, anjos,  como se estivessem a morrer). e tu, ó canto que encantas a multidão, com a melodia que escolheres, com o timbre que quiseres, electrifica o desplante,  surpreende, radiante: podes ser remédio, veneno e droga, a partir de atlas e herbários para findar rituais. segue, pela urbe, o tropel dos desejos, enquanto desvanece o chão, não se espanta; emana subtis verões juvenis e até os dragões mais lúcidos abrandam. ei-la! ó boémia de outrora, dos que se comoveram em horas de ouro, no enlanguescer do fim de um dia, em que todos aparecem despidos e gloriosos (horas de ouro… como escoaram). o amor e o aplauso são como chicotadas,...

beladona de Láquesis

estou a viver em tempo extra um décimo-terceiro esforço para uma vigésima-quinta hora. enquanto a tensão cresce e a lua corrompe o caos que se vê e o caos que se é talvez se confundam, na ária de um pianista sem nome, num poema pintado em nuvens, nas badaladas das beladonas... (que sempre houve anestesia na alquimia) hora obscura, talvez já diurna e amar corta como uma lâminas de pétalas a perder o tempo em levitação e delírio... será que devia pegar fogo a tudo — a fama, a fortuna e que mais! —  contigo ver tudo arder, e começar de novo? é que até a gente boa sangra... mas há uma luz,  no meio de tantas, uma, e uma pista de dança sobre que olho, ambas me contam algo que se passou: do fogo no nosso chão, da devassidão da minha devoção, para que o mesmo conto se repita e onde está o nosso olhar estrelado? onde acaba a glória e começa o sonho.

anjo baleado, anjo baleado

os tiros foram disparados  pelas veias da cidade, anjo baleado, anjo baleado, por que é que ficou tudo especado? anjo baleado, asa da lua cheia, leva-me daqui, leva-me para nenhures: inferno, purgatório, matriz, das maravilhas um país, constelação da veia láctea, para junto das ondas que cospem vidas possíveis  por um triz. anjo baleado, anjo baleado, imagem constelada, lágrima cristalina, ferida que brilha, ruína que ilumina, ao fim do dia, só queremos sair daqui, (como pudermos, sem nos explicar) confortavelmente errados, estranhamente inteiros, sem obrigação de regressar. anjo baleado, anjo baleado, a empatia pode resolver esta realidade, uma sociedade da saciedade, catástrofe, situação fodida, no pavimento, em confusão repetida, aplauso para uma rima desmedida. anjo baleado, anjo baleado, as lágrimas de um dragão podem não sarar pauis, mas tenho escamas, podemos resistir à condição! e escorre-me sangue pela mão, para reescrevermos a dissolução! anjo baleado, anjo baleado, ...

pétalas pesadas

pétalas caem como lágrimas num pântano. e de quem é a culpa? minha ou da vegetação? jogo xadrez com dados de faces incertas e aperto-te nos meus braços mais um pouco enquanto o mundo estiver a acabar... mas eu ainda nem comecei: era uma vez, num sonho alcançar-te, da porta que nunca se fecha contar-te, e ravina abaixo, pela noite, arrastar-te até que a luz de presença se despedace. há algo em mim que quer amar-te sem piedade nem perdão, revelar-te diante do medo que não queres ouvir, sussurrar-te... mas quase me afogo em pétalas, só queria poder dizer adeus às fotografias das vidas que não vivi; às centenas estendidas na enfermaria da hecatombe; se esta é a minha maldição, aceito-a de bom grado. uma ruína conveniente, pétalas pelas roseiras, um sacrifício psicótico, retratos de pétalas filtradas, dizem que não há corações partidos no paraíso. e quando a aurora iluminar mais pétalas que me deslizam pelas coxas talvez já não tenham sabor a sal, talvez sejam só mais um nome elegante para ...

debaixo da máscara

o amor é como um comboio, podes sempre esperar pelo próximo. queira compreender e acompanhar-me,  próxima paragem: Desespero.  este vagão não pára em apeadeiros. se na superfície, sou uma criança diabólica; lá no fundo, eu só quero a santidade. não julgues pela capa: este abismo é mais profundo do que parece. hipoteco a abnegação à espera de um credo, a cair, a sufocar, sem ar! e mais uma vez, bem-vindos a um novo começo! reinicia o espectáculo! não vejo diferença entre piadas e testemunhos, entre ser real ou majestoso, tudo se confunde no mesmo esboço, se uma simples lambidela te deixa a desejar, eu deixo a marca, para mais tarde lembrar, antes de bater, meritoriamente, no teu fundo. abana a anca, realizo-te os sonhos, parto corações, desalinho contornos, mudo de roupa, assumo a tua voz, sou o papel que escreves em nós! mestre de sonhos, leitor de mentes, motor de mestres, tudo o que sentes num papel principal. gato de rua, estrada crua, numa grua, ergue-se nua! o renasciment...