Estudos Avançados em Partir Corações
[Com interpolações de NERVE]
Preâmbulo: Isto não é para novos.
Regra número um: faz regras e esquece-as.
O corolário é evidente. Não me dou bem com nós e laços.
Sou amigo dos fleumas, que guardo nas veias;
dou-me bem com os nervos frios das cadeias,
se tentas salvar-me, sustém a respiração:
E digam ao Mestre de Pesadelos que estou
no ponto em que a tortura parece uma bênção.
Não me dou bem com nós e laços,
aprendi a entrar no silêncio, em passos baixos,
sem pedir licença, sem liberdade de expressão, porque
"o demónio mora ali, na porta em frente à porta em frente à minha".
No princípio era o ruído, o rumor no corredor,
dito baixinho, a edificar uma casa de terror.
Não há aqui quem ame; há quem observa,
há quem mede a distância entre o rosto e a reserva.
Um gesto fora de tempo, uma frase mal traçada,
a repetição, a dúvida, tenho a alma destravada.
Partir corações é só a superfície, apenas o começo,
a parte mais funda é fazer do medo um endereço.
Tu não viste quando começou.
Ainda nem tens palavras para o que te estão a fazer.
E, como sabem, eu ainda nem comecei.
A luz já não entra igual (já não quer voltar),
e o espelho devolve um estranho
que aprendeu a na tua boca habitar.
Fui ficando atrás, como um anjo no ombro esquerdo,
e quando viras as costas, fica a minha cara no reflexo.
Pensamento pesado, presença descansada,
ilusão tão paciente que parece já casada.
Fazer da espera uma ferida, da memória uma casa fechada,
dar ternura a suspeitos, chamar amor a uma estada.
Sou o método, a cama vazia, o ruído,
a porta batida, o teu megafone para o segredo corrompido.
Sem grandes cenas nem palcos, sem brilho nem salão,
a ligeira decomposição do real é o meu refrão.
O medo de ser mais íntimo do que o sangue,
de aprender que a ruína também canta, também espanca.
Uma obscura ciência, herbária e adulterada,
a arte de fazer a vida de um coração duvidada.
Não me dou bem com nós e laços,
E, como sabem, ainda nem comecei.
Estudos avançados em partir corações:
Regra número dois: o melhor golpe nunca se explica,
o horror mais limpo é o que aprendes nas tuas orações.
"Tanta conversa e tudo o que queria
Era que lhe pregasse uma foda."
Agora. Explica. Explana. Expõe.
Idiota: tu és plâncton —
e é o mar que te dispõe.
Eu ainda nem comecei.
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