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dope.

fecha o quarto quando estás só, para não te sentires sozinho. procura nos meandros do coração os resquícios das anestesias que tomaste ao longo da tua amostra de vida. relembra-te sempre do que disseste "o amor é fraqueza". torna-te invisível porque na invisibilidade és imbatível. espreita sempre, não vá o diabo estar de olho. espreita por debaixo da cama, espreita por dentro da paranóia. mas repara: tu não querias estar sozinho e tens medo de estar acompanhado. repara que contradizes o que dizes. senta-te, procura uma posição em que não vomites porque tudo o que engoliste foi o teu passado - e não estamos em condições de perder esse. acende o cigarro mas não deixes que as lágrimas o apaguem. acende o cigarro mas não te queimes quando a fraqueza se apoderar de ti. se procuras uma viagem por minutos, porque não te consomes a ti mesmo? alma envenenada, se te consumisses descansavas eternamente o que mereces. não grites, agora quem fala sou eu. não esperneies, deixa-te ir novame...
o coração desgoverna-se demasiado facilmente há dias que não lavo a roupa, que não faço triagem perdia a conta às horas e memórias que devia ignorar: talvez por não as fazer, talvez por não as viver, nunca soube operar na inoperância. "o tempo que passou, passou a ferro a roupa que lavou, tingiu de negro queria perecer a dançar no vendaval como pano amarrotado que se esquece no estendal"

Olhar e Tempo

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Recentemente olho para trás para me aperceber da perfeita bipartição do mundo. O que não está atrás, está à frente, o contrário de dentro é fora, onde há um cima há um baixo. E na maioria das vezes tudo o resto se resigna a isto: ou magoa ou não magoa. O aborrecimento de descobrir tudo isto é da ordem da dor, pela inconveniência, pelo estropiar da maravilha que fica talhada como uma Vénus de Milo. Pessoalmente, acredito que a frente do corpo só o é por ter os nossos olhos. Também será por isso que deixamos para trás  tudo o que fica atrás das costas: o que os olhos não vêm o coração não sente; não o podemos rever ou reiterar, por ser um espaço e um tempo por que já passámos. Vivemos numa ponte entre duas mortes. Ou virtualmente petrificados no dubio já-foi ou inconstantemente liquefeitos no que poderá-ser.

Âncora

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Eu dei um murro num espelho para o despedaçar. Então vi o mundo filtrado por estilhaços, num obstante desconfiar. Os meus pés estavam cépticos de pisar o chão. Deixei bem claro e sem apologias: que me aborrece e repugna o real. A vaidade que me sustentava foi trocada por lama e miasmas-espirituais. Sobrou um deserto pantanal onde a água só corria corrupta, o ar inspirava dor e o sol queimava sem iluminar. Fugir de tudo não bastava sem mergulhar. Dei comigo viciado na queda; sem vertigens: só adrenalina. Eu caí numa profundeza estranha. Um oceano complicado onde já só me alcançam as tuas mãos. E o que resta é sombra. Só tu és contacto e alma, porque sou egoísta ao ponto de dizer que o resto é morte. És a essência que me ancora à realidade e faz respirar no afogamento.

Ruptura

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Martirizam-se pelos meus despojos, Pelo póstumo de uma criança bem-educada Que resultou nisto! E isto é a diferença! Uma ressaca pela falta de compromisso, Um refluxo da ruptura. Exorcizei preceitos morais e religiosos Do corpo que não cabia na forma Onde o pretendiam derretido. O corpo que escorreu no revogar Constantemente decadente Da memória desamorosa, pesarosa. Quem falhou fui eu , nato como vomitado, Que nunca sentiu pulsão pelo certo; Que a irreverência apaixonou Mais que o amor-profissional sustido. Vamos fingir para sempre, Arrependidos das drogas e do sexo. Não tenho de me justificar: A crítica flagela o corpo e não a mente, Que é minha, apesar de rota.

Medicação

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Preferiam que fosse prostituição e absinto barato? Estamos fartos de sonhar por não ser morte. Atolados de gravidade para não poder flutuar. Engolidos pela verdade ignorantes do idear. Não é só escapar: é sobreviver bem. Vivemos a amar por não viver sem. De corações a magoar e preces também. Prefiro não acordar afastado de vocês. E dói-me o corpo quando não liberto a alma. Desculpem, eu amo-vos e preferia não viver sem vós. feeling low from living high. 

Ex-Thesis

A morte e a beleza são duas coisas profundas Que contêm tanta sombra e tanto infinito, que dir-se-iam Duas irmãs igualmente terríveis e profundas, Até no mesmo enigma e mesmo segredo. - Victor Hugo Eu em vós sou empirismo sem platonismo. Corpo desidealizado, posse, prático. Sou a vossa posse do meu soma, arquitectado. E podeis chicotear, demolir, escarnear. Mas não podeis interrogar. Eu em mim sou platonismo sem empirismo. Ideia incorpórea, im-possuível, teórica. Sou razoável, intensificado por sintomas que possuís. E posso enterrar, guilhotinar, idolatrar. Mas não me podem capturar. Podem cicatrizar-me o corpo: é texto, Mas não podem remendar a verdade.