crise de representação

eu canto o corpo eléctrico.

os exércitos dos que eu amo

engrossam-me a voz.

não me largam:

marcham dentro de mim

até que eu siga com eles,

até que lhes responda,

até que os purifique 

e lhes devolva, gota a gota,

o que me resta da alma.


encanto o corpo eléctrico.

eu vi as melhores mentes da minha geração

desfeitas na vaidade da reputação, 

esfomeadas, histéricas, nuas,

a raspar alcatrão ao romper da aurora,

a ressacar por outra dose de metafísica.


metaleiros com caras de querubim

a arder por uma ancestral ligação ao paraíso,

ao dínamo estrelado da maquinaria da noite.

esvaziados pela espera,

acesos pela promessa.


alguns despiram o cérebro ao céu

e viram anjos muçulmanos a cambalear

sobre telhados de zinco, sob uma luz

que não vinha de lado nenhum.

outros atravessaram universidades

com olhos frios, radiantes,

a alucinar Avalon e teorias

da conspiração, nos corredores

da arte da guerra.

os que as academias expulsaram

por loucura, por publicarem 

odes obscenas nas janelas da caveira.


os que se fecharam em salas vazias, 

em trajes menores, a queimar dinheiro,

a escutar os terrores através da parede.

os que regressaram da capital

com erva à cintura

e a noite entranhada nos pêlos.

os que cuspiram fogo em hotéis pintados, 

ou que beberam terebentina nos becos do Paraíso

e arrastaram torsos torturados pela noite, 

noite após noite,

com sonhos nos dentes, 

drogas no sangue, 

pesadelos vivos debaixo da língua.


enquanto arde o corpo eléctrico,

os lobos uivam à lua nova.

ensaiam um som sem dono

para chamar a luz.

e o sol pergunta se deve ausentar-se

por um dia,

até que passe o sentimento.

as nuvens desabam.

a chuva esqueceu-se 

de fazer terra nova.

os lobos uivam à lua nova.

esperam que a luz regresse,

que volte depressa,

para poderem morrer.


em prantos, o corpo eléctrico.

na paisagem prometida,

os que amo debicam-me as entranhas.

os ossos deviam doer 

de tanto espectáculo,

mas eu não sinto dor

(porque sou profissional,

ou porque ainda nem comecei?)

debicam, debicam, 

os dedos rasgam a carne,

mas eu estou bem

(estou bem, estou bem, estou bem)

porque o meu corpo é vosso

neste palco!

façam o que quiserem 

com o corpo eléctrico.

(escrevam o que quiserem, 

digam o que quiserem)

não, eu não lamento.

(não me têm o coração 

e não me têm a arte)

façam o que quiserem

com o corpo eléctrico.

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