mergulho

e ainda não tens palavras

para o que já te estão a fazer.


se vieste por uma catábase

(para além da mais recente),

terá de ser aquática.

não gosto de bichos da terra,

nem de remexer na matéria estática;

apavora-me a ideia seca

de desenterrar cadáveres meio comidos.


tudo o que acontece

nos sonhos

pode acontecer na vida:

dá para fazer rir,

dá para fazer chorar,

dá para boiar, em feridas...

tudo,

sim, tudo é a contar.

sim, tudo pode vir ao de cima,

antes de se afundar.


ai, quando os santos

entrarem em natação sincronizada,

ai, quando os santos

vierem em roda concertada,

ó meu bom deus,

eu quero nadar nessa farra,

quando os santos entrarem

pela água iluminada.


vem o palhaço, com o fato a descair,

numa dança que sonha seduzir,

ou na sombra em que o vilão vai surgir...

isto são só sonhos.


vem a noiva, de véu a flutuar,

vem o dândi, de peito a naufragar,

vem a sala de espelhos, a afundar...

ouve o som transbordar.


o enredo pode arder e cheirar a sexo,

um divorciado gay, que anda atrás do seu ex,

pode até ser um novo Édipo Rei,

com um filho a matar o pai de reflexo...

isto são só sonhos.


há sempre um palhaço solitário,

o pobre tolo, tombado ao contrário,

e toda a gente ri do seu fadário,

com a água a chegar-lhe ao pescoço,

mas são só sonhos...


há sempre um engraçadinho no jogo,

que só faz rir por engano e desafogo,

e a plateia esfrega as mãos ao fogo,

por um coração partido e sem repouso...

porque são só sonhos?


mergulha a agulha na tinta,

que há sempre um perdedor.

a bancada adora ouvi-lo em pranto,

o rei grita: “já chega de pudor,

está na hora da dama gorda abrir o canto!”

e lá vai ela sair do lamaçal...

foi o que a água nos devolveu.


ele veste um fato estranho (é um palhaço!)

o público ressoa em bafo espesso.

toda a gente contempla o seu cansaço.

a rainha risca a água com aço.

e isto são só sonhos.


é que debaixo de água

o som chega deformado, 

o corpo pesa de outro modo,

o riso da tribuna fica afastado,

a queda já não serve de espectáculo.

só o som do transbordar.


debaixo de água,

o gesto não é tão visível,

os rostos desfazem-se,

a voz perde o caminho,

a cena já não arde.

o som transborda.


lá, onde, finalmente,

o palco se afoga,

a luz se dobra,

a voz desfaz-se,

e eu respiro. 


é que ainda nem tinhas palavras

para o que já te estavam a fazer.




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