uma lição perdida de um mestre perdido

Quando o meu Mestre me perguntou como tinha corrido a viagem, eu disse-lhe que julgava ter encontrado a razão para a minha existência. 

— Creio entender agora como cada pessoa atravessa a vida convencida da sua própria virtude. Como se tivessem sido escolhidas para redimir o mundo através de uma luz permanente e fixa. Mas a luz, se se fixa, não passa de uma fachada. Dentro de cada coração há sombra e muitas vezes aquilo a que chamamos virtude não passa de uma farsa bem iluminada. Se saber disto é a minha maldição, aceito-a de bom grado.

O Mestre escutou-me e disse que eu devia ter confrontado muita escuridão, para falar com tanta certeza. Formulei, então, a minha teoria:

— Aqueles que ambicionam um poder de forma desmesurada roubam-no aos que o têm e convencem-se de que o merecem. É assim que começam a sujar-se. Acreditam naquilo em que pretendem acreditar. Inventam razões fúteis para justificar as suas acções. Repetem as mesmas desculpas até que se confundam com a sua verdade. E, a cada repetição, as sombras alastram como fogo.

— Talvez precisem de justificar as suas acções para continuarem a sentir um contínuo, uma corrente de memórias e identidade — concluiu o Mestre. — Talvez precisem de acreditar que continuam a ser bons, mesmo quando se deixam governar pelos medos, pelos desejos desmedidos ou pelas ambições. Não poderias deixar isso passar?

— Não — respondi. — Talvez seja melhor que se governem pela escuridão. As pessoas carregam ilusões de poder. Julgam-se lobos, mas não passam de ovelhas a atravessar o mundo com uma pele que não lhes pertence. Ainda assim, admito que compreendo a razão que está por baixo da máscara.

— Um virtuoso decidido a alinhar-se com a escuridão? — perguntou o Mestre, como se nunca tivesse ouvido nada semelhante. — Por que motivo não deixas as pessoas simplesmente consumir-se nela?

Com os dedos, desenhei um sete e um treze no ar.

— Por um lado, desde pequeno que sou avisado para ter cuidado com a escuridão. Que é como uma tinta que suja e que procura sujar tudo à sua volta. Eu, pelo contrário, decidi mergulhar de cabeça na tinta e divertir-me. Por outro lado, porque se as pessoas fossem deixadas aos seus delírios, o mundo cairia no caos. É preciso reconhecer este desequilíbrio, mesmo que pareça ilusório ou sombrio.

O Mestre ficou em silêncio. Por um instante, pareceu-me que até o vazio aguardava a sua resposta. Voltou, então, a perguntar-me se não seria melhor deixar que as coisas acontecessem, que corressem o seu curso.

— Compreender as pessoas é difícil. Mais difícil ainda é compreender as emoções que as movem. Talvez seja melhor ignorar aquilo que não podemos compreender — concluí, sem convicção.

O Mestre acenou lentamente.

— Está bem. O mundo precisa de ti. Vou dar-te isso por garantido.

— Eu não sei o que fazer, mas tenho de agir. Repito para mim mesmo que ainda nem comecei. O que vem a seguir é demasiado importante para ficar entregue à indecisão e à acédia.

O Mestre não respondeu logo. Depois perguntou:

— Portanto, há quem acredite em luzes falsas, nessas forças que fingem governar o futuro. Será assim tão grave confiar nelas? Tu tens o poder de mudar as coisas. Que futuro é que queres para o mundo?

— Poder? Talvez. Não sei. O meu treino está a chegar ao fim e o exame não tarda. Talvez, nesse momento, eu possa alcançar alguma clareza.

— Vais deixar o exame decidir por ti? — perguntou o Mestre. — Os resultados não importam. Se acreditas que o mundo precisa de ti, então já conheces o caminho que escolheste.

— De certo modo — respondi —, eu acho que já sei para onde devo ir e o que devo fazer.

O meu Mestre explicou-me que, quando existe poder verdadeiro, a escuridão deixa de ter domínio sobre nós. Finalmente, ganhei coragem para lhe perguntar quem ele era. Seria um cartomante? Ele sorriu.

— Podia mentir-te e dizer que é isso que sou. Podia dizer-te que sou um artista brilhante, ou até um académico. Podia afirmar que sonho com a paz mundial, quando, na verdade, planeio a sua destruição. A verdade está naquilo que vês com os teus olhos, não no que ouves. Do épico e do mítico, ficam as piadas.

— Então, o teu nome é...? — O Mestre mostrou-se mais desapontado do que surpreendido com a pergunta.

— Não ouviste o que acabei de dizer? Talvez não faça mal...

Fez uma pausa, como se procurasse o próprio nome no vazio. Virou-me as costas. Quando respondeu, já parecia estar a desaparecer.

— Chamo-me----... Sou um mestre perdido. Que o teu coração seja a chave que te guia.

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