O pacto com os diamantes

Vem a mim, Musa, com glamour e crueldade, por favor. Faz aquilo que tu fazes, e eu dispo-te.

É mais uma noite, a luz da lua reflecte, a urbe acorda, começa a rotina dos noctívagos. A mente desfoca-se, por isso foca-te na tua sina. Entra o diabo pela janela e pergunta, como sempre: "Sabes qual é a fórmula para a beleza?" Mas eu já sou letrado nestes pactos e dei-lhe duas opções. Será chegar ao momento em que dizemos "Demora-te! És formoso" e vendemos a alma? Ou será lutar contra um mar de obstáculos e perdê-la, ainda assim? (Um é Fausto, outro é Hamlet). Insiste com aforismo e aborrecimento "A vida é um enigma do esotérico" e eu, tolo, pergunto-lhe pela morte e os seus encantos. E o comércio exotérico com o que escapa às extremidades do alcançável? Na jogada do costume, pretende mostrar-me as imagens que já vi, num outro filme (que mais parecia um longo anúncio de uma imobiliária mental com que me cruzo todas as quartas-feiras). Sugere uma eléctrica e eclética embriaguez. Eu só queria embalar na embarcação final, mas Caronte não recebe por gondoleiro.

Somos capazes de ficar acordados a noite toda. E todos os momentos são brilhantes diamantes.

Vá lá, só uma assinatura, um papel, uma caneta e a tinta do costume. E os que vieram antes sabiam que papéis há muitos, seu palerma! E que borras de sangue numa folha de papel não são cativeiros para as almas. Um deles até conseguiu ver o sorriso de um amigo numa caveira. Já eu, não vejo a hora do sol nascer para que o símio salte janela fora. O meu coração está em apuros; se o pudesse carregar sozinho, não tentaria tanto paliar a acédia que ficou para trás. Ele insiste em riscar o disco, ele persiste em mostrar os papéis. O facto de eu ter um musical da Broadway num barco pirata na minha cabeça não é sério o suficiente. Lá vai um a lutar uma batalha sem escudo, lá vai um rei a pontapear a coroa, lá vai um a gritar como uma apresentadora de programas da manhã. E têm todos a mesma cara. "E o papel? O papel!" — outra vez. Eu não preciso do papel, senhor. Eu preciso da vida. 

A vida por um cavalo. Também deve ser Shakespeare — essa baleia que engoliu Marlowe. E não é que Mefistófeles percebeu o meu esquema de Sheherazade? Volte amanhã, para mais uma história, pode ser que venha condimentada com chaves, teorias e hipóteses. Quem sabe? Pode ser que faça do filosófico estético e do ético mítico. Mas o papel por assinar? Não. Porque não quero, nem preciso. Já lhe disse, desampare-me a loja, prefiro sonhar sintetizadores e saxofones no futuro do pretérito. No fundo, já o tenho e esta é a melhor fórmula. Aliás, já a disse. Volto a repetir, para que saibas qual é o meu pacto: As imagens na minha retina passam mais depressa do que se fixam. E todos os momentos são brilhantes diamantes. E tem sido sempre uma variação disto. Em Camões o honesto estudo, longa experiência e engenho, em Wilde o retrato, em Baudelaire o azar, em Pater a chama das jóias, em Rimbaud a vida. E aqui perto também. Pero el Diablo no se lo cree. 

Todos os momentos são brilhantes diamantes. E somos capazes de ficar acordados a noite toda. 

E com o aproximar do amanhecer avisa-me do seu regresso. Uma (e outra) e outra vez. Eu explico-lhe outra diferença. Se vejo uma pessoa a caminhar para o abismo e não a conheço de lado nenhum, parece-me favorável avisar: "olhe, se continuar por aí, há um abismo". E quando são amigos a correr desenfreadamente em direcção ao mesmo abismo, eu desato a guinchar. Mas regressemos à oposição com que tudo começou. Fixar o momento ou lutar contra um mar de obstáculos? Será o final feliz tudo aquilo que sempre quisémos, ou apenas um novo e incerto início? E quando ele salta pela janela ao primeiro cacarejar de um grande actor, eu posso finalmente voltar aos frascos, aos comprimidos e aos grimórios. Do épico e do mítico... ficam as piadas.

Obrigado, Musa, pela tua fantasia e pelo teu subtexto. Faz aquilo que tu fazes. E eu perverto-te.

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