Vem a mim, Musa, com a tua fantasia e o teu subtexto. Faz aquilo que tu fazes. E eu perverto-te. É mais uma noite, a luz da lua reflecte, a urbe acorda, começa a rotina dos noctívagos. A mente desfoca-se, por isso, foca-te na tua sina. Entra o diabo pela janela e pergunta, como sempre: "Sabes qual é a fórmula para a beleza?" Mas eu já sou letrado nestes pactos e, para ganhar tempo, dei-lhe duas opções. Será chegar ao momento em que dizemos "Demora-te! És formoso" e vendemos a alma? Ou não será lutar contra um mar de obstáculos e perdê-la, ainda assim? (Um é Fausto, outro é Hamlet). Insiste, com aforismo e aborrecimento, "A vida é um enigma do esotérico" e eu, o tolo, pergunto-lhe pela morte e os seus encantos. E o comércio com o que nunca se deixa agarrar? Na jogada do costume, pretende mostrar-me as imagens que já vi, num outro filme (que mais parecia um longo anúncio de uma imobiliária mental com que me cruzo todas as quartas-feiras). Sugere uma eléctri...
A distância da queda de um sonho é demasiado curta. Os mundos são demasiado pequenos para colidirem quais átomos. E é de novo e sem pesar que se me gelam as veias pelos defuntos. O resultado é um magnífico fogo de artifício, mas o que salta é carne solta, excruciada. Cometendo apenas um pecado capital. Recentemente sinto que faço o tempo submeter-se à superbia . A vontade, a vontade, poupem-me a vontade, desbastem as cabeças, guilhotinem as próprias pernas, caminhar nunca foi vontade. É que de boas intenções está o inferno cheio, mas aqui, onde a terra e o inferno se indistinguem, essa facécia revela a sua ineficácia. É natural que se afoguem os peixes que não sabem nadar. Recentemente sinto que o tempo se submete à superbia . O mal-estar, o tóxico mal-estar, a infecção odorosa de uma sala de espera hospitalar, a constante dor que não dói do osso que não temos, a planta que tenta viçar rasga o talo a si mesma por assim desejar. E é tão raro ver-se florir rosas no inverno, quanto ma...
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