Mensagens

Odes contra Yaldabaoth

Imagem
aquilo que nos surpreende leva a uma revisão da teoria e à redefinição de uma rede de crenças filho de Sophia, exilada por querer mais, as negras nuvens que encobrem o trono que reinam sobre um testamento mais antigo recebem o nome do tolo mais profano, acreditou ter criado tudo quanto existe. e ele divulga-nos o pecado da luxúria, quando na mão apertou o membro de Adam Kadmon, e da lança fez jorrar o sangue que encobre a história, e da história fez jorrar a culpa que nos encobre a nós, fôssemos, então, castos em tomar os erros dos outros. e ele divulga-nos o pecado da gula, quando tomou por suas as criações que eram nossas, quando derrubou jardins e semeou a discórdia na torre, quando engoliu de um trago a vontade de Adão, Sophia temperou-nos de moderação, por uma serpente. e ele divulga-nos o pecado da avareza, quando se apegou à visão do verdadeiro criador de tal modo que se considerou dono da arte sublunar e esculpiu nas tábuas dos mandamentos  a denegação de todo o tipo de Lib...

por falar nisso

por entre laços e nós... a silhueta recortada pelos vitrais de mais uma igreja numa cidade recortada por maravilhas e fardos de palha das cortinas do palheiro revela-se o vilão pelo rodopiar da cadeira numa mão a água benta do estábulo, na outra uma corda sem saber como é que se fazem destas gravatas "mais uma destas..." ele queria enforcar-se na missa, durante o drama e ninguém fez gala para o ajudar com a corda (podia ser que seguisse preso ao sino e o fizesse soar) do outro lado, ouvia-se um louco contar a história de como ficaram três mortos num monte à espera do ocaso (três tristes tigres com estrica) "se os encontrarem, exumem-nos directamente para o Técnico" talvez fosse a história que eles mesmos queriam engolir talvez quisessem difractar para terminar (mas o que reluz não é mais que o reflexo da lava de um candeeiro cheio de água e bolhas) a história de mais uma reputação sem justiça poética um não tinha medo de espíritos, o outro não tinha espírito para me...

Fábricas do fundo de um Abismo

havia egípcios menos subnutridos e os hieróglifos sempre pareceram  mais misteriosos e menos nebulosos contigo, em Babilónia nunca se falou tão bem, a mão dada com a face da chapada e o amor seriam diamantes a cair do céu mas o futurismo traz progresso e o que vem a seguir a tão instável, e sempre surpreendente, pandemia das ideias que acontecem (melhor que a dos factos ainda idealizados) separo a água doce de mais sal que se mistura mas nem as lágrimas na chuva diluem tanto sódio estalactites de diamantes suscitadas por maquilhagem as gárgulas de anjos são canhões de tanques e levanta-se o fumo roxo da maldição repara, vida, aqui vou eu outra vez! maximizas a idealização, a sensação é nada voltaste à masmorra dos costumes para mais uma tradição e já nem amaldiçoas deus para pedir permissão é só mais um, é só mais, é só... qual o mérito da solidão...? e surge a mesma electricidade, dos cabelos puxados acima o orgasmo consumado sobre mais um fantasma esguichado os teus olhos implora...

Marés altas e, até, as mais altas

agarrem-se que é desta que eu manipulo o barco que é desta que saímos daqui que a maré desanda e nos leva em arcada agarrem-se que eu não vou abrir os olhos se não foi dantes que me estilhacei não vai ser agora que o vídeo anda devagar e agarrem-se que eu luto pela paz e só choro por saber  que não importa o quê eu vou suceder.

Insónia ardente em Burnt Norton

O céu envergonha-se quando olha para baixo e se detém com um incêndio a percorrer a recortada paisagem mental. Amplifica-se o baixo emocional, repete-se outra reza de ódio e, quando olhas em volta, o paraíso já não está em lado nenhum, o teu deus não está aqui. Como é que se estancam as constantes intrusões da realidade na minha música? Desde quando irrompem, entrópicas, as impressões imprecisas, sem ouvir nem ver, para interromper o fluído curso? E então apagam-se as velas simbólicas e já nada irradia luz para lado nenhum. É fácil acreditar no tarot quando temos por fundamento uma ligação básica, anterior, ancestral, entre todas as coisas que coexistem. Essa ligação já não existe.  Com deus morto, a luz apagada e os olhos abertos em busca de um qualquer recorte na negra margem desta realidade, não consegui ver nada. Pensei que no dia seguinte o sol ia brilhar, que não tinha outra alternativa. E esperei por mais de vinte e quatro horas e outros seis meses, poderia simplesmente esta...

a má ideia (outro)

só te posso dar a realidade que preteres à bestialidade de quatro paredes e vinte cigarros os monstros debaixo da cama e os esqueletos no armário eu tive uma má ideia (só queria passar algum tempo contigo) esquece lá isso, esquece-te lá dele, esquece-te de ti eu não te queria cilindrar à pressão eu não queria controlar o que quer que fosse (o frio nunca me chegou a incomodar) eu sou os átomos da água dissipada no nevoeiro a tocar na cara de um qualquer corredor que corre para onde pode aproveitar (podíamos passar algum tempo juntos) eu tive uma má ideia eu não quero continuar isto eu só queria atenuar a dor esquecer-me disto, esquecer-me dele, esquecer-me de mim (devias saber que sou um cronómetro)

a má ideia

sou o nevoeiro dissipado estou a perder o meu tempo surjo por andar preocupado à espera que me venhas salvar não quero continuar a fachada preciso de tentar controlá-la não consigo largar a obsessão preciso de encontrar alguém tive uma má ideia (podíamos tirar algum tempo juntos) — mas esquece lá—esqueceres-te dele —faz esquecer-me de mim! mesmo que não devêssemos, bora preciso de alguém, faz-me sentir mas não tropeces, que não é real quem me dera prometer ser a cura tive uma má ideia preciso de acalmar a dor esquecer isto—esquecer-me dele —esquecer-te de mim (devias saber que sou temporário)