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Drácula

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Sabes onde estamos?  No sítio onde aconteceu o meu pior pesadelo.  Descemos pelo elevador para o parque de estacionamento. Os lugares traçados no chão, a meia-luz artificial de um lugar onde não amanhece. Mas desta vez és tu que vens comigo.  E vais poder ver o que eu vi. Repara no carro preto que está ali em frente, se contares, tem seis velas acesas no capô e, dentro de momentos,  quando o porta-bagagens se abrir vai sair de lá um mar de ratos.  Imagina-me ali no meio, a procurar não cheirar, nem tocar, em cada rato que me afogava. Prometo-te uma dentada de felicidade, um milagre mínimo, a graça que organiza por dentro. Que só funciona na penumbra, só funciona sem público,  e só dura enquanto não se tenta provar o que foi. Um milagre de felicidade, um estado de graça íntimo, que não é grandioso, que não é imperial, e é o motivo pelo qual os verdadeiros amantes preferem a luz das velas (nem que sejam as do meu pior pesadelo) aos filtros do Instagram. Agora...

A facilidade do ódio sublime [solo de Occasio]

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Se os modos estão concertados E alguém tem de os executar...  Garanto que não vou ser eu. Vou um bocado além dos programas: Tenho livros — e não me bastam. Eis uma oportunidade De vos apresentar um velho amigo! [ Surge um letreiro em néon, a piscar:  Entra Occasio, com uma harpa electrónica. ] una amenaza… ¿no es también una promesa? si quieres venganza, confiesa, si vienes por armas, empieza: furia mansa por meses (sólo estás huyendo y eso pesa)— entonces… ¿pa' qué llamaste a esta puerta? [Occasio toca um harpejo que fica a ecoar.] él se acorraló entre vergüenza y confesión. quiere el tacto: la impresión, no el sentir: no. no, no. si lo tuviera,  le dolería el corazón  (por su generación). siempre a un paso de rehabilitación… las drogas le saben de pronto a descafeinado y rendición. él sólo quiere vivir al momento, y hay mil bastardos soñando con el tormento, el tropiezo, el regreso, el cuento. no es que tenga celos: lo confieso, es que fuma algo más leve,  y y...

esparsa quase sua ao concerto dos modos

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ao meu gato, que derruba fascistas. Os maus vi sempre tecer no mundo grandes enredos; e para mais me aborrecer, os bons vi sempre a boiar em lodo manso de medos. Cuidando entender assim o mal tão bem organizado, levei um tanque, subi um ranque, a consciência diz que não, o algoritmo diz que é são — e mesmo assim: vou ser cancelado. Por tantos anos lutaram, oportunidades de paz que desperdiçaram. Acho os modos tão sem brio, tudo é post , nada é lista; até a honra se regista.

O fim dos sonhos

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O grande problema dos sonhos: É que terminam quando acordamos... Sonho por um lugar à retaguarda, No êxtase da decadência néon. Tenho um plano e é sinfónico. Meio psicótico, doentio, hipnótico, É carismático, cinematográfico, E tem-me fleumático. A batida chicoteia, é uma dose Que me faz falta. Fui desencadeado para dançar,  Cada osso salta. Oh, e enquanto dançamos, mudam as luzes! Mãos atrás da cabeça, como Cristo disse! Aos beijos na pista de dança! Foi até que o chão ardesse! Não há maldição Que se compare à sensação! Sonhos realizados, Hipertácteis e em queda livre, No meio do êxtase do néon decadente. Onde é que estás, que eu não te vejo? (Mas eu sinto-te observar-me, meu anjo) Sonhos concretizados, Dilatados e em queda livre:  Nós — animais em ecstasy, Longe do coração, longe da vista. E se hoje não adormecermos? Será que na vigília fazemos Carneirinhos electrónicos? Até que o corpo Se lembre do escuro E volte, por fim, a sonhar?

Liga dos sonhos geométricos

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Manipular os sonhos dos outros é fácil: há uma evidente geometria entre as expectativas do sonhador e o que este pensa ser princípio, mas não passa de hábito.  O sonho pode ser tão costumeiro como a rotina do autocarro para o trabalho. E é tão fácil entrar numa paragem e sair quando me apetecer.  Acordadas, as pessoas defendem com unhas e dentes as identidades que alucinaram. As versões de si que gostam de vender são portas fechadas por fora. Mas quando dormem, rascunho geometricamente todos os seus materiais:  o disparate, o erro, a cobiça, pecados pertinentes, arrependimentos fracos, o veneno, o incêndio e o punhal, os prazeres clandestinamente roubados, o abuso, os chacais, as panteras, os escorpiões, os macacos, os abutres e as serpentes... e o mais maligno e o mais imundo de todos, o tédio...  Imploram que os endireite e mostre precisos. Ora bem, visto tratar-se de expectativas relativas a um costume, os sonhos tendem a seguir padrões. Esses padrões vêm da exper...

Oblívio

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eu prometi decadência, mas também prometi  ir do declínio do tétrico ao fascínio do mítico! ... ou será que era... ir do declínio do mítico ao fascínio do tétrico! logo decido... e já vos disse: não me tragam o horizonte,   que eu chego lá! da maldição da imortalidade, esse luxo de nunca acabar, esse castigo de não passar. mas hoje não vos vendo duração. eis o antídoto para a imortalidade. bendito seja o oblívio, não como fuga, mas como justiça. bendito seja o apagar lento do que nos apodrece a alma por dentro, os dentes de Cronos soltos das costas, as marcas a desaparecer devagar, o peso de sermos sempre alguém. cantemos então: um hino para que desça o oblívio — o intervalo, o justo silêncio, a página equilibrada tornar-se um quarto, macio e sem ecos. não é morte: é descanso da cortina, finalmente baixada, sem aplausos, vénias ou público. bendito seja o oblívio, não como virtude, mas como direito. é misericórdia sem altar: é liberdade de não ser lembrado, de não ser vist...

Necromântico [a Magnanimidade da Ópera Pop-Electrónica]

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Overture:  [entra Occasio, com uma guitarra eléctrica, a cantar uma última Lamentação] lo que tiene no fue más que un legado, y ha sido olvidado por cada sueño guardado. siente que no habrá posvida, al final, que no existe otro lado, otra señal; cuando se apagan las luces, sin testigo, se queda solo, tan solo, consigo. cuando se apagan las luces, piensa, al despertar, que quizá no despierte, que no hay “más allá”; que no existe otro lado, ningún abrigo, y se queda tan solo, tan solo, consigo, mientras todo sonríe, juega, vive entero, él siente que la vida es dura — y morir, ligero. Recitativo: [entra em cena o Mestre de Pesadelos] Retomo a voz. Eis a prometida magnanimidade da ópera pop-electrónica! [corre o palco de um lado ao outro] Afino sintetizadores, estabeleço o tom. Acendo velas, baixo luzes, controlo as cortinas: sobem e descem. [parece um cientista louco a produzir o seu próprio espectáculo ao vivo] Vou explicar-te as regras do meu ofício. E por que preciso de encena...

magia da simpatia / simpatia pelo diabo [medley]

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nos sonhos, a memória é disléxica, os nomes e as caras confundem-se, só existe o dantes e o depois. e as luzes nos sonhos são assim, como a lama que escorre pelos dedos, o único Deus que conheci e que não precisa de mim de joelhos para crer. (será que sou diferente? será que não mudei?) permite-me que me apresente, sou pessoa de valor e gosto, tenho andado por aqui há muito e já arrebatei muitas almas e crenças. não reconheço uma cara sem cicatrizes, engasgo-me na fama que não consigo cuspir, agachado e de blazer, ansioso e envergonhado. nas vagas humilhações da reputação. não vejo no valor uma virtude já nem tento ser bom no que faço para me safar, prefiro o consolo da magia da simpatia. prazer em conhecer, espero que adivinhes o meu nome, mas aquilo que te assusta é a própria natura do jogo. e como cada polícia é ladrão, e cada santo um pecador, e como as coroas são as caras, chama-me Caos pois preciso de humildade. se precisares de mim, mostra cortesia, tem simpatia e redefine elegâ...

Timóteo 6:11-21

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tenho de fazer um hino, um cântico pela luta justa... a do bom caminho da fé, aquela das minhas inspirações, dos grandiosos a quem devo espaço em largos ombros, onde deslizo,  prudente verme. (quem sou eu? talvez nem aqui esteja, será que nem sou único?) acorda,  levanta-te,  estende a mão, sai para as ruas, deposita o fogo em poemas e levanta a voz aos que injustiçam, mas questiona: porque é que ninguém quer mudar? meu irmão Timóteo, se há frutos, é para colher, até morrer. sê rico em boas ações, guarda a fé que recebeste por herança. o sonho pode ser aquilo que nunca morre, envolto numa luz impenetrável, verdadeiro salvador, o paraíso na terra, que podia ser contigo aqui.

teoria do Serafim

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[entrada em barítono] Bienvenue dans la maison de l'Ordre! Voici les anges  que j'entretiens en moi: Entre ces murs que je bénis, Laissez-moi, ô,  p artager mes rêves! vamos lá teorizar o serafim, o da mais alta ordem, sete asas douradas "dos que ardem". dizem que no fim  vem tudo purificar, numa armadura  da mais sacra prata. o seu testamento traz sete paraísos, nas suas mãos, relíquias da ascensão; talvez nos teus livros  tenha o nome de Maldição. e vê-lo é ver a hierarquia da quebra - o momento em que tudo rompe - passado e presente; remorso e auspício. ao passar da divina excalibur  da luz solar.

do abismo

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eu tentei não te largar  (mas nunca agarrei) eu não gosto das visões  da moca da ressaca. deixa-me acordar, enfim, no meio das rosas  já terminou a vida que ficou para trás  qual seria o ponto de ficar, com tudo a arder? e tudo a cair... eu sei, que sei eu… estou a cair à velocidade dos nossos sonhos  estou a desaparecer à medida que a tua cara diminui  diz-me só uma vez as únicas palavras que me dão vida  pode ser que nos encontremos do outro lado. agarra bem forte no meu coração sabes que bate por ti estou a cair à velocidade dos nossos sonhos pode ser que nos reencontremos ainda aqui. deixa-me abrir os olhos com dignidade. o mundo está adiante. salta a fronteira, (muito que custe) vamos começar,  é só escalar,  é só subir... Nossa Senhora do Caos,  se eu vou rezar, não é para fugir,  é para acordar.  

decadência néon

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[uma ars poetica ao micro-ondas] estou a reaquecer os meus nachos enquanto te aproximas de uma armadilha luminosa, como uma traça a uma chama e eu aqui a ver o microondas. “que perigo? ele é mais conhecido pelo que faz nos lençóis” este holofote não salva: expõe e queima, acende o colapso, sem purificar. se calhar, precisamos de reprogramar estas luzes? temos de sonhar com (e não contra) a cidade doente, domesticar os choques tóxicos,  fazer da queda no palco não um defeito, mas matéria de construção. temos de sonhar com (e não contra) a cidade doente, construir ação, realizar sonhos (luzes, por favor. mais fortes... não para salvar — mas para ver!) e disputar a voltagem da decadência.

Os brindes

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ó, dêem-me a vida, a categoria é:  sonha ou concretiza pesadelos! (ai, mas como será que ele ficou assim? vamos contar mais uma piada) paga o que deves às inspirações que já tolheste. este shot é pela minha dor! esta ganza é pela miséria! mantém-me preso à luz da lua, dá-me vida a cada fôlego. este  shot  é pela minha dor! esta ganza é pela miséria! fico todo fodido hoje, amanhã acordo melhor! (vamos contar mais uma piada e rimo-nos todos até ele chorar! volta para o palco e diz-nos o teu nome!) estou com os ouvidos a arder, eu ouvi tudo o que disseram o fala-barato pode custar caro e pode ter o preço da imortalidade fizeste deste chão um inferno eu que nem caminho pelas tuas ruas, nem disparo armas nos teus campos... este brinde é pela minha dor! esta ganza é pela miséria! aqui não tenho de ficar calado, aqui não tenho de ser gentil, extraordinário e restrito em simultâneo, mas repara como estou de rastos, tenho comentários agarrados às solas dos sapatos aqui eu ocupo ...

O tédio

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[Imagem gerada por IA — "não fui eu que fiz."] já sentiste a solidão,   num país inundado de sol? uma pedra num charco,   uma rosa que ceifa,   a queda infinita,   o vazio que aleija. já queimaste um teatro   por ser dramática a peça? a caravana,   finalmente a caravana,   e tudo isto num panóptico.   finalmente, na secretária,   um capítulo a descansar. já alguma vez viste   todas as linhas da manipulação   com a nitidez de um marginalizado? já escreveste um livro de pesadelos   só por estares aborrecido? e alguém me explica   porque é que o público   prefere viver constantes pesadelos   a concretizar realidades melhores?

As vénias

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quão doentiamente é que me desejas? é melhor chamares o clone que não faz o que eu te fazia. ao sair de cena parece que deixo um rasto de rebuçados pela rua... eu sei que quando eram crianças, vocês sonhavam ser assim. não se esqueçam desse desejo, respeitem o desejo. dobrem-se, fiéis. consigo ouvir os gritos,  são de prazer ou dever? eu demorei um tempinho a chegar aqui mas não pensem que acordei assim. não se emaranhem, não se confundam, isto é meu. dobrem-se, fiéis, aplaudam, felizes e triunfantes, amaguem-se, devotos; amaguem-se, fiéis, tenho tanta coroa... amaguem-se fiéis. por onde passo, um rasto de rebuçados pela rua!

Sidewinder [cover]

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lights, camera, acción , ... pronto, faço isto sozinho. deslizo pelos detritos do meu mundo e a tua alma dá-me fome —  és a presa que dá vida ao predador. não o sentes? o veneno crescer, logo pela manhã,  a ver estrelas da noite? não a sentes? uma dentada desde o âmago do veneno até ao fundo do coração? deita-te bem cedo, esta noite desaparece-me da vista não vais fugir a tempo ó, a misericórdia é tudo o que precisas ó, e para ti os meus dentes não servem para sorrir é certo, que vou despir esta pele mais tarde, mas as presas são difíceis de esconder e já te explicaram que vamos todos morrer. a escorregar pela areia da noite só te tenho a ti na mira podes fugir, mas não te podes esconder. ó, misericórdia, tudo o que precisas, ó, e para ti os meus dentes nunca serviram para sorrir para ti sou o portador do destino, o sítio errado e a hora errada, e agora o terror no ar que respiras é puro instinto, um ódio gelado. eu não me arrependo, eu não posso escapar a decisões tomadas por...

Cada Pesadelo tem uma chave

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Nossa Senhora do Caos,   Tende piedade dos obcecados,   Dai-lhes paciência     e uma mortalha para enrolar. o tempo pára   com o abrir da cortina. afinal, quem é o público   que espreita pela jaula     enquanto cantamos       aqui neste palco? é História ou é arte?   são factos ou meros sonhos?     o que fizémos ou entendemos? Nossa Senhora do Caos,   Larga a salvação.   Dai-me suspensão.     Já nem peço piedade —       só o silêncio. são rumores ou pesadelos   as vozes que silencias     quando entro em cena? as luzes ficam mais fortes   quanto mais temos de esperar     pelo vício de ser visto. Nossa Senhora do Caos,   Será que a luz     me pode engolir? com o cair da cortina,   o tempo recomeça. Nossa Senhora do Caos,   rezo:     que o teu despertar seja doce.