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O fim do abismo

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Ficam para trás as ruínas, os espinhos das rosas que lhes tirámos. Ficam para trás os mortos e as memórias que lhes absorvemos. O que resta é o que lá está: as ruínas para que continuamos a olhar sem observar, os mortos que constantemente desrespeitamos pela nossa falta de vontade de viver. O tempo e o espaço são medidas incompletas sem a emoção. E a emoção divide-se em conhecimento e vontade. Se a emoção desliza da sensação e é corrompida pela idealização, o conhecimento é esse generalizar. Olhar para o mundo pelo espectro das ideias é a constante dissatisfação de ter o que não temos, por não corresponder ao nosso conhecimento das coisas. O conhecimento, a inteligência, é o que nos ancora ao fundo do abismo e não nos deixa escalar em direcção à luz que víamos antes de cair. Por outro lado, a vontade é o que nos dá permissão. É a emoção que nos faz mover em vez de nos calcar ao conhecido. Que desloca dos padrões desrespeitados pelo confronto directo com a vida. Se continuamos a viv...

A sagrada distância

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Eu sou o que resta. Sou a distância da queda de um sonho. Sou as peças espalhadas onde ficaram. Não há antídoto para o veneno da saudade O mesmo céu que para todos é igual, O espelho que reflecte todas as ligações. Superior a todas as coleiras e correntes Ecrã pincelado que nos relembra Tudo ocorre debaixo do mesmo lençol. Não se aproveitem da maldição da recordação Dos constantes rituais pela ressurreição Que fascinam com a separação sem reparação. Numa bolha, num reino bem longe, muito longe Ficou um principe ou um feiticeiro (confunde-se), Flutua, distante, na inamovível  pen-drive  da felicidade. Entes queridos, Ou sou o que falta, Ou tudo o que foi.

A maldição.

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Cada peça ficou onde caiu. Deixei os fios da discussão de vidas passadas suspensos, como um puzzle que ficou por completar. Mas uma fagulha do motor do avião bastou e peguei-lhes fogo quando comprava uma harpa. Saltei da frigideira para uma piscina de licor. As regras de que todos os sonhos escapam. Um a um ilumino os tijolos dourados, que são dourados porque assim os pintaram. Os tijolos de uma história são o suposto para o absurdo, o como deve ser da pobreza de espírito de lentes desfocadas, para quem os caminhos bordados a ouro são falsas pretensões. E o absurdo é a lei do momento que leva terminar uma vida como se bate a cinza de um cigarro. Pode ser que o caminho se desenhe em erros. Porquê o pânico face aos caminhos bifurcados se já estão pavimentados e é seguir? Não será difícil averiguar que Oz não é algures sobre o arco-íris, mas aquele caminho banhado a luz verde que por ali vês? Por vezes os focos de luz verde no céu podem estar certos e talvez tenhamos sido nós a erra...

A balada do Caos

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Resultas do cruzamento de dimensões e poeiras És privilegiado por respirar Não vês os rios de ouro escorrer? E as pirâmides doidas que fizémos ao passado? Como podes entender? Como podes aceitar? Como não dramatizar? Quanto medo tens de reprimir para dar um passo? E com quanta ansiedade lidas Quando estás prestes a ser alguma coisa? Custa ser por se acreditar num protocolo "Se agora sou isto devo sê-lo e a isso apenas" Esse é o teu tiro no pé Vendem-te os sonhos a preço da alma 33 gramas numa nota, heh, e nem uma linha para cheirar Custam-te os jardins de caminhos bifurcados A possibilidade face à sensibilidade A eternidade face ao tempo E vives como uma estátua prestes a desabar Sem certezas dos folículos que te fazem Todas as mortes que planeaste, Os suicídios ao juízo, Tudo o que podia ser mas ia deixar de o poder Vives tudo como se a Fortuna existisse mesmo Todo preocupado com o karma E todas as vidas dos outros (que consideras "simulação...

O caos, a ordem e o tempo

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Eu tive a memória de um futuro perdido, em que o sol se punha sem raios, o céu era cinzento e no vento se sentia o odor a cripta. A respiração ansiosa não descansa, receia vê-lo concretizar-se. Quem lida com o tempo descobre logo um paradoxo eterno: os momentos nascem sabendo que vão morrer antes de se sentirem vivos. O seu único propósito é o de morrer e tornar a morrer para se substituir por uma versão desprovida de memória. Sempre que se aceita a sensação de um momento, vende-se a sensação do anterior e da sua alternativa. Ironicamente, só quem renuncia ao tempo (à sua contagem ou organização) o pode apreender realmente. O tempo pode sentir-se de dois modos. Do modo que é contado pelos vencedores, que se aliam e auto-nomeiam de heróis debaixo da asa da deusa Ordem, que generaliza, faz estereótipos, calcula médias, modas e medianas e ensina à sociedade como se deve viver. Ou, de outro modo, o tempo pode ser sentido tal e como é, na mais pura autenticidade do mundo a que subjaz e,...

Fama Engarrafada

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"Toma só mais um golo, prometo que está quase a acabar". O problema da fama engarrafada é que só quando consumida é que faz ver o que traz no fundo. É outra deusa voraz, presa à vaidosa ideia romântica da mulher demoníaca. E nada mais a prende. Não é bem ou mal, é para além da moral. Ver julgamentos apenas no beijo da despedida: o que é eternamente trocado com a terra e os vermes. Mas é apreciadora dos esforços que são feitos por ela. De cada intento suicida em consumir a sua poção. Em teoria, a fama engarrafada actua lentamente no corpo, pode paralisar ou fazer esquecer motivos, criar uma dor tão grande que distrai dos objectivos ou incapacitar, dê por onde der. E há um carrasco que ta dá de beber, trago a trago, cálice a cálice. Ele olha-te nos olhos e faz esquecer a luz verde. Deixa-te apenas a nadar no teu medo do desconhecido. E obriga-te a beber da mais violenta forma. Antes que possas contestar, já a estás a provar. Ouves os iniciados brindar saúde à tua volta, enq...

O roubo de Calypso

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cortinas de fumo negro do barco que acabei de derrubar não permitem ver além do trono a aridez de sucessivos desertos secou o soro ocular astrolábio e quadrante mostram que as estrelas existem de que valem quando o coração as não sente antes salta as batidas e o ritmo fica estranho a respiração carrega a preocupação às costas como uma pesada âncora a puxar o sufoco engasga e não desaparece rezo a Calypso que me devolva o oceano aos olhos esse amor abandonado e abandonante que nos mares que me levou navega triunfante e as velas não sentem o vento param mas as paisagens passam e os continentes também e o barco parado no mar despejado os marinheiros ao convés desatinados ofegantes vislumbrados pela morte no fundo onde os mortos já não mentem içam bandeiras de socorro que ardem junto com as outras tomam a tonalidade negra quando sobem mastro esvaem-se em fumos nem se sabe que dantes havia mar aqui ela lá vai ao longe flutua ergue-se para ser vista sem nos v...