prelúdio para um labirinto
ó sonhos virtuosos, acordes desesperados,
formas disformes, frascos endiabrados,
quimeras da fronteira entre a magia e a ficção,
voltai: quererei fixar-vos um dia?
será que este meu coração
à vossa superstição se renderia?
ó carnaval mirabolante,
de sorrisos e de pouco siso,
envolve-me, como dantes,
nesse vosso triunfo: eis-me, sou vosso
(gritem por mim, anjos,
como se estivessem a morrer).
e tu, ó canto que encantas a multidão,
com a melodia que escolheres,
com o timbre que quiseres,
electrifica o desplante,
surpreende, radiante:
podes ser remédio, veneno e droga,
a partir de atlas e herbários
para findar rituais.
segue, pela urbe, o tropel dos desejos,
enquanto desvanece o chão, não se espanta;
emana subtis verões juvenis
e até os dragões mais lúcidos abrandam.
ei-la! ó boémia de outrora,
dos que se comoveram em horas de ouro,
no enlanguescer do fim de um dia,
em que todos aparecem despidos e gloriosos
(horas de ouro… como escoaram).
o amor e o aplauso são como chicotadas,
como talheres atrás de mim, às pancadas;
que profecia, que futuro inglório
para quem finge até ser notório.
que imagem de um dia tão desavisado…
como recorda a glória da infâmia
já lavada pelos remorsos, amores e tino
de uma tela paradisíaca que se dá por labirinto!
debaixo dos mesmos sóis,
eu renasço de absinto.
como sabeis: eu ainda nem comecei.
ó casa do belo, castelo doido,
de corredores cintilados por lâminas do luar
e arcadas renovadas a perder de vista,
recorda-me a saudade há tanto nobilitada:
do que é o Amor?
do que é o Mal?
do que é o Bem?
e, se chegámos em prantos,
porque não saímos em risos?
do tétrico ao mítico (clarão irreal),
eu vi o futuro nas pétalas de um narciso.
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