Mensagens

Estalagmite

Aqui se cantou o gelo eléctrico, que flutua sujo, sob os descobertos tectos de mármore da caverna. A estátua de gelo que, como todo o mal — desde o tolo ao vilão — foi condicionada e seguiu moldada pelo Acaso, esse pai bastardo, falsário, nutrimento da paranóia e da nostalgia! Aqui se cantou o gelo decaído e errante — que flutua, iridescente como bolhas de sabão. O gelo solipsista das masmorras inóspitas, nos glaciares a que se submetem mitos à tortura de água — lágrima a lágrima. Aqui se contemplaram os vitrais das pirâmides — estalagmíticas, formadas nas retinas! Aqui se cantou o gelo dirigido à opulência do fim. Aqui se pretendeu por coda dar à luz o céu. E escama a escama, a reluzente transparência do nosso herói foi destilada. Agora chamam-lhe Nostos, já não canta e já não toca, serpenteia em direcção ao mar, sem sair do lugar.  Do tétrico ao mítico! Aqui se cantou o gelo eléctrico, acompanhado pela harpa das vísceras que não são das mulheres, nem dos homens: mas das almas. De...

Bárbaro // Rimbaud

Passados os dias e as estações, os seres e os continentes, A bandeira encarnada sob a seda marítima e as flores árticas (das que não existem.) Livre das velhas fanfarras do heroísmo—que ainda assolam o coração e a mente—longe dos velhos assassinos. Ó! A bandeira encarnada sob a seda marítima e as flores árticas (das que não existem.) — Ternura! Das lareiras chovem rajadas de gelo, — Ternura! — fogos à chuva no vento de diamantes, cuspidos pelo núcleo que eternamente carbonizamos. — Ó mundo! (Longe dos velhos retiros e das velhas chamas, ainda ouvidas, ainda sentidas,) Fogo ardente e espuma. A música contorna os abismos e as colisões entre os astros no gelo. Ó ternura, ó mundo, ó música! E lá, todas as formas, os suores, as cabeleiras e os olhos a flutuar. E as lágrimas brancas, efervescentes, — ó ternura! — e a voz feminina chega à profundeza dos vulcões e das grutas árticas. A bandeira...

Proveito Caveiroso

Tecidos nutritivos agarrados a ossos, Vermes cegos que se afastam da luz, Quantos preferem afogar-se nos poços A aceitar a decomposição que os seduz. Incidências que nos remordem (enquanto lhes roemos o intradorso) Dissidências para uma desordem (para os outros fica o remorso) Esqueletos a nadar no fundo do quintal Ou no bem limado crucifixo do Anticristo Qualquer outro feito: puramente acidental. E é este um trabalho mal visto Fagulhas de sangue, chuva horizontal— De todos, o menos imprevisto.

Apetite pelo Nada // Baudelaire

Esfriado espírito, espantado amoroso pela luta, O esporão da Esperança que acendia esse ardor, Já não te quer montar! Vai, então, deitar-te, Velho cavalo de pés que acertam em cada obstáculo. Resigna-te, meu coração; dorme o teu sono, selvagem. Espírito exausto e vencido! Para ti, velho saltimbanco, O amor já não tem gosto, não tanto como a disputa; Então adeus, cantos metálicos, suspiros de flauta! Não tenteis de prazeres mais um coração aborrecido! Adorável Primavera que perdeu o seu odor!  E o tempo engole-me minuto a minuto, Como a imensa neve pesa sobre um corpo; Contemplo de alto as redondezas do globo E não procuro mais o abrigo de uma cabana. Podes, avalanche, levar-me com a tua queda?

Ofélia // Rimbaud

I Como um grande lis, flutua a branca Ofélia Na calma e negra onda onde dormem estrelas, Flutua, lentamente, deitada nos seus mantos... — E nos bosques é pelos caçadores procurada. Passam mais de mil anos pela triste Ofélia. Passa, fantasma branco, sobre o lago negro, Passam mais de mil anos por esta doce folia. O lago sugere um romance à brisa da noite. Seios osculados pelo vento que faz da saia corola, Nas ondas embalada, envolvida por um halo; Choram trémulos salgueiros sobre seus ombros, Dobram-se, brandos, sobre o seu branco brilho. Nenúfares gelam em suspiro à sua volta; E, por vezes, ela acorda, tocando num amieiro E escapa-se um passarinho de asas magoadas: — De um ninho canta o cair d'estrelas douradas. II A pálida Ofélia, branca como a neve! Porque morreu, criança, por um rio levada! — Com os ventos que descem da Noruega Sussurram segredos de amarga liberdade; E vem um fluxo, que lhe revira o cabelo, Transporta ao teu espírito estranhos sons; E o teu coração escuta o cant...

Estética do Mal // W. Stevens

I.  Estava em Nápoles a escrever à família E, nos intervalos das cartas, lia parágrafos Sobre o sublime. O Vesúvio já rosnava Há um mês. Era agradável estar ali, Enquanto opressivas fulgurações, luziam, Lançavam cantos ao vidro. Podia então descrever O horror do som, porque era um som Antigo. Tentava recordar as frase: dor Audível ao meio-dia, dor que se tortura, Dor que magoa nos termos da dor.  O vulcão tremeluziu outro éter, O corpo treme ao fim da vida. Era quase hora de almoço. Uma dor humana. Havia rosas no café frio. O seu livro Certificava-o da mais correcta catástrofe. Excepto para nós, que o Vesúvio pode consumir  A mais concreta terra em sólido fogo, sem conhecer Dor nenhuma (ignorando os galos que grasnam Para que morramos). Isto é parte do sublime De que decrescemos. E ainda assim, excepto para nós, O passado nada sentiu quando o destruímos. II. Cresciam acácias numa cidade, deitava-se Na varanda à noite. Chegavam cantos Escuros, longínquos, como os dialectos...

Na vitrine do ápice da rosa

De entre as esculturas da glacial galeria Era a rosa a mais rútila, mais vívida — mais que as legendas, mais que o guia! De cada pétala, no fio laminal, Corria orvalho que não era orvalho — O cronómetro do que é de gelo Ao prazer e ermo de cada Troca do dígito no ecrã E o coração, sempre a sofrê-lo — Cada gota: do tempo um retalho. Descongela. Ao calor. Desconsola. Retém-se a rosa gotejante A desfolhar, desflorir em lágrimas O curto tempo da descoberta, O ápice do que é de gelo.