anjo baleado, anjo baleado

os tiros foram disparados 

pelas veias da cidade,

anjo baleado, anjo baleado,

por que é que ficou tudo especado?


anjo baleado, asa da lua cheia,

leva-me daqui,

leva-me para nenhures:

inferno, purgatório, matriz,

das maravilhas um país,

constelação da veia láctea,

para junto das ondas

que cospem vidas possíveis 

por um triz.


anjo baleado, anjo baleado,

imagem constelada, lágrima cristalina,

ferida que brilha, ruína que ilumina,

ao fim do dia, só queremos sair daqui,

(como pudermos, sem nos explicar)

confortavelmente errados,

estranhamente inteiros,

sem obrigação de regressar.


anjo baleado, anjo baleado,

a empatia pode resolver esta realidade,

uma sociedade da saciedade,

catástrofe, situação fodida,

no pavimento, em confusão repetida,

aplauso para uma rima desmedida.


anjo baleado, anjo baleado,

as lágrimas de um dragão

podem não sarar pauis,

mas tenho escamas,

podemos resistir à condição!

e escorre-me sangue pela mão,

para reescrevermos a dissolução!


anjo baleado, anjo baleado,

aguenta-te nestes meus braços,

apesar de cada um dos embaraços,

e fica, como se fosse aquele sonho

em que ainda nos podemos afogar

em diamantes e pétalas!


anjo baleado, anjo baleado,

se não encontrar a solução da banalidade,

eu posso fixar-te na eternidade.

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