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a má ideia (outro)

só te posso dar a realidade que preteres à bestialidade de quatro paredes e vinte cigarros os monstros debaixo da cama e os esqueletos no armário eu tive uma má ideia (só queria passar algum tempo contigo) esquece lá isso, esquece-te lá dele, esquece-te de ti eu não te queria cilindrar à pressão eu não queria controlar o que quer que fosse (o frio nunca me chegou a incomodar) eu sou os átomos da água dissipada no nevoeiro a tocar na cara de um qualquer corredor que corre para onde pode aproveitar (podíamos passar algum tempo juntos) eu tive uma má ideia eu não quero continuar isto eu só queria atenuar a dor esquecer-me disto, esquecer-me dele, esquecer-me de mim (devias saber que sou um cronómetro)

a má ideia

sou o nevoeiro dissipado estou a perder o meu tempo surjo por andar preocupado à espera que me venhas salvar não quero continuar a fachada preciso de tentar controlá-la não consigo largar a obsessão preciso de encontrar alguém tive uma má ideia (podíamos tirar algum tempo juntos) — mas esquece lá—esqueceres-te dele —faz esquecer-me de mim! mesmo que não devêssemos, bora preciso de alguém, faz-me sentir mas não tropeces, que não é real quem me dera prometer ser a cura tive uma má ideia preciso de acalmar a dor esquecer isto—esquecer-me dele —esquecer-te de mim (devias saber que sou temporário)
um dia o sonho tinha de acabar. fechei os olhos para pedir o resgate à Musa, saltei para o bote salva-vidas e droguei o Caronte, pedi redenção e permissão: desvios do riso rumo ao cume. e não será de certo esta auréola de fumo a ser ceifada; e não será por certo o perfume da maresia, ondulado na desventura imponderada, a tolher os sinuosos cursos. vão queimar outras bruxas, que nada disto importa. cada músculo deste coração doente, e sopro de alma cadente, pede pelas suas felicidades.

Seno a Cima (Interlúnio, pt. 4)

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"if our soul has trembled with happiness and sounded like a harp string just once, all eternity was needed to produce this one event”  — Friedrich Nietzsche Não é nada fácil distinguir A linha que separa o céu do mar Não há estrela que não se repita E que não dance pelas ondas Amar é a razão que nos separa E as cicatrizes na amnésia à força Só saram salvas pela tua saliva Jorram sangue a jacto na areia Tatuam até ao topo o torpe tempo Em que cada segundo contigo é eterno Gritei o som para destrinçar o paralelismo E descobrir a via sem a aresta terceira Acima ver o seno de um triângulo sem lados

Associações

— tradução de "Correspondances", de Charles Baudelaire A Natureza é um templo cujos vívidos pilares Permitem por acaso as palavras confusas; E o homem passa por entre florestas obtusas Que o observam com olhares familiares. Como longos ecos que minguam a distância Numa tenebrosa e profunda unidade, Vasta como a noite e como a clarividência, As essências, os sons e os tons associam-se. Perfumes frescos como as carnes infantes, Doces como flautins, verdes como o pasto — Outros, perversos, afortunados, triunfantes, Têm a expressão das mensagens tétricas, Como o âmbar, a musa, a mirra e o incenso, Que cantam ao transportam da mente e das estéticas.

2016

"Unsere hysterisch Kranken leiden an Reminiszenzen" (Os histéricos sofrem de reminiscências) — Sigmund Freud Foi ver o incêndio por uma esmeralda, A cidade a arder e eu a produzir glitch art Não se chama melodia, Estava a tocar glitch harp. Dançavam hienas e diabretes Em volta da dourada fogueira Onde me queimavam o boneco A dança fria do insucesso conferido Era bem feita e mais do que merecido! Eu via os saltos dos gigantes calcar — via-os de baixo, a aproximarem-se para apagar um cigarro — Conseguiram fingir que um cigarro Atirado ao longo do céu da noite Era uma estrela cadente. Semanalmente partiam os cargueiros E o cronómetro à espera do fim para respirar Com memórias cobertas de pó para se preservarem Num novo formol (pudesse guardá-las em cloreto de prata) Mas nas veias só o lítio, o lítio, o lítio: — não vou estilhaçar, não vou estilhaçar, não vou estilhaçar; — não me vou prender aqui dentro, esquecer como se vive sem; — queria poder amar o ...

A repetição

No dia um senti o revolver condenar-me a saltar, não da prancha, mas para um buraco no chão, a seguir um coelho branco para lhe pedir a medicação. No dia um empurraram-me, prenderam e torturaram-me para ver se me comporto , ofereceram um comprimido azul e não hesitei em saltar de volta para o buraco (alguém me tira daqui vivo?). No dia um apresentaram-me à memória e não foi um prazer ver o inimigo número um olhar para me ver chorar repetir para me ver chorar eu não sei o que dizer eles não sabem o que fazer o silêncio na mente, a dormência da vontade, a repetição, em repetição, das reticências da acção são o engenho da melodia que chicoteia e cicatriza sem sarar a agonia das copas destes cogumelos que pagam as dívidas a um exército de cartas que entregam a justiça poética de um 1984  babilónico. Não importa, não importa o dano está feito. Ai importa, pois importa, vocês é que apertaram o gatilho. O quadro que vocês repetem é tortura para m...