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O Nervo

ao suor frio de dar um passo em falso e o sobressalto do calafrio que escorre pela espinha, essa linha, que definha bem que podes ficar por aí por entre a porta e o postigo vigia-me a vigília da viagem enquanto sibilo as sílabas das adivinhas enquanto encantam cancelar as anedotas enquanto vigoram nas vinhas as vozes atrozes das sibilas ah como tem nervo o corvo e a dama do dique Holandês como se enervam à espera que a Torre caia mas está na calha estoutro trailer para um filme por rodar por rodar como rodaste naquela noite da pista ao printscreen como roubaste por instantes ou eram as paredes da casa de banho ou fiz o pino a mijar ou estava na capela Sistina e vi uma fonte por detrás da primeira cortina não era o feiticeiro que ia a voar com o tufão que veio para levar no vento atento ao evento avento o virtuoso vitupério que concedo conceber e que não é vitorioso nem tenta não deixar tentar ou será que não tenta nem deixa tentar a carne acorda com uma ...

Esplendor da Lua

— tradução de "Splendeur de la Lune" de Paul Claudel A porta de lã abre-se para a minha cegueira: com esta chave que me liberta, com esta despedida irrepreensível, com uma misteriosa amenidade animadora, com este reencontro fetal, com o coração a explodir silenciosamente de respostas inconcebíveis. Assim, entendo: que acordo e adormeço. Deixei as quatro janelas numa turva noite sombria e agora percebo, quando saio para a varanda, costumo ver toda a capacidade do espaço preenchida pela tua luz, ó sol encantador! Longe de inquietar, o fogo que se levanta do fundo das sombras consome o sono e oprime com chicotadas de luz. Mas não é em vão que, como um sacerdote preocupado com os mistérios, deixo a cama para poder envejar esse espelho oculto. A luz do sol é agente da vida e da criação, nas quais participa a energicamente nossa visão. Por outro lado, o esplendor da lua é par da contemplação do pensamento. Despojada de tom e calor, só a lua nos propõe, a mim e à criação, pintad...

Desgravitificar

No excesso de zéfiro Está a prova, em qualquer clima Está o senso de que nada se define Flutua como bolhas Incapaz de sentir o vento E só podia ser assim A navegar ou cavalgar Não há nada de novo sob o azul E voas pela gravidade Cavalgas pelo determinado Franqueias a anomalia Flutuas com dignidade Descansas com a morte Corrompes a espera E por tudo o que é brilho Submerges na luz À velocidade da submersão Ganhas ou perdes a tudo Irradias por outro lado Deixas os naufragados Cavalgas, mas largas as rédeas, Na luz que engole o meu solo Fazes e desfazes-me o mundo Não te curves agora perante regras Êxtase na gravidade Por tudo o que não é e cai Precisas a gravidade Agarras o que esvoaça ao vento Ergues-te à gravidade Ascendes e continuas a subir Alcanças a liberdade Deixa tudo e renova o chão.
— tradução livre de um excerto do capítulo "Ithaca" do Ulysses  de James Joyce O que é que na água fez Bloom, amante da água, fã da água, seu suporte, regressar à cordilheira? A sua universalidade: a sua equidade e constância à sua natureza de perseguir o seu próprio nível; a sua vastidão no oceano da projecção de Mercator: a sua profundidade desatenta na trincheira de Sundam que excede as oito mil léguas; a inquietação das suas ondas e as partículas da superfície que visitam, por sua vez, todos os pontos do tabuleiro do mar: a independência das suas unidades: a variabilidade dos estados do mar: a sua calma quiescência hidrostática: a sua turgidez hidroquinética em marés vivas e mortas: a sua subsidência depois da devastação: a sua preponderância de três para um sobre a terra seca do globo: a sua indisputável hegemonia que se estende em ligas quadradas sobre toda a religião por debaixo da linha subequatorial do trópico de Capricórnio: a estabilidade multi-secular da s...
Flutuam, bolhas De sabão, Assimilados Sonhos guardados Da reflexão... Cores que planam Fluxo de silêncio... Capriccios redondos E agora pululam Por mares hediondos. Estouram as cores, Geysers  de spray , E a íris! Reparem... Se deixam cair Sempre que amarem. Hesitantes acordes, Sol-e-dó da maresia... Ondas e rolhas (Choram cebolas) Flutuam, bolhas... E da arriba! Vem um carro! Estalam as bolhas, De sabão, Des-per-di-ça-das... 

Clarão

No desfile dos povos em frente à Deusa Calhou-me uma máscara poligonal O exército de um. E desafiámos lâminas em torno da estátua Da lua feita bode expiatório Paladino, feiticeiro, xamã. Recortámos o contorno às saias do vórtice Sem segunda chance Só o clarão. Os destinos não entreluzem tons do céu A minha prece não permite Deliberada cegueira. Luz o encontro das lâminas das javelinas, Escuda a realidade, relíquia da fantasia, Crescente sono. E não há frente para trás, nem traz a frente, Zigzag do pescoço, as faces irrequietas Dado lançado! Dado lancetado. Cai e torna a cair, fronte que se escama Desliza pelo solo a forte galope Limpa o sangue, irradia de novo.

Oblívio: A lâmina de pétalas

Eu rebolei na lama e salvei um trono. Certamente, seria tarde demais para apresentar o que quer que fosse de remorso. E, na verdade, era um péssimo dénouement . Os que se perderam pelos corredores deste castelo não receberam o memo : encontrar é perder, perder é encontrar. Não é uma questão de transviar as direcções, não é uma questão de trânsito. Não é sequer uma questão gnóstica, nem, até, de destino. É saber caminhar: pôr um pé em frente ao outro e seguir. A direcção da sequência é sempre frente, a vida não tem outra e o Castelo Oblívio é tel qu'elle . Sublinho outra vez: caminhar é em frente, não é para cima, meu bando de zés-ninguéns... ou seu, não quero apoderar-me do que quer que seja. Como tantos nadas que cantaram em refrões e ecos o narcisismo do meu passado, que permitiram a construção deste fantástico baluarte das armaduras. As muralhas sobrepostas, brancas, escritas a grafite, inscritas a grafíti, porque o simples é fixar o passado dos outros. O simples é fazer malabar...