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O roubo de Calypso

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cortinas de fumo negro do barco que acabei de derrubar não permitem ver além do trono a aridez de sucessivos desertos secou o soro ocular astrolábio e quadrante mostram que as estrelas existem de que valem quando o coração as não sente antes salta as batidas e o ritmo fica estranho a respiração carrega a preocupação às costas como uma pesada âncora a puxar o sufoco engasga e não desaparece rezo a Calypso que me devolva o oceano aos olhos esse amor abandonado e abandonante que nos mares que me levou navega triunfante e as velas não sentem o vento param mas as paisagens passam e os continentes também e o barco parado no mar despejado os marinheiros ao convés desatinados ofegantes vislumbrados pela morte no fundo onde os mortos já não mentem içam bandeiras de socorro que ardem junto com as outras tomam a tonalidade negra quando sobem mastro esvaem-se em fumos nem se sabe que dantes havia mar aqui ela lá vai ao longe flutua ergue-se para ser vista sem nos v...

Magia Verde

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A beleza da vida está no desapontamento. Está lá quando a cor do mar é mais verde que o azul que lhe chamamos, deste lado dos olhos verdes. A questão que marca as minhas entranhas a ferro nunca foi outra: como é que se cria uma ilusão? E o problema estava na perenidade do sentido, do sentir e do que sente: "A realidade é só uma ilusão muito persistente", Albert Einstein. As luzes que vemos parecem ter pesos. As auras de uns e outros, tão amenas e tão quentes, mas os cabos dos feitiços, que se lançam pelas palavras, as frias maldições que tanto adorei confabular. E o mais irrisório no cair dos peões em cada buraco que abriam sob si mesmos. Mesmo quando me ergui acima da altura e me chamei de narrador, em resposta a acusações de manipulação. Olha lá o que me fizeste fazer: cumprir as profecias que se foram com o vento e o meu olvido de mim mesmo. Essas profecias eram lágrimas a cair na chuva. Que culpa tenho que lhes tenhas jogado gasolina? Então, agora aceito que nada ...

Flores do Nada

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Permite-me uma questão. Se aceitas a escuridão, mas preferes viver na luz, porque negas os habitantes que oscilam na berma do nada?  Os que foram menosprezados por ambas luz e escuridão, sem poder escolher? Nós não podemos sentir o sofrimento. Não importa que miséria sucumbe os mundos, o que pensam, o que sentem ou como existem...  Em tempos que já lá vão, e havia orgulho em ouvir-se cristão, a minha musa Vénus perdeu os braços. E às suas bênçãos mundanas e utilidades Tirésias traçou mapa em braille. Cheguei à Babilónia em busca de uma bicicleta, pegaram no meu carro e jogaram-no encosta abaixo. "Desliza por pedradas firmes o rochedo" para cair do outro lado do rio, onde as bandeiras são bravas e sensatos os homens que as consideram. Contei treze praias até me poder sentar. Até o mar reflectir a luz da lua e não estar dividido em dúvidas. Não posso banhar em águas que não sei se existem, mas posso agarrar-me a estrelas cadentes, cujo rasto é um autêntico torreão de luz f...

E o riso do Cisne?

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Aguarda-se com celebração o dia do fechar das cortinas que são as pálpebras. Ninguém o pondera mas é uma âncora a pedir mais atenção - como uma criança chata no super-mercado. E corre o mito ou a pura mentira do canto do cisne: que é antes de morrer que o cisne solta a sua melhor composição. Se aqueles latidos e bramidos e espremer do corpo para bater asas, esse espectáculo hediondo, se é visto como modo belo da morte, admita-se que morrer num leito, deitado e sem margem de manobra é preferencial à raça humana. Que fariam estes símios para se compararem a cisnes, etiquetados de belos, sublimes ou artísticos? Mais que cantar em prantos de dor (e a estranha correspondência com os gritos do parto) o cisne deve rir-se, concluído o macabro. O sorriso está debaixo das peles e músculos da nossa fronte, prestes a sair apesar de contrariado pelos funestos. Alegra-te, carpideira, que a tua caveira nunca parou de sorrir e se a pele é invólucro, o riso é condição da autenticidad...

Os blues da Bandeira Morta

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A minha geração tem a estranha tendência para se pensar numa história. Parece que o que está entre nascer e morrer foi designado como sequência de si mesmo. Para além da sua construção sintáctica da vida (antes/durante/depois) ainda se medem as sensações com uma escala como a de Richter. Cada evento, cada acção tomada ou a espera por efectuar outra, é medido em termos de magnitude e posteriormente posto em perspectiva em correntes de comparações. Durante aquele momento senti com determinada intensidade que só tornei a sentir uns trinta anos depois, diz-se de um momento importante, profundamente sentido e de outro aparentemente similar. Deste lado. Acredito que só existem repetições na nossa relação com o místico ou o esotérico. A relação religiosa funda-se sobre a repetição de ritos, ao ponto de muitas religiões optarem pela repetição obstinada de orações que faz os actos linguísticos perder a intensidade da sua intenção e a profundidade do que significam. Não obstante, a relação rel...

O Necromante

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Um mago pirata que lida com os mortos do fundo do mar contou-me que o langor é a delimitação do tempo de espera pela nova sensação de um objecto de nostalgia. Era magro, um saco vazio cheio de ossos. Contei-lhe que os vivos chamam à paixão um fogo que consome por dentro, talvez por associação dos tempos de espera. Discutimos se o langor seria a duração desde esse incêndio ao seu vapor. Pescar um morto implica tornar a sentir sensações associadas a uma cara. Faz-se assim. Lançou a enxada escarlate à fátua água turquesa e puxou de um crânio. Sensações de um envenenamento interior, um peso que sua de dentro. E os mais mal mortos nunca cessam de cheirar a si. Os amantes consomem-se, como o fogo, mas só alguns mortos são consumidos pelo fogo. Só os que não ardem se podem repescar. Será a purificação purgatorial em vida esse incêndio interno, do peso do karma? A torre de colageno que não cai quando lhe atiram uma caveira componente que estruturava a sua base?

A Harpa, o Fogo e a Esmeralda

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"Que lindo é o incêndio visto por uma esmeralda", Nero, enquanto voam fagulhas que cheiram a cadáveres, como passeiam os dedilhados pela harpa. Pelo chão, os corpos esturricados são provas de um crime extremado. "O fogo nunca é deixado ao destino, ele mancha no mundo o acaso". Neste mundo de queimados e ateadores, quem é que pode pegar no códex e alegar-se moralmente superior? Quando todos nós jogámos fósforos em busca do domínio da vida alheia? Quando aqueles pobres não são mais desesperados que estes desesperantes, que se pensam ricos? Neste mundo vestem-se as sombras como véus, como cerejas no topo de bolos, por cima dos corpos e nunca por debaixo do sol; neste mundo em que a sombra é um chapéu, quem é tem o delírio de calçar saltos e considerar o certo e o errado? Quem é que pode ver de cima o que o fogo domina? (E que alta tem de ser a torre). Se podemos admitir que há uma jóia em cada um de nós, constantemente lacerada e lentamente transformada quer pela...