pétalas pesadas

pétalas caem como lágrimas num pântano.

e de quem é a culpa? minha ou da vegetação?

jogo xadrez com dados de faces incertas

e aperto-te nos meus braços mais um pouco

enquanto o mundo estiver a acabar...

mas eu ainda nem comecei:

era uma vez, num sonho alcançar-te,

da porta que nunca se fecha contar-te,

e ravina abaixo, pela noite, arrastar-te

até que a luz de presença se despedace.

há algo em mim que quer amar-te

sem piedade nem perdão, revelar-te

diante do medo que não queres ouvir, sussurrar-te...

mas quase me afogo em pétalas,

só queria poder dizer adeus

às fotografias das vidas que não vivi;

às centenas estendidas na enfermaria da hecatombe;

se esta é a minha maldição, aceito-a de bom grado.

uma ruína conveniente, pétalas pelas roseiras,

um sacrifício psicótico, retratos de pétalas filtradas,

dizem que não há corações partidos no paraíso.

e quando a aurora iluminar mais pétalas

que me deslizam pelas coxas

talvez já não tenham sabor a sal,

talvez sejam só mais um nome elegante para o abismo

(é isto o nirvana?)

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