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crise de representação

eu canto o corpo eléctrico. os exércitos dos que eu amo engrossam-me a voz. não me largam: marcham dentro de mim até que eu siga com eles, até que lhes responda, até que os purifique  e lhes devolva, gota a gota, o que me resta da alma. encanto o corpo eléctrico. eu vi as melhores mentes da minha geração desfeitas na vaidade da reputação,  esfomeadas, histéricas, nuas, a raspar alcatrão ao romper da aurora, a ressacar por outra dose de metafísica. metaleiros com caras de querubim a arder por uma ancestral ligação ao paraíso, ao dínamo estrelado da maquinaria da noite. esvaziados pela espera, acesos pela promessa. alguns despiram o cérebro ao céu e viram anjos muçulmanos a cambalear sobre telhados de zinco, sob uma luz que não vinha de lado nenhum. outros atravessaram universidades com olhos frios, radiantes, a alucinar Avalon e teorias da conspiração, nos corredores da arte da guerra. os que as academias expulsaram por loucura, por publicarem  odes obscenas nas janelas da...

da tirania do belo

e ainda entro em cena com a cara de ontem, à luz do castiçal parece impecável... ninguém reparou que me estava grande. dizem: depõe a máscara, mas com mais luz do lado de cá e tapa essa mancha na bochecha, e não tragas o corpo inteiro, há sempre alguma parte que destoa. mas eu arrastava um jardim pelo corredor e as roseiras encalharam nas portas, deixando no verniz arranhões e um perfume a excesso pela casa. nisto, um anjo pede-me lume, já tem as asas amarelas de tabaco, e eu tive de dizer que não, já nos ardeu a sala uma vez. (e ainda há quem elogie a cor das paredes) queriam verdade? abri a camisa  e pediram-me que a fechasse: a cicatriz não fica bem na foto. coberta por uma jóia e umas pétalas, quem sabe? ó fantasmagoria da arte, faz-me um sonho bonito, que apodreça devagar sem perder o perfume. mas deixa os andaimes à vista, a seda rota e os pregos onde o brilho das flores  ganhou ferrugem, para que saibam onde pus as mãos, onde falhou a cola e quem ficou por baixo quando ...

à prova de Hamlet

os salgueiros choram os ramos por todo o lado. fossem lágrimas e estaria afogado. nesta terra tão divina e bestial, eu era um anjo a viver num jardim do mal. mas há uma  lâmpada no fundo do charco. chorar ou não chorar? eis a questão. será mais nobre deixar os proveitos de uma fortuna infame acontecer, ou erguer o terremoto das mãos contra um oceano de azares e, em combate, acertar um tiro num potencial melhor amigo? dormir. sonhar. nada mais.  e no sonho deixar que a dor desate  os seus perfumes em poemas, que a carne se livre de uma herança dos espasmos e das feridas de deuses e monstros, com a paz de saborear  as tuas últimas palavras como haxixe. o meu coração está uma lástima. se eu o  suportasse  sozinho, eu não  tentava tanto  sedar  o que já  ficou para trás. sonhar morrer. morrer e lá sonhar. eis a fissura.  que sonhos florirão desse charco, quando despirmos a mortalha febril? que rosas de outroras, que venenos?  que s...

de seis anéis na mão

(quando a armadura aprendeu a cantar) o faz de conta recontado, os mitos todos matizados... ó, eu não quero convencer-te: tenho os sonhos todos espalhados... luzes e reflexos nas ondas, e os anjos saem para brincar,  mares de jóias em excesso!  vi-me sangrado e a boiar, entre esplendor e progresso (da maré). os clarões de luz incidem, insistem,  deixam-me atordoado (vêm de todo o lado). no meio de tanto néon a arder, rezo que a fama não me venha dissolver! vês um dragão requintado, nos seus pecados sofisticado, mas não mente, ele não morre na praia. é pai, mãe, filho, espírito solto, esta família é atraente pa' caralho, será que sobrevivias ao que passámos? cai e levanta, pronto para outra ronda: despenhámos, desempenhámos e ó, se ousámos... eu acho que é hora, senta-te lá e sê humilde: nem tudo o que reluz precisa que se valide, e se não consegues ser bom,  sê melhor no que fazes. ó, não quero rosas às dúzias, não quero manjares novos e esquisitos, não quero passeio...

re:corda

Ó estranho,  dá-me força, recorda-te de mim. Acorda, estende a mão. Salva o que vem a seguir: para eu reconhecer ainda cá o gesto de quem depois dá. Respira: devia ser bem fundo. De fé: devia dar um salto. Sabor: da melancolia ao submundo. Perde o que já não tens no asfalto. Espaço: à medida dos teus passos. Uma milha a caminhar nestes sapatos, poderão conter os teus cansaços? E tinha a chave da porta que se abria para o jardim das rosas. Do outro lado, ninguém dizia o meu nome, e eu podia entrar. Hoje, o brilho da estrada  turva-me a vista, tantas ondas de calor,  sinto-me a nadar num espelho! Não sei o que encontrar, mas sei que vou chorar  todas as minhas lágrimas. E o jardim é este lugar onde já não cabem os que partiram, de onde nenhum deles saíram. Os sonhos rebentam as costuras. Ou tudo o que resta, ou tudo o que fui. Ó estranho, recorda-te de mim, até do que não viste: a mão pequena, a chave demasiado grande, as oito voltas em correria  em direção às ros...

uma lição perdida de um mestre perdido

Quando o meu Mestre me perguntou como tinha corrido a viagem, eu disse-lhe que julgava ter encontrado a razão da minha existência.  — Creio entender agora como cada pessoa atravessa a vida convencida da sua própria virtude. Como se tivessem sido escolhidas para redimir o mundo através de uma luz permanente e fixa. Mas a luz, se se fixa, não passa de uma fachada. Dentro de cada coração há sombra e muitas vezes aquilo a que chamamos virtude não passa de uma farsa bem iluminada. Se saber disto é a minha maldição, aceito-a de bom grado. O Mestre escutou-me e disse que eu devia ter confrontado muita escuridão, para falar com tanta certeza. Ousei, então, formular a minha teoria: — Aqueles que ambicionam um poder de forma desmesurada roubam-no aos que o têm e convencem-se de que o merecem. É assim que começam a sujar-se. Acreditam naquilo em que pretendem acreditar. Inventam razões fúteis para justificar as suas acções. Repetem as mesmas desculpas até que se confundam com a sua verdade. E...

prelúdio para um labirinto

ó sonhos virtuosos, acordes desesperados, formas disformes, frascos endiabrados, quimeras da fronteira entre a magia e a ficção, voltai: quererei fixar-vos um dia? será que este meu coração à vossa superstição se renderia? ó carnaval mirabolante, de sorrisos e de pouco siso, envolve-me, como dantes, nesse vosso triunfo: eis-me, sou vosso (gritem por mim, anjos,  como se estivessem a morrer). e tu, ó canto que encantas a multidão, com a melodia que escolheres, com o timbre que quiseres, electrifica o desplante,  surpreende, radiante: podes ser remédio, veneno e droga, a partir de atlas e herbários para findar rituais. segue, pela urbe, o tropel dos desejos, enquanto desvanece o chão, não se espanta; emana subtis verões juvenis e até os dragões mais lúcidos abrandam. ei-la! ó boémia de outrora, dos que se comoveram em horas de ouro, no enlanguescer do fim de um dia, em que todos aparecem despidos e gloriosos (horas de ouro… como escoaram). o amor e o aplauso são como chicotadas,...

beladona de Láquesis

estou a viver em tempo extra um décimo-terceiro esforço para uma vigésima-quinta hora. enquanto a tensão cresce e a lua corrompe o caos que se vê e o caos que se é talvez se confundam, na ária de um pianista sem nome, num poema pintado em nuvens, nas badaladas das beladonas... (que sempre houve anestesia na alquimia) hora obscura, talvez já diurna e amar corta como uma lâmina de pétalas a perder o tempo em levitação e delírio... será que devia pegar fogo a tudo — a fama, a fortuna e que mais! —  contigo ver tudo arder, e começar de novo? é que até a gente boa sangra... mas há uma luz,  no meio de tantas, uma, e uma pista de dança sobre que olho, ambas me contam algo que se passou: do fogo no nosso chão, da devassidão da minha devoção, para que o mesmo conto se repita e onde está o nosso olhar estrelado? onde acaba a glória e começa o sonho.

anjo baleado, anjo baleado

os tiros foram disparados  pelas veias da cidade, anjo baleado, anjo baleado, por que é que ficou tudo especado? anjo baleado, asa da lua cheia, leva-me daqui, leva-me para nenhures: inferno, purgatório, matriz, das maravilhas um país, constelação da veia láctea, para junto das ondas que cospem vidas possíveis  por um triz. anjo baleado, anjo baleado, imagem constelada, lágrima cristalina, ferida que brilha, ruína que ilumina, ao fim do dia, só queremos sair daqui, (como pudermos, sem nos explicar) confortavelmente errados, estranhamente inteiros, sem obrigação de regressar. anjo baleado, anjo baleado, a empatia pode resolver esta realidade, uma sociedade da saciedade, catástrofe, situação fodida, no pavimento, em confusão repetida, aplauso para uma rima desmedida. anjo baleado, anjo baleado, as lágrimas de um dragão podem não sarar pauis, mas tenho escamas, podemos resistir à condição! e escorre-me sangue pela mão, para reescrevermos a dissolução! anjo baleado, anjo baleado, ...

pétalas pesadas

pétalas caem como lágrimas num pântano. e de quem é a culpa? minha ou da vegetação? jogo xadrez com dados de faces incertas e aperto-te nos meus braços mais um pouco enquanto o mundo estiver a acabar... mas eu ainda nem comecei: era uma vez, num sonho alcançar-te, da porta que nunca se fecha contar-te, e ravina abaixo, pela noite, arrastar-te até que a luz de presença se despedace. há algo em mim que quer amar-te sem piedade nem perdão, revelar-te diante do medo que não queres ouvir, sussurrar-te... mas quase me afogo em pétalas, só queria poder dizer adeus às fotografias das vidas que não vivi; às centenas estendidas na enfermaria da hecatombe; se esta é a minha maldição, aceito-a de bom grado. uma ruína conveniente, pétalas pelas roseiras, um sacrifício psicótico, retratos de pétalas filtradas, dizem que não há corações partidos no paraíso. e quando a aurora iluminar mais pétalas que me deslizam pelas coxas talvez já não tenham sabor a sal, talvez sejam só mais um nome elegante para ...

debaixo da máscara

o amor é como um comboio, podes sempre esperar pelo próximo. queira compreender e acompanhar-me,  próxima paragem: Desespero.  este vagão não pára em apeadeiros. se na superfície, sou uma criança diabólica; lá no fundo, eu só quero a santidade. não julgues pela capa: este abismo é mais profundo do que parece. hipoteco a abnegação à espera de um credo, a cair, a sufocar, sem ar! e mais uma vez, bem-vindos a um novo começo! reinicia o espectáculo! não vejo diferença entre piadas e testemunhos, entre ser real ou majestoso, tudo se confunde no mesmo esboço, se uma simples lambidela te deixa a desejar, eu deixo a marca, para mais tarde lembrar, antes de bater, meritoriamente, no teu fundo. abana a anca, realizo-te os sonhos, parto corações, desalinho contornos, mudo de roupa, assumo a tua voz, sou o papel que escreves em nós! mestre de sonhos, leitor de mentes, motor de mestres, tudo o que sentes num papel principal. gato de rua, estrada crua, numa grua, ergue-se nua! o renasciment...

dos néons inflamáveis

a verdade pode ser feia, eu sei, repleta de nomes perdidos, dos que já foram... mas gelam-me as veias pelos defuntos e pelos seus sonhos, que em mim ainda moram. e quando choro em queda corrupta, quando estilhaço em álcool que derrama, cascata densa, tempestade abrupta, arde o néon que nos inflama! e podes levantar as mãos! vamos tentar! apanha-me as lágrimas antes que o mar as junte às ondas, mas consegues detê-las? para juntos sermos um paraíso de néon a ver estrelas? quando o sangue me enche de tesão e sinto que sou inflamável, seja cortisol ou em combustão, estou no ermo do irreparável! há dias em que não sintonizo, caio por dentro, perco o piso... se quiseres ficar até me fartar, talvez me consigas fazer degelar. há dias em que me sinto tão novo... a revirar o cânone, provocar o povo! a remexer nas regras do porvir, e escolher eu mesmo o que hei-de seguir.

o pacto com os diamantes

Vem a mim, Musa, com a tua fantasia e o teu subtexto. Faz aquilo que tu fazes. E eu perverto-te. É mais uma noite, a luz da lua reflecte, a urbe acorda, começa a rotina dos noctívagos. A mente desfoca-se, por isso, foca-te na tua sina. Entra o diabo pela janela e pergunta, como sempre: "Sabes qual é a fórmula para a beleza?" Mas eu já sou letrado nestes pactos e, para ganhar tempo, dei-lhe duas opções. Será chegar ao momento em que dizemos "Demora-te! És formoso" e vendemos a alma? Ou não será lutar contra um mar de obstáculos e perdê-la, ainda assim? (Um é Fausto, outro é Hamlet).  Insiste, com aforismo e aborrecimento, "A vida é um enigma do esotérico" e eu, o tolo, pergunto-lhe pela morte e os seus encantos. E o comércio com o que nunca se deixa agarrar? Na jogada do costume, pretende mostrar-me as imagens que já vi, num outro filme (que mais parecia um longo anúncio de uma imobiliária mental com que me cruzo todas as quartas-feiras). Sugere uma eléctri...

a admiração pela honestidade

As imagens na minha retina passam  mais depressa  do que se fixam!  Mais uma volta  e pode ser que fique eterno! Queria estudar a honestidade através de um olhar selvagem, mas a estranheza das asas persiste em erguer-se! Há uma alquimia secreta, obscura e delicada, onde a mente do artista se faz labirinto e as almas perdidas ensaiam felicidade e ferida. Como um poema dito por um velho bandido, Escutas as palavras que sempre te prometeram! Num timbre assombrado (já te sentes perdido) Está na hora de lançares o  feitiço da noite! Se a fantasia pudesse inventar um amigo, a paleta dos vossos sonhos incendiaria o mundo, para além do universo (esqueçam o seu fim). A vida só se cumpre arte num lugar terminal, onde o paliativo é lugar sem promessa, onde a natureza cavalga sem rei nem tribunal. Oh! Fantasmas da pista de dança, venham a mim —  cantem-me a melodia das minhas vergonhas! Engasga-te na tua própria fama, até te livrares da lama, senta-te na fila da frente...

vida boémia

[título alternativo: Uma crucifixão é como ver de cima] Para quê ter uma voz,  se já ouço vozes? Atrozes, velozes,  a fugir por ensaiadas poses? Osmoses de egos sem posses,  credores morais, cobranças banais,  prostituições intelectuais. Eu admito, sou um bocado solitário, tive de crescer criativo,  para não parecer ainda mais perdido. A minha mãe ensinou-me a não falar com estranhos, agora o estranho sou eu e ninguém me fala. Passei demasiado tempo a cultivar mística, (farmar aura na rotina banal) E posso não ser um bom exemplo: não singrei, fiz-me feliz, o que eu digo não se escreve, e o que eu escrevo não se diz e tirando este verso,  os outros todos são as mentiras que eu quis. Mas só vejo um tipo de pessoas imitar-me (estou a ver-te, sim) e se ninguém aqui me dá, eu tiro (instinto, impulso, estilo) vou ser vilão por umas horas, para ver quem vos salva desse delírio! Se não te vês no futuro  ( mutatis mutandis,  trocado por miúdos) és descartá...

última surpresa [tema e variações]

os melhores esquemas traçados pelos homens e pelos ratos nascem certos, morrem tortos são dívidas a prestações por risos a curto prazo. bom dia, o meu nome é n-n-não vale a pena, conhecer-me (longe de mim!) é risco desnecessário, há dias em que fujo dos holofotes, outros em que não evito o contrário (e eu não sei ficar parado) eu não sei se sou eu que não tenho o tempo, ou se é o tempo que não me tem a mim... se calhar, tenho de escrever mais uma (estas últimas não bateram) se não me meto a escrever vou fazer os trabalhos de deus  pro bono mas o Bono, desde que casou,  acredita numa vida depois do amor e eu já só acredito no amor depois da vida. queres passar à frente? (tem calma) pede às Musas pulmão para este fôlego, ou instinto para estas altitudes, não conheces esta arte? (ciência profética) não leste o livro? vê o espectáculo, não viste os sinais? sente o impacto. e quando olhas para o horizonte (nem uma nuvem) mas o olho do furacão já te engoliu, parece que veio do nada...

estudos avançados em partir corações

[Com interpolações de NERVE] Preâmbulo: Isto não é para novos. Regra número um: faz regras e esquece-as. O corolário é evidente. Não me dou bem com nós e laços . Sou amigo das fleumas, que guardo nas veias; dou-me bem com os nervos frios das cadeias, se tentas salvar-me, sustém a respiração: E digam ao Mestre de Pesadelos que estou no ponto em que a tortura parece uma bênção. Não me dou bem com nós e laços , aprendi a entrar em silêncio, por passos baixos, sem pedir licença, sem liberdade de expressão, porque "o demónio mora ali, na porta em frente à porta em frente à minha". No princípio era o ruído, o rumor no corredor, dito baixinho, a edificar uma casa de terror. Não há aqui quem ame; há quem observa, há quem mede a distância entre o rosto e a reserva. Um gesto fora de tempo, uma frase mal traçada, a repetição, a dúvida, tenho a alma destravada. Partir corações é só a superfície, apenas o começo, a parte mais funda é fazer do medo um endereço. Tu não viste quando começou....

De veludos e vícios

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O dia em que beijaste um poeta às escuras, morra e pereça! De veludos e vícios se fez o sonho. Superfícies macias que encobrem servis mecanismos. Energias a render para consolo do consumidor. Fome sem nome. Avidez obscura que pede mais, sempre mais, sem saber o que pede a mais, mas imediatamente reconhecedora da próxima dose. Puxam-me, empurram-me, oferecem-me poses e personagens praticadas. Tanta linha por cheirar e eu a assentá-las no currículo.  De veludos e vícios se fez o ódio. O ódio não nasce grande: faz-se útil. Poupa o trabalho de sentir, oferece um alvo ao vazio, cola uma máscara ao que não tem rosto. Dá ambição aos que já desistiram da alma. Faz arder buracos pelas ruas. Faz confundir violência com forma, grito com canto, castigo com sorte. E chama sublimação ao que não passa de mesquinha punição. Mas de veludos e vícios se fez o sonho. Guardo fantoches em caixas de bolachas, guardo-os até me fartar desta máscara que criei à minha volta. Um oásis, o paraíso nas minhas mã...

Elevação

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para lá do oceano de sangue de uma ferida, para lá da discoteca e do medo; vai onde a luz, sem pompa, invade a vida e toca o todo um segundo mais cedo. acima do tédio e do bafo da cova, do azar que nos persegue em rito; da beleza, amarga, dúbia e nova, sobe, um coração, para fora do conflito. move-te, agora, como quem deve à água a técnica secreta de persistir; não pela asa triunfal que rompe a mágoa, mas pelo fôlego limpo de emergir. move-te como quem, depois da água e da ferida, aprendeu no naufrágio uma ciência mais fiel; não para esquecer a lama, o aço ou a descida, mas desfaz no sol um fel tornado mel. feliz quem distingue a sombra da claridade, e vê na flor do mal uma réstia da oração; quem acha no comum, sem grande vaidade, beleza bastante para enganar a podridão.

mergulho

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e ainda não tens palavras para o que já te estão a fazer. se vieste por uma catábase (para além da mais recente), terá de ser aquática. não gosto de bichos da terra, nem de remexer na matéria estática; apavora-me a ideia seca de desenterrar cadáveres meio comidos. tudo o que acontece nos sonhos pode acontecer na vida: dá para fazer rir, dá para fazer chorar, dá para boiar, em feridas... tudo, sim, tudo é a contar. sim, tudo pode vir ao de cima, antes de se afundar. ai, quando os santos entrarem em natação sincronizada, ai, quando os santos vierem em roda concertada, ó meu bom deus, eu quero nadar nessa farra, quando os santos entrarem pela água iluminada. vem o palhaço, com o fato a descair, numa dança que sonha seduzir, ou na sombra em que o vilão vai surgir... isto são só sonhos. vem a noiva, de véu a flutuar, vem o dândi, de peito a naufragar, vem a sala de espelhos, a afundar... ouve o som transbordar. o enredo pode arder e cheirar a sexo, um divorciado gay, que anda atrás do seu e...