Liga dos sonhos geométricos
Manipular os sonhos dos outros é fácil: há uma evidente geometria entre as expectativas do sonhador e o que este pensa ser princípio, mas não passa de hábito.
O sonho pode ser tão costumeiro como a rotina do autocarro para o trabalho. E é tão fácil entrar numa paragem e sair quando me apetecer.
Acordadas, as pessoas defendem com unhas e dentes as identidades que alucinaram. As versões de si que gostam de vender são portas fechadas por fora. Mas quando dormem, rascunho geometricamente todos os seus materiais:
o disparate, o erro, a cobiça,
pecados pertinentes, arrependimentos fracos,
o veneno, o incêndio e o punhal,
os prazeres clandestinamente roubados, o abuso,
os chacais, as panteras, os escorpiões,
os macacos, os abutres e as serpentes...
e o mais maligno e o mais imundo de todos,
o tédio...
Imploram que os endireite e mostre precisos.
Ora bem, visto tratar-se de expectativas relativas a um costume, os sonhos tendem a seguir padrões. Esses padrões vêm da experiência individual de vida e metamorfoseiam-se em quimeras eufóricas e ameaçadores serafins. Isto é, basta pisar uma pastilha na vida, para sentir a cola no sonho.
Ou seja: eu sei mexer nos teus símbolos. Não preciso de inventar, é só organizar. Traçar as linhas das vontades, aparar os ângulos às memórias, desenhar uma grelha e chamar-lhe destino.
Daí adiante, é tudo sugestão e hipnose baseada na obsessão. Tu só estás a olhar para este pêndulo porque o desejas, doentiamente. O pêndulo embala-te — como a infância perdida — e essa nostalgia é suficiente para o salto do sonho. E não digo isto como se fosse um lugar ou uma paisagem a receber uma segunda demão. É uma técnica. Os teus sonhos são uma sala de luzes reguláveis.
No meio da noite, sentes um símbolo encostar-se ao peito — não pesa, mas ordena.
Uma estrela para a urgência. Uma linha recta para a repetição. Um círculo para o sonho predestinado.
Entra-se pela vergonha, que é porta de serviço.
O resto é o Caos a acender letreiros luminosos por cima das montras, quais altares da tua autopromoção, bem organizadas nos teus sonhos. Eu só preciso de saber onde pôr o foco — não para salvar, mas para que se veja. E quando vês, o sonho obedece.
Fecho a porta, depois de arrumar o resto da casa, e fica a simples ideia de que isto foste tu a fazer. Acordas com a sensação de escolher engrandecer-te ainda mais, sem saber que esse engrandecimento também foi ensaiado.
Não grito. Não imploro. Não faço cenas. Desenho. E é por isso que não preciso que sonhes comigo. Eu posso concretizar-te.

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