vida boémia

[título alternativo: Uma crucifixão é como ver de cima]

Para quê ter uma voz, 

se já ouço vozes?

Atrozes, velozes, 

a fugir por ensaiadas poses?

Osmoses de egos sem posses, 

credores morais, cobranças banais, 

prostituições intelectuais.

Eu admito, sou um bocado solitário,

tive de crescer criativo, 

para não parecer ainda mais perdido.


A minha mãe ensinou-me a não falar com estranhos,

agora o estranho sou eu e ninguém me fala.

Passei demasiado tempo a cultivar mística,

(farmar aura na rotina banal)

E posso não ser um bom exemplo:

não singrei, fiz-me feliz,

o que eu digo não se escreve,

e o que eu escrevo não se diz

e tirando este verso, 

os outros todos são as mentiras que eu quis.

Mas só vejo um tipo de pessoas imitar-me

(estou a ver-te, sim)

e se ninguém aqui me dá, eu tiro

(instinto, impulso, estilo)

vou ser vilão por umas horas,

para ver quem vos salva desse delírio!


Se não te vês no futuro 

(trocado por desfraldados)

és descartável no presente,

substituído pelo mais recente.

Ontem levaste um braço,

Hoje o postiço encaixa perfeitamente,

Amanhã mudas de amigos,

E a dor dos outros é piada de improviso.

Mas se ficas quieto, quase causas um apocalipse.

E eu estou na minha pior companhia

(Repara, vida, aqui vou eu outra vez!)


E então? Ya — 

Isto não foi feito por IA, ya?

Foi uma febre fria, queda livre,

uma espondilose coreografada 

(no limite)

foi o corpo a inscrever-se antes de pedir licença,

antes que a história me edite.


Tive uma crise de meia-idade aos quinze outonos

(trauma precoce, drama histérico)

volvidos outros quinze

e isto já não pode ser vida,

isto tem de ser imortalidade,

(entre o vício estético e o rascunho da eternidade)

num loop imperfeito, 

mas as esmeraldas são de verdade.


E diz-me, boémia: 

Podemos ser nós mesmos num mundo que é falso?

Ou as faces de di-amante são só

espelhos com fome de aplauso?

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