da tirania do belo

e ainda entro em cena com a cara de ontem,

à luz do castiçal parece impecável...

ninguém reparou que me estava grande.


dizem: depõe a máscara,

mas com mais luz do lado de cá

e tapa essa mancha na bochecha,

e não tragas o corpo inteiro,

há sempre alguma parte que destoa.

mas eu arrastava um jardim pelo corredor

e as roseiras encalharam nas portas,

deixando no verniz arranhões

e um perfume a excesso pela casa.

nisto, um anjo pede-me lume,

já tem as asas amarelas de tabaco,

e eu tive de dizer que não,

já nos ardeu a sala uma vez.

(e ainda há quem elogie a cor das paredes)

queriam verdade? abri a camisa 

e pediram-me que a fechasse:

a cicatriz não fica bem na foto.

coberta por uma jóia e umas pétalas, quem sabe?


ó fantasmagoria da arte,

faz-me um sonho bonito,

que apodreça devagar

sem perder o perfume.

mas deixa os andaimes à vista,

a seda rota e os pregos

onde o brilho das flores 

ganhou ferrugem,

para que saibam onde pus as mãos,

onde falhou a cola

e quem ficou por baixo

quando o cenário caiu.


ó anjos da vigília mediática,

enquanto gravam não vivem,

e não vêem que está um ali a chorar?

apesar de ter todo o aspecto de um quadro

(chamam-lhe anjo baleado, 

mas passou-lhes ao lado)

julgam que o brilho das lágrimas

é maquilhagem.


ó musa, tu e a tua mania da eternidade:

há contas por pagar,

uma casa onde não sei se posso ficar

e uma pessoa à espera de resposta.

há três dias que componho

a forma mais certeira de lhe dizer

que sou temporário.


entretanto, o esqueleto

(o que deixei no telhado) ganhou vida,

mandou fazer um fato à medida,

vai a festas e dá entrevistas,

tem opiniões que eu não pensei.

ontem à noite chamou-me à parte,

e, tirando-me um pelo de gato do fato,

disse-me que assim não pode ser:

estou a comprometer a personagem.

e eu, que lhe dei os melhores anos,

as jóias e os dentes,

a mais fotogénica infâmia...

ainda fui pedir desculpa.

agora ele é o rei 

do outro lado do meu espelho,

a experimentar a coroa na cabeça certa.

eu já só tenho esta dor 

onde as coroas costumam apertar.

se partir o vidro, quem é que sangra?

se diminuir a luz, quantos é que ficam?

se eu sair agora, vão dizer 

que nunca estive à altura?

ou que deviam mudar a fechadura?


mas espera.

deixa-me pousar isto.

a coroa, a camisa e a caneta,

a frase que acabaria tão bem esta treta.

podes dizer-me outra vez o que aconteceu?

não ouvi à primeira. 

estava a confirmar as minhas deixas.

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