Oblívio

eu prometi decadência,

mas também prometi 

ir do declínio do tétrico

ao fascínio do mítico!

... ou será que era...

ir do declínio do mítico

ao fascínio do tétrico!

logo decido...

e já vos disse:

não me tragam o horizonte,  

que eu chego lá!


da maldição da imortalidade,

esse luxo de nunca acabar,

esse castigo de não passar.

mas hoje não vos vendo duração.

eis o antídoto para a imortalidade.


bendito seja o oblívio,

não como fuga, mas como justiça.


bendito seja o apagar lento

do que nos apodrece a alma por dentro,

os dentes de Cronos soltos das costas,

as marcas a desaparecer devagar,

o peso de sermos sempre alguém.


cantemos então: um hino

para que desça o oblívio —

o intervalo, o justo silêncio,

a página equilibrada

tornar-se um quarto,

macio e sem ecos.


não é morte:

é descanso da cortina,

finalmente baixada,

sem aplausos, vénias ou público.


bendito seja o oblívio,

não como virtude, mas como direito.


é misericórdia sem altar:

é liberdade de não ser lembrado,

de não ser visto e de não ter de provar

que existimos.


e se a imortalidade vos promete grandeza,

eu prometo-vos o contrário:

prometo-vos pequeno.

prometo-vos humano.

a bênção de acabar

na medida certa, ao tempo certo,

com o coração a caber no peito!


bendito seja o oblívio,

não como deus, mas como casa.


deste lado, somos nós 

os retratos a cinzento dórico.

a bênção do oblívio no regresso a casa,

que a famigerada mentira da imortalidade,

não volte a chamar pelo vosso nome.

desce, por fim, o antídoto:

eu avisei que isto era decadência...




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