Necromântico [a Magnanimidade da Ópera Pop-Electrónica]
Overture:
[entra Occasio, com uma guitarra eléctrica,
a cantar uma última Lamentação]
lo que tiene no fue más que un legado,
y ha sido olvidado por cada sueño guardado.
siente que no habrá posvida, al final,
que no existe otro lado, otra señal;
cuando se apagan las luces, sin testigo,
se queda solo, tan solo, consigo.
cuando se apagan las luces, piensa, al despertar,
que quizá no despierte, que no hay “más allá”;
que no existe otro lado, ningún abrigo,
y se queda tan solo, tan solo, consigo,
mientras todo sonríe, juega, vive entero,
él siente que la vida es dura — y morir, ligero.
Recitativo:
[entra em cena o Mestre de Pesadelos]
Retomo a voz. Eis a prometida magnanimidade da ópera pop-electrónica!
[corre o palco de um lado ao outro]
Afino sintetizadores, estabeleço o tom. Acendo velas, baixo luzes, controlo as cortinas: sobem e descem.
[parece um cientista louco a produzir o seu próprio espectáculo ao vivo]
Vou explicar-te as regras do meu ofício. E por que preciso de encenar sonhos de Ordem.
[Occasio atravessa o palco, sem olhar, e ordena]
Ahora. Confiesa. O olvídate.
Ironicamente, já sabes: chamam-me Caos.
[abruptamente, silencia os sintetizadores e olha para a câmara]
Ária:
[À medida que executa uma peça desconcertante ao piano]
Quando Occasio me diz "agora", eu não oiço juízos: ouço portas e janelas abrirem. Vi-te a fugir por uma delas.
Era uma vez um mestre de Pesadelos que tomou uma lisonja como método. Foi sonhado — por ti. E, por momentos, voltou a ser o homem que era. Passou, devotamente, a encenar os pesadelos mais hediondos que curava com artifício. E foi assim que o método o devolveu ao fundo.
Pensei que tinha morrido num sonho. A implorar por respirar, a argumentar por sobreviver. A cair lá no fundo desde o alto de uma torre de marfim. Engolido por ondas de memórias e luzes, com sabor a metais pesados. E o mais humilhante: o mesmo fundo onde eu ainda te procuro.
O labirinto do teu país de maravilhas é impressionante, mas eu não entendo o código. "Bebe-me", diz o rótulo dourado do frasco de vidro frio, antes que a corrida acabe. Serias o Santo Graal dos meus vícios? Ou a pinga de vício suficiente para nunca mais poder ver o cálice?
E se esta casa ainda não é um lar, diz-me como fazer o amor florir? Quando o teu amor é o sol de Inverno, um dia cá e outro lá. Uns dias quase, outros nunca. Por vezes chegas a preocupar-te, mas é sempre um jogo injusto. E quando te dedicas a amar, ouço as portas fechar.
Consegues ouvir os violinos extra-diegéticos?
[Entram violinos, igualmente desconcertantes]
Põe-me a dormir e eu construo-te um jardim de delíquios suspensos! Só para te ter — nem que seja em sonhos — ao meu lado. Eu só não queria acordar sem a tua cara aqui. Onde foste quando mais precisei de ti? E com todos os teus arrependimentos, eu ainda te defenderia. Não tenho verdades a esconder: mesmo sem ti, fico como [a voz distorce] e eu pareço exactamente o mesmo.
Esta é a noite de estreia. E lá se foi o ritmo. Tremo por detrás da persona. Sinto o sangue a engasgar o coração. Sufoco em veludos encarnados. Tenho "Aliquid stat pro aliquo" a sangrar da testa. Dá-me o que preciso, puxa a cortina, acende os néons — vamos começar o espectáculo. Estou a tentar curar-me. Não sei se estou a conseguir. E tu, que por uma só noite, querias ser o meu antídoto... ?
Estou na minha estreia, mas digo-te o que não me coube na partitura: que nunca pretendi imortalidade. Só queria ter sido sonhado. Fui lisonjeado ao ponto de fazer da loucura um método. Quando me sonhaste, ressuscitaste-me. És tu o meu Necromântico!
Olha, fiz uma sombra com as minhas mãos. Queria que tivesse a forma do teu coração. Mas sei que nunca vão ser o mesmo. Traz o teu amor, eu levo a minha vergonha. Traz as drogas, eu entrego-te as minhas dores. Traz o corpo, eu levo-te ao sonho. Tens o meu coração aqui.
E se estas são as palavras que tanto querias, porque não me deixas sonhar contigo?
Ser um ribeiro num deserto.
Ser o último trunfo de uma mão perdida.
Ser um oásis em terra ardida.
Nem que seja por uma noite.
Coro:
[Massa vocal em canto ritual]
ou tudo o que resta,
ou, então, tudo o que foi.
nada o deixa mais feliz.
ele é
ou tudo o que resta,
ou, então, tudo o que foi.
e nada o deixa mais feliz.
Interlúdio:
Que a vida é dura — e a morte é fácil.
Que o tempo é curto, mas a arte é longa.
Que o coro canta, mas o mito manda.
Ó, e a misericórdia... já ninguém quer saber!
[O Mestre de Pesadelos corre pelo palco para afinar os detalhes da Máquina]
Este Pesadelo sabe o nome que tem.
[Os néons tremem. A Máquina parece descontrolar-se]
Isto não foi ele que fez!
[A câmara grava a mão a escrever estas palavras a cursivo.
As cortinas descem e sobem, como pálpebras]
O vosso sofrimento sufoca-me os sonhos.
É louco! [Risos] Como é que ele ficou assim?
[O palco pega fogo e pode não estar controlado]
[O Coro ri-se, ao longe, como se nada estivesse em jogo.
Sussurram:] Vamos contar mais uma piada,
E rimo-nos todos até ele chorar!
Não é para fugir, é para acordar!
[Occasio passa, aproveita para tocar um solo, sem olhar]
Que o vosso despertar seja doce.
Aplaudam-no, eu acho que ele nos tem reféns.
Dai-me suspensão.
Finale:
[As luzes são intermitentes. Vê-se uma silhueta.]
Escrevo o meu /Antídoto à beira-ganza, no olho do furacão.
E chamo-lhe Ordem, só para ver se me engano.
[O Mestre confronta a câmara mais facilmente que a um espelho]
Eu romantizo a nossa morte. Finjo que não passa de arte.
[Occasio toca um último harpejo, enquanto
atravessa uma última vez o palco e sai]
Tu fazes-me falta, eu faço-te rir.
Sonha comigo.
[Pausa. Silêncio instrumental]
Ou concretiza-me.
[O palco controla-se e a cortina desce.]
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