Vem a mim, Musa, com a tua fantasia e o teu subtexto. Faz aquilo que tu fazes. E eu perverto-te. É mais uma noite, a luz da lua reflecte, a urbe acorda, começa a rotina dos noctívagos. A mente desfoca-se, por isso, foca-te na tua sina. Entra o diabo pela janela e pergunta, como sempre: "Sabes qual é a fórmula para a beleza?" Mas eu já sou letrado nestes pactos e, para ganhar tempo, dei-lhe duas opções. Será chegar ao momento em que dizemos "Demora-te! És formoso" e vendemos a alma? Ou não será lutar contra um mar de obstáculos e perdê-la, ainda assim? (Um é Fausto, outro é Hamlet). Insiste, com aforismo e aborrecimento, "A vida é um enigma do esotérico" e eu, o tolo, pergunto-lhe pela morte e os seus encantos. E o comércio com o que nunca se deixa agarrar? Na jogada do costume, pretende mostrar-me as imagens que já vi, num outro filme (que mais parecia um longo anúncio de uma imobiliária mental com que me cruzo todas as quartas-feiras). Sugere uma eléctri...
Prelúdio O público movimenta-se em volta de uma cortina vermelha com o título bem indentado: O caso caos. Podia ouvir-se os murmúrios, finalmente haveria uma explicação, finalmente saber-se-ia o que aconteceu, finalmente... Como se ver aquela cortina levantar-se e, meia hora depois, fechar-se fosse finalizar o que quer que fosse. Como se pontos finais saltassem da pontuação para a vivência. Como se a arte pudesse explicar a vida. E o que é que veio primeiro? A vida ou a arte? Nota-se uma mudança no tom do narrador. O que vai aqui ser contado pode parecer justificar acções, mas qualquer semelhança ou sentimento de alívio que possa suscitar é um fortuito meramente surgido do acaso das correspondências. É que por vezes, as pessoas na vida têm o mesmo número de membros que as pessoas da ficção. Mas as pessoas da ficção não fazem tantos acrescentos à ficção como as pessoas da vida. O público acalma-se, senta-se, continua a falar entre si, continua sempre a falar, receio até que cause di...
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