à prova de Hamlet

os salgueiros choram os ramos

por todo o lado. fossem lágrimas

e estaria afogado. nesta terra

tão divina e bestial, eu era um anjo

a viver num jardim do mal. mas há uma 

lâmpada no fundo do charco.


chorar ou não chorar? eis a questão.

será mais nobre deixar os proveitos

de uma fortuna infame acontecer,

ou erguer o terremoto das mãos

contra um oceano de azares

e, em combate, acertar um tiro

num potencial melhor amigo?


dormir. sonhar. nada mais. 

e no sonho deixar que a dor desate 

os seus perfumes em poemas,

que a carne se livre de uma herança

dos espasmos e das feridas

de deuses e monstros,

com a paz de saborear 

as tuas últimas palavras

como haxixe. o meu coração

está uma lástima. se eu o suportasse 

sozinho, eu não tentava tanto 

sedar o que já ficou para trás.


sonhar morrer. morrer

e lá sonhar. eis a fissura. 

que sonhos florirão desse charco,

quando despirmos a mortalha febril?

que rosas de outroras, que venenos? 

que súbitas auroras veremos?

(é essa dúvida que nos faz tremer a mão

e condena a vida a uma prolongada calamidade.)


quem pode aguentar as injúrias das décadas?

o hálito de Cronos, o escárnio

com que nos aponta o charro?

ou a púrpura do amor que ninguém reconhece?

ou os rancores dos mais velhos

quando a justiça rejuvenesce?

quem pode arrastar pelos salões do cansaço,

(pela lama da vossa fama)

o tédio de ser animal consciente,

no lento apodrecer de cada dia?

e os artistas, quem os devolveria

ao desprezo, se pudessem,

pela lâmina de uma pétala,

retornar à criação?


quem não teme, para lá da morte,

esse país por encontrar e por perder,

sem mapas, notícias ou regresso,

de onde nenhum tolo nos estende

uma flor, uma nuvem, um signo qualquer?

(já não ter imagem. ser um fantasma.)

quando é que perdemos 

o ímpeto da conquista infantil 

e o substituímos por reverência ao corpo

como se fosse um sepulcro?

e, nisso, o que é feito do sonho?

(e é assim que se nos foge a consciência)

preferimos a víbora doméstica,

na sua familiar carícia, aos acasos

que talvez nos abram os olhos

para um céu que nunca contemplámos.

a paleta viva da resolução

esmaece ao relance do pensamento

(pétala doente) 

e os mais ardentes desígnios,

que traziam no sangue a vertigem do rio,

desviam-se e refractam-se

por canais de sombra

e perdem,

sem tocar no mundo, 

o nome de acção.


Horácio, até eu conheci o Yorick,

um gajo de piada infinita, exímia diversão.

e, no fim, afastamo-nos em direcção ao sol,

morremos do mesmo veneno. nesta terra

tão divina e bestial, eu era um anjo

e só queria foder à bruta.

a ficção inunda o lodo.

e a vista é espectacular.

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