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Chama a flutuar

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Não há nada de novo debaixo do sol; mas há ficar-se debaixo do sol num dia de folga. Por muito que aqui um dia livre não o pareça por não se poder partilhar. Ficar debaixo do sol fez-me cheirar o passado: houve um dia de Março, talvez o primeiro dia da Primavera que foi realmente solarengo; tinha voltado da escola para almoçar e o tempo para voltar para a escola era cada vez menos. Mas deitei-me ao lado da piscina, não valia nada mais a pena do que estar ali debaixo do sol. E agora abrem-se os olhos para o por do sol no presente. As nuvens não podem ser pintadas, não há tantas cores na palete como as que estou a ver. Há uma chama a flutuar no canto entre o horizonte e a janela em primeiro plano. Flutua num movimento descendente e as nuvens reflectem o brilho da chama — a distância faz aumentar o contraste deste grande ovo estrelado azul e branco no céu. Há momentos em que a música quer acabar e eu não o posso permitir; que crueldade! E a hipnose dela? Não é por sua vez cruel? Leva-me...

Pó Negro

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O acaso impera sobre o destino como a marioneta que dança sob os nós que ataram só para o vosso entretenimento. A musculatura e a madeira que une a sua construção flutuam com a música que se ouve sem acompanhar qualquer vontade maior. Não há maior generalização do que procurar corresponder a forma de comunicação da dança à geometria. O fluir do vento influi sobre os movimentos dos corpos; pode abismar as almas mais religiosas, como o pensamento de que o bater das asas de uma borboleta tem resultado na acumulação de tráfico rodoviário às portas de uma cidade. As peças caem como calha nos seus lugares, como o céu escuro recorta sombras no horizonte à noite. Parece ver-se o peso do manto do céu sobre a terra e a aproximação do sol distingue as silhuetas, levanta o mesmo peso. O que se recorta à luz do dia é tão literal quanto a palavra que se vê. As sombras do passado que descansam desprovidas de coração actuam barbaramente, conversam com a indelicadeza com que se pisa uma flor. Já os q...

A janela, o mergulho e a janela

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Como é que se volta a uma vida passada? Quando dentro da casa só vejo um jogo de fumos e espelhos, miragens, promessas e mais espelhismos olho pela janela. Mas quando olho para fora da janela, só tenho dores de cabeça e os ventos dão-me vertigens. Como é que se retoma o caminho de ferro depois de ter descolado num avião? Cada casa é um esconderijo, cada um tem a esconder o que tem a esconder, não há cofre sem o que tem dentro. Ou melhor, há, mas que surpresa se pode ter na indecisão? De que me vale um gato vivo e morto se não o posso enterrar nem brincar com ele? Quiasmo desnecessário. E onde é que se vai com esses bens materiais de capoeira que se escondem? Em que é que o ter tem mais de ser-se uma pessoa que o sentir? A posse é um acrescento, uma aproximação que faz analogia entre a proximidade gravítica em torno de uma pessoa e aquilo a que se dá o nome de identidade, assumindo a sua existência, como um biólogo a falar de unicórnios. A sensação não acrescenta, altera — é reacç...

Veneno

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Confundes cuspo e lágrimas, Sangue e mel, na lista de compras; Neste pequeno-almoço já estou a fugir à morte. Amar é esculpir nos entre-folhos dos lençóis Uma omelete de gemas gregorianas Enquanto se dança por entre a lia (Glória a vós, Senhor!). E se a vida é um fio que se desdobra Na linearidade que podemos atribuir A novelos de lágrimas, Então só és Pablo se renderes — e bem! Mas: Duvida e cospe, que a coroa endireita-se, Duvida e chora, que os diamantes arrefecem as veias. Não duvido das tuas dúvidas e dívidas, E não cozinho a ignorância nesta frigideira. Enquanto as lágrimas que cuspiste nos olhos Derrapam pelo oco mármore abaixo, Eu vou continuar a sangrar por sucesso. E repara no som do oco, que faz um lindo eco.

O fim do abismo

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Ficam para trás as ruínas, os espinhos das rosas que lhes tirámos. Ficam para trás os mortos e as memórias que lhes absorvemos. O que resta é o que lá está: as ruínas para que continuamos a olhar sem observar, os mortos que constantemente desrespeitamos pela nossa falta de vontade de viver. O tempo e o espaço são medidas incompletas sem a emoção. E a emoção divide-se em conhecimento e vontade. Se a emoção desliza da sensação e é corrompida pela idealização, o conhecimento é esse generalizar. Olhar para o mundo pelo espectro das ideias é a constante dissatisfação de ter o que não temos, por não corresponder ao nosso conhecimento das coisas. O conhecimento, a inteligência, é o que nos ancora ao fundo do abismo e não nos deixa escalar em direcção à luz que víamos antes de cair. Por outro lado, a vontade é o que nos dá permissão. É a emoção que nos faz mover em vez de nos calcar ao conhecido. Que desloca dos padrões desrespeitados pelo confronto directo com a vida. Se continuamos a viv...

A sagrada distância

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Eu sou o que resta. Sou a distância da queda de um sonho. Sou as peças espalhadas onde ficaram. Não há antídoto para o veneno da saudade O mesmo céu que para todos é igual, O espelho que reflecte todas as ligações. Superior a todas as coleiras e correntes Ecrã pincelado que nos relembra Tudo ocorre debaixo do mesmo lençol. Não se aproveitem da maldição da recordação Dos constantes rituais pela ressurreição Que fascinam com a separação sem reparação. Numa bolha, num reino bem longe, muito longe Ficou um principe ou um feiticeiro (confunde-se), Flutua, distante, na inamovível  pen-drive  da felicidade. Entes queridos, Ou sou o que falta, Ou tudo o que foi.

A maldição.

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Cada peça ficou onde caiu. Deixei os fios da discussão de vidas passadas suspensos, como um puzzle que ficou por completar. Mas uma fagulha do motor do avião bastou e peguei-lhes fogo quando comprava uma harpa. Saltei da frigideira para uma piscina de licor. As regras de que todos os sonhos escapam. Um a um ilumino os tijolos dourados, que são dourados porque assim os pintaram. Os tijolos de uma história são o suposto para o absurdo, o como deve ser da pobreza de espírito de lentes desfocadas, para quem os caminhos bordados a ouro são falsas pretensões. E o absurdo é a lei do momento que leva terminar uma vida como se bate a cinza de um cigarro. Pode ser que o caminho se desenhe em erros. Porquê o pânico face aos caminhos bifurcados se já estão pavimentados e é seguir? Não será difícil averiguar que Oz não é algures sobre o arco-íris, mas aquele caminho banhado a luz verde que por ali vês? Por vezes os focos de luz verde no céu podem estar certos e talvez tenhamos sido nós a erra...