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A mostrar mensagens de Maio, 2015

III. A Biblioteca de Babel

Da janela, o crepúsculo. Do espelho, a reduplicação da biblioteca. Já o encontraram? Eu ajudei-o, ele disse-me que o final tinha sido reescrito. Que para o evitar eu tinha de o ajudar. Mas era tudo mentira. Despertou a escuridão e agora o meu sangue é a ameaça das histórias.

Entra o rapaz com quem pintaram. Era o alfarrabista. Não sei como vim aqui parar. A realidade anterior assusta-me. Não te preocupes, ele ainda não tem a tinta. Pessoal... enquanto vosso amigo, eu peço-vos... dêem-me um fim.

O alfarrabista muda de tom. Estas estantes guardam cada uma realidades cristalinas intermináveis. Que escuridão. Queixam-se os outros. É finalmente claro que não nos dividimos entre vida e morte, mas existência e ausência. Vocês adormeceram em busca de uma história sem a terminar. Cada livro é uma tentativa. E agora vamos reescrevê-los como devem ser. Apontou para o outro: Tinta.

Um livro que pode transcrever eventos que ainda não aconteceram. Um livro que pode conjurar mundos novos. O cenário …

V. O Retrato do Artista

O céu era o canvas plano. Sem hierarquias, apenas o reflexo da plena simplicidade. Quando descobrimos a profundeza do céu é que descobrimos a sua hierarquia. A uns promete-se um fim, a outros outro. Parecem depender, esses fins, de escolhas na vida. Mas o código é irreconciliável. Não parece existir uma lógica.

Cemitério de chaves. Entra o alfarrabista. Eu estive nas outras dimensões e já sei tudo. Para quê? Já deves saber que a luz está presa no disco. Que nenhuma história assim terá um final decente. Foi o coração que foi distorcido pela ligação. Foi um acidente. A luz e a escuridão dividiram-se entre nós. Fiz o que achei melhor e exilei-o do universo, no sono.

Não era justo mantê-lo com a pessoa que causou tudo isto. Reescrevi o livro treze vezes e deixei-o sempre de fora. Mas há fantasmas psicológicos. Há algo de contaminante e contaminado em todas as histórias. O diametralmente oposto a um pântano. Luminoso. Agora a escuridão que vaporiza espalha-se pelas treze dimensões. Tem de …

VII. O Estrangeiro

A maré não se mexe nesta praia. Há uma silhueta negra deitada na areia e alguém a aproximar-se. Quem és? Não é normal ter visitas. Estás sozinho?

É a segunda vez que aqui chego sem ir. De mim, não sei quem nem quando. Foi-se tudo nas marés que me trouxeram e entretanto pararam. Não sei como sair. E queres sair? Eu prometi aos meus amigos. 

Pontos luminosos. Na pouca memória que tenho fazes-me lembrar um rapaz que visitava e distribuia luminosidade com um sorriso. Tudo parecia a salvo. O que é que aconteceu às dimensões? Nós desenhámos um mapa para um lugar melhor.

Estilhaçaram-se sete vezes entretanto. Algumas mantêm-se de pé. Há um elemento constante, uma aura ou sopro transcendental. Como se as dimensões respirassem. Para tantos mundos existe um só céu. Um só céu e um só destino. 

Não sei quantas vezes vivi o fim da história e fui até aqui carregado pelas correntes. Não sei de mais ninguém. Lembro-me de ter vendido um livro. Esse rapaz... a sua aura era obscura por dentro e lumino…

XIII. O Tempo e as Dunas

Corações escondidos. O filtro é escuro nesta dimensão. É a escuridão que me dá controlo aqui. Os músculos e tendões que uma vez te obedeceram rebelam-se. O puro facto de aqui estares só confunde a mente.

O meu coração é meu. Achas que podes chegar e conquistar? Isso não vai acontecer. Veni, vide, vici. Não vais conseguir fugir. No final, o teu coração vai ser engolido pelo meu. Para sempre. Não, eu vou dizer-te onde fica a saída.

Tu nem dominas a tua escuridão, que sangras das feridas que não sabes ter. Como podes pensar triunfar? Vais descobrir em breve. Não me digas que há mais alguém aqui? És traiçoeiro. Aprendi com o melhor.
"Eu não posso ser objecto imediato do conhecimento, porque se fosse conhecível a nossa alma, requerer-se-ia uma alma segunda para conhecer a primeira e uma terceira para conhecer a segunda."
- Paul Deussen Não tenho medo do escuro, podes controlar o corpo, podes atirar-me ao abismo. Nunca vou largar o que é meu.

Palavras caras para quem não tem faca …

IV. Mnemosine

O Labirinto do País das Maravilhas é impressionante. Não entendo o código. dizes que amas, és o Inverno. Um dia cá, outro lá. Um dia preocupas-te... que jogo injusto. "Bebe-me" diz o frasco, antes que a corrida acabe. Santo Graal. 

Era uma vez um rei que reescreveu a sua história. Reescreveu-a com tudo o que desejava. Pelo menos, assim pensava.

Um dia, o rei apercebe-se que a vingança não bastava. Desesperou. Sentia-se só. Passou os anos à procura de amor e encontrou. Mas apesar de viverem juntos, não acreditava num para sempre. O ar é exactamente o mesmo que respiro. Tu, sejas tu quem fores ou o que fores, ainda aqui estás.
"O porvir é inevitável, preciso, mas pode não acontecer. Deus está à espreita nos intervalos"
- Jorge Luís Borges
"Deus morreu e fomos nós que o matámos."
- Friedrich Nietzsche Mantinha-se a neblina que o supervisiona. Preocupava-se com os Diamantes Unidos do Caos. Defendia-os, mas nenhum era real. Era preciso esquecer a condição fi…

I. À Distância da Queda de um Sonho

"A história universal é um infinito livro sagrado que todos os homens escrevem e lêem e tentam compreender, e livro este em que também são escritos."
- Thomas Carlyle Estas ruas não são de ouro porque as memórias não se forjam.

De manhã, com o sol a entrar pelo quarto, levantou-se sem saber onde estava. Olhou pela janela e viu o recorte horizontal de uma cidade. Consegui, venci. Saiu e pelas ruas observou a sua obra mais impressionante. É uma realidade tão cristalina como a outra. Bom dia, senhor presidente, está um belo dia. Disse o psicólogo. Está sim, sorriu.

Personalidades são personagens. Noutro dia, pelo cemitério perguntou. Recorda-me, há quanto tempo és coveiro? Desde que me lembro. Anda. Caminharam juntos até ao hospital. Conheces este homem? Silêncio. Não, porquê? Quem é? Encontrámo-lo assim, é um John Doe. Pode ser que o procurem. Pode ser que o amor o encontre. Eu não contaria com isso.

Outro dia. Olhou pela janela. Passou pelo cemitério e pelo hospital. Nenhum d…

II. Disco Externo

Uma mão sai do ecrã para se cravar no teu peito. Já não há tempo: esta dor é composta de apertos emocionais. Aquilo não é o físico-coração que bombeia o sangue, mas o núcleo de todas as tuas emoções. Um órgão não-físico que se força afora do corpo. Uma ânsia por não te teres desviado a tempo.

Passam duas chaves a sobrevoar e reluzir na tua direcção, uma roxa, outra verde. Ouves um estalar de dedos e as chaves explodem num fogo-de-artifício. Algo te diz, de mão cravada no coração, que eram almas que rebentavam. Estás espantado, mas não tens coração... emocional... para o sentir. Tirem as mãos do meu receptáculo, o anterior resistiu à escuridão. 

"Duas pessoas esperam na rua um acontecimento e a aparição dos principais actores. O acontecimento já está a ocorrer e elas são os actores" Nathaniel Hawthorne
O meu objectivo é espremer a tinta do coração. Desse que emana escuridão e mantém luz própria. O teu sangue é tinta para reescrever aquele livro. De seguida vou dividir uma di…

0. Blackout

À beira mar, um jovem de olhos dourados e cabelo esbranquiçado. O mundo é demasiado pequeno. Este corpo tece as escalas do que é menor ou maior. As dimensões, as proporções e as equações fascinaram o tamanho do mundo. Mas há tanto mais perdido no vácuo do mundo que no corpo.

Ao lado um saco com um corpo. Existem vários mundos, um deles terá esse vácuo e lá um corpo sem alma como o teu poderá ter uma casa. Uma plenitude poética com o cenário: serás o protagonista do teu próprio poema-aquário. Uma silhueta sufocada pelo seu contorno.

És um prisioneiro hipócrita, pensas ser prisioneiro do teu corpo-jaula sem o ser. Temes o escuro, mas dormes tão sossegado. A luz cega e amplia a nossa escuridão. Acredita no teu próprio equilíbrio e luta para que não seja corrompido.

As chaves servem para abrir portas. Existem chaves para todos os mundos. Eventualmente vou poder dourar-te um trilho de luz alheia, salvar um amigo como nos salvámos a nós mesmos. Mas o amor, a sua fusão do coração, requer mai…

-1. Heróis e Vilões

"Ver para crer", São Tomé. Eu vi mas não acreditei.

Posto isto, imagina agora um prado de livros. Sim, folhas verdes, mas florescem códexes. A estes são chamados "finais felizes" e deles o vento arrasta sementes, pequenos caracteres negros, de uns para os outros. O vento carrega a tinta para as cores das flores e salpica aguarelas reluzentes. Sabem-no as bolhas de sabão, os sonhos ensimesmados, as águas de artifício, a alucinação.

Dantes esta terra estava privada de luz. São os teus olhos que nada vêem que a vêem de outra forma. Este jardim evita a contaminação do puro possível no real plausível. Aqui não estão em jogo noções éticas. A balança é imperturbável entre luz, escuridão e aquilo que delas decorre. Aqui o que está em jogo é a própria existência, o traço ou a borracha que não corrige mas censura.

Ao longe, como que num quadro de Ruisdael, uma montanha à luz ponderada da trovoada. Nela esconde-se uma maldição. Quando vês o teu reflexo na água que bebes, ouve…

-2. Simpatia pelo Diabo

Era uma vez... dizer era uma vez é tendencioso, quando não falamos de princípios nem de unidade. Eu não o faria, a minha tinta não come aquários nem dragões, apenas os injecta nessa cabecinha. A não ser que eu mande.

É caso de apresentações: nenhum assassino é inato como eu. Tenho tanta sede de cravar mãos em peitos e esmagar, tanta fome de veneno nos outros. O meu esgar é dourado como o vácuo do precioso [Apolo é pura aparência]. Eu nunca gritei pela honestidade, mas sondei a alma [Dionísio é maldade]. Os anti-depressivos só empurram o óbvio e mantêm o coração enjaulado no trauma. A única coisa que me sacia hoje é a tinta. Negra, parasitária do tom do meu cabelo que esbranquiça lentamente.

Tenho prazer em ter perfídia no nome e deixar o puzzle em aberto. Aterrorizar com palavras, prometer mortes aos planos menos patriotas. Nunca me faltou riqueza nem beleza, mas ó... porque é que subestimam sempre uma pessoa que se decora a diamantes e peles? As lágrimas caem tão depressa que nenhuma…