re:corda

Ó estranho, 

dá-me força,

lembra-te de mim.


Acorda, estende a mão.

Salva o que vem a seguir:

para eu reconhecer ainda cá

o gesto de quem depois dá.

Respira: devia ser bem fundo.

De fé, devia dar um salto.

Sabor: da melancolia ao submundo.

Perde o que já não tens no asfalto.

Espaço: à medida dos teus passos.

Uma milha a caminhar nestes sapatos,

poderão conter os teus cansaços?


E tinha a chave

da porta que se abria

para o jardim das rosas.

Do outro lado,

ninguém dizia o meu nome,

e eu podia entrar.

Ou tudo o que resta,

ou tudo o que fui.

O brilho da estrada turva-me a vista,

ondas de calor, estou a nadar num espelho!

Não sei o que encontrar,

mas sei que vou chorar 

todas as minhas lágrimas.

E o jardim é este lugar

onde já não cabem os que partiram,

de onde nenhum deles sai.

Os sonhos rebentam as costuras.


Ó estranho,

recorda-te de mim.

Recorda-te até do que não viste:

da mão pequena,

da chave demasiado grande,

das oito voltas em correria 

em direcção às rosas

e dos mares de espinhos insufláveis.


Vou acabar a desvanecer em direcção ao sol.

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