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A mostrar mensagens de Junho, 2013

Ralo

Tu cais da vida
E aguentas a queda,
Através dos comprimidos
Que tomas, já não és forte,
Como eu nunca te quis ver
Andas às voltas num ralo.

Identidade e Ilusão

Criámos o eu para não nos sentirmos sós no corpo.

Tudo o que temos na imaginação é imperceptivo. Fenómenos de exteriorização ou alucinação momentânea, numa constante obsessão em exorcizar a solidão, a paragem e, em último caso, a morte. Atormenta-nos a ideia de cegueira, de perda do primeiro sentido da nossa vivência na cultura visual, no império da iconocracia. Porém, é mais fácil imaginar de olhos fechados, no consumar do rapto do mundo, na abstracção do sentido que ao mesmo tempo nos permite qualquer evocação do qualquer outro, nos prende a essa constante assombração.

Démos à luz deus para não nos sentirmos sós no eu.
Não o tem na sua etimologia, mas Deus parece-me implicar uma duplicação do eu. 

Alteridade e Alusão

Lua. Rosa. Gatos.

Vivemos num determinado fascínio
Tão absorvidos por nós
Quanto completamente arrebatados pelo resto.
Só o nós-em-si já é um mundo.
E cada fora tem o seu próprio dentro
Corações e núcleos, veias de dados afogadas...
De certo modo vivemos extasiados neles,
Numa espécie de aturdimento imanente.

Devir de Alice

Nos passeios pelo país das Maravilhas, também nós somos como Alice. Tão grandes que dá medo olhar para baixo da sensação do poder, no cume só estão os que vão cair ou descer. Ou tão baixos que tememos olhar para a infinidade do céu, que nos resignamos ao nosso tamanho e forma. E alternamos.

Ressaca Teórica

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Descendo a passos estranhos e irrequietos uma escadaria vinha um filósofo. E na mão trazia uma Pepsi, curava uma outra ressaca teórica. Que maleitas afogaria no homicídio de garrafas de absinto? Seriam as incapacidades humanas de expressar pensamentos ou linhas de raciocínio epistemologicamente saudáveis? Os limites cobardios de um pensamento tão tardio que já veio atrasado na sua pretensa reiteração dos clássicos.

Sentou-se na cadeira, ouvindo a forma como uma língua podia assassinar a beleza do pensamento. Os rrrrs e os qqqqqs que arranhavam as gargantas e degolavam os virgens papiros, recém-nascidos e salvos da martirização temporal, salvos na intangibilidade dos pensamentos. É nessa segurança que nos preferimos reter: pensar para não falar, ficar na teoria e nunca na prática, nessa obliviosidade logotécnica.