Mensagens

13. Lobos

as nuvens dos cigarros pintam sinfonias. perdes o fio à meada a fugir ao minotauro. danças, no meandro um entretanto, um passatempo, apenas um pranto. não és. não estás. transtornado que nem um meteoro no leito da cratera. perdido, lá em baixo, num bunker , as velas, as armas, mais ninguém.  perdidos e achados, às portas do purgatório. chega a altura do último shot. um último jogo de disputas com a sorte da vida. e todos os vultos de todos os olhos conhecidos, velhos amigos, presenças ausentes, e os seus perfumes... todos se debruçam ao teu abismo. se eles soubessem no que te tornaste. no quanto uivaste, no quanto berraste e não perdoaste. és selvagem para amar. se ela soubesse a besta em que te fizeste. és demasiado selvagem para o amor. escuta um poema que li no outro dia: este presépio é decorado a corais, conchas e abstractismos do fundo do oceano. a nova ambiência do bode expiatório. umas raias por entre ondas, umas lampreias que chocam o olhar. e tu sabes que é natal, m...

Clareza

Vive o presente, lança-te a cada onda, encontra a tua eternidade em cada momento. — Henry David Thoreau  madruguei tarde demais. exclamei aturdido, com Arquimedes e Poe, "EUREKA!", que os princípios estão nos fins, e os versas nos vices. descobri tarde demais, ainda coberto de lençóis. levantei voo rumo ao dia, em direcção ao sol. no banho, a água transborda, no corpo, os pecados e a ebriedade não. as feridas estancam o sangue que ejacula. amanheceu no bico de uma águia, de onde fui fertilizante de crias. menos um casulo para as metamorfoses de Ovídio. menos um verme que podia ser borboleta. vai ser uma águia. quando o sol segue a meio, o dia e a tarde confundem-se e o livro diz-te: Não limpes os anjos que os anjos ainda não se começaram a sujar. - Gonçalo M. Tavares os pássaros apenas seguem o sol e o sul. jogam-se ao mar, por peixes para comer e sal para cicatrizar. nunca vai ser cedo o suficiente. prometem corpos lindos mas nenhuma ave tem o corpo limpo. pouco se pod...

Teorema

Não se aprende. É um engodo. Outro inverno no coração, Onde as famílias ostentam o perdão Ao longe a paz do dia, Na luz que percebemos E separamos O erro é o Eu A desaparecer na neblina Comunga do elitismo Degraus de distância fina Complexo descomunal, Intelectual, idiótico Sem coroa nem cruz, Fiz das alturas o castelo Tijolos de sonhos Medos em fumos Subir é prometer o julgamento Acreditar para duvidar Duvidar para terminar Terminar sem deixar sobrar Não cometas os mesmos erros A mudança não é a promessa; É a constância

Burnt Norton III

Num lugar de desafecto Tempo antes e tempo depois Numa frágil luz: que não é a do dia Dão lucidez única à forma Tornam sombra em beleza transigente Na pequena rotação que sugerem permanente Nem a escuridão salva a alma Esvaziam a revogação ao sensual Limpam o afecto ao temporal. Nem plenitude, nem vacância. Só a cinza Sobre caras esticadas que o tempo livrou Distraídas da distração pela distração Cheias de fantasia, plenas de significação Dura apatia sem concentração Nós e os nossos pedaços de papel, lançados ao vento Que sopra antes e depois do tempo, Dentro e fora dos doentes pulmões Tempo antes e tempo depois. Erupção de almas miasmadas Para o ar que torpe desvanece, Lança ao vento os montes de Londres, Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney, Highgate, Primrose e Ludgate. Nem aqui. Nem aqui a escuridão, no mundo do chilrear             Vai baixar e apenas baixar Para o mundo da solidão perpétua, Da e...

Numa Fala

- à falta de conversa - as viagens de metro são catárticas - o que é que queres dizer? - que fazem pensar - porque é que complicas? - os outros caminhos, para onde é que vão dar? e as portas? - e para que é que queres saber? - curiosidade - que matou - o gato - megalomania - ou conhecimento - de que te serve? - e porque não? - qual é a finalidade? - o meio é que revela o fim, já que os princípios são imperscrutáveis - lá estás tu outra vez - apenas coragem para ser eu mesmo, quando sou outro a ser eu - actor

escrito

não ensinaram o pobre cão a ladrar. teve sozinho que lamber os cacos da tijela de sopa partida no chão. deixou o corpo ao lado. saiu a abanar a cauda quando sentiu fome. sirva para sinalizar que o pouco que resta é apatia. e provavelmente uma pata partida após um acidente qualquer, dirá a vida. o tempo tem tanto potencial. é preciso demonizar o autor. aquilo que de mais poético a vida pode oferecer é a aleatoriedade. um determinado indeterminado indeterminável. a sacrílega união da caneta com o papel divide e conquista. destrinça um final do sortilégio-maralhal do que, na sua simultaneidade, é impossível. a este único fio sinuoso, aplica-lhe uma demão de coerência, et voi lá. tudo o que era possível, desaconteceu. ele apenas ilude as suas criações com a promessa do livre-arbítrio. surge-lhes a vida ilusória no sopro das letras do outro lado. mas as suas mãos estão dementes a tentar alcançar a predicação. reuna-se de novo a vida, na lógica ilógica da co-miseração, finge só mais um b...

A Minha Bela, Obscura e Retorcida Fantasia

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Se Ulisses e Páris se dessem todos bem,  Havia flechas a voar pelo fim deste ano. Parece que Tróia montou um cavalo contra mim,  Cada vez que estou na rua oiço - Aproxima-te, criança, cala-te de uma vez por todas, e ouve bem: Tu podes pensar que já espreitaste o que havia a ver, mas não te enganes. Aquilo que vês é a versão aguarelada, com os contornos do Principezinho, E a aparência complicada da Máquina de Turing de madeira do vizinho, Onde os bits parecem corresponder às imagens, e o conhecimento ao que emanas. O que há no mundo, o verdadeiramente maquiavélico, O que nunca foi retorcido e se manteve primogénito, O beijo-dentada da boca do inferno que está pelo frio do Inverno Foi mascarado há já muitos, muitos éons atrás, Não fossem os pobres acusar-nos da paz. Parece que tudo é louco e sentimental, mas o facto é melancólico e lacrimal, Soluções obstinadas, adições entrelaçadas, ficções congeladas, A vontade de comer mais sobrepõe-se a viver mais, É impo...