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A Minha Bela, Obscura e Retorcida Fantasia

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Se Ulisses e Páris se dessem todos bem, 
Havia flechas a voar pelo fim deste ano.
Parece que Tróia montou um cavalo contra mim, 
Cada vez que estou na rua oiço -

Aproxima-te, criança, cala-te de uma vez por todas, e ouve bem:
Tu podes pensar que já espreitaste o que havia a ver, mas não te enganes.
Aquilo que vês é a versão aguarelada, com os contornos do Principezinho,
E a aparência complicada da Máquina de Turing de madeira do vizinho,
Onde os bits parecem corresponder às imagens, e o conhecimento ao que emanas.

O que há no mundo, o verdadeiramente maquiavélico,
O que nunca foi retorcido e se manteve primogénito,
O beijo-dentada da boca do inferno que está pelo frio do Inverno
Foi mascarado há já muitos, muitos éons atrás,
Não fossem os pobres acusar-nos da paz.

Parece que tudo é louco e sentimental, mas o facto é melancólico e lacrimal,
Soluções obstinadas, adições entrelaçadas, ficções congeladas,
A vontade de comer mais sobrepõe-se a viver mais,
É impossível subir mais!

Nos electrod…

O Póstumo Bailado do Cisne Negro

Ontem foi o momento de refractar a luz verde do farol. Hoje é outro dia para pôr em dia a despedida odisseica. Amanhã vamos fingir dos nossos pesados seres maiúsculos. A minha vida tem de nadar em notas, como o tempo, paga o que deves. Oscilei na indecisão do talvez, no cemitério está o coração embutido numa parede de papel amarelo.

I Gritos sufocantes não alcançam céus, condensam ondas dolorosas. Magoam ouvidos esses menos cintilantes berros que a poesia-dada pode conter. Começa o ano como se começa a vida, a gritar e aplaudir a insegurança, de caminhar a quatro patas, Édipo. Pega num rolo de tinta e tinge a branco estes campos, vamos embora, Quixote.

II Tu, um viciado matematizado conta pesos e medidas? Colocas o comprido comprimido na mesa para o veres desaparecer. Tal como o Joker fez o homem engolir um lápis. Lambem-se os frutos proíbidos das mesas para não se desperdiçar.

III As púrpuras flores primaveris em jardins de granito são companhias que saram a solidão. Sentimo-nos a n…

Les Morts Ne Parlent Pas

Excelência, como vai a miséria? Disseram-me que os mortos não falam. Mas há uma propensão cadavérica à estimação, ao amor pelas larvas. O veneno fica-te bem, a palidez é claramente a tua cor. Olha a verdura da inveja encher veias, e o pavoneio sobre essa fossa no chão.

Ladrões no tempo. Ter o dom narrativo de subir, escolher, dissecar e volver. Mais do que isso só te vi o menos que preferiste mostrar. O queixo ganha músculos de tantas vezes se levantar. Imagina o resto do corpo cujo oceano é um mar de tinta negra petroleira. Tanta gente a nadar para cima em torno da luz. Tão poucos vêm que lá em baixo há um brilho tão mais estranho.

Se alguma coisa, posso pedir honra entre os ladrões? Ou esperar que os moliceiros afundem e com eles os legados. Expatriar para ilhas pacíficas o que me foi expropriado? Insultos uma vez em brincadeira, duas vezes a caminhar a prancha, três vezes, um oceano é um caixão. Disseram-me que os mortos não contam histórias. Tu ensinaste-me a calar um segred…

Inferno Suspenso

poder permitir, posso. mas há mas. benção traz discórdia. não vais sintetizar a purga da vida histórica na redenção actual. o peso de trás, por sinal, vem atrás. pântanos compostos, pirâmides incrustradas, remoinhos de puro laissez-passer. já viste os estados de espírito arquitectónicos? as auroras das intenções?

estas cinzas não guardam nada. de carácter, de facto: nada. são ondas de vapor como o fumo de cigarros. sai da boca, cobre a cara, máscara. o translúcido não protege nada de nada, a luz perpassa. não existe assim tanta diferença, menos indiferença. o vapor esvai, fica nos vidros, é água que já não é.

deixar de ser é a passagem do passado no presente. dissolve-se no ar. se o mal te sai da boca afora, passa limão. se o cérebro se tinge a sangue negro, esfrega sal nas incisões cranianas. se o oxigénio não oxigena, e o álcool não intoxica, esforça-se pela altura que a baixeza te não deu. se tudo passar e a flor ficar, aforismos.
~CAOS
"quem tem vapor tem tudo". foi a mel…

Potencial para o Caos

nós não somos assim tão diferentes, tu e eu.

temos tanques, espingardas e esmagámos cravos. carregámos, abraçámos e disparámos a artilharia botânica. os nervos de aço são o mais azedo algodão doce. a pele tem cócegas eléctricas. pouco originais.

somos alérgicos a ervas daninhas.

o amor flui de formas que não compreendemos. regam-no com auréolas esmagadas. regam-no de sangue onde não existe. perece, morre e faz adoecer. se és tanto como eu penso que és perceberás.

removemos causas para cuidar síntomas.

sangue frio no peito, gelo de pedras quentes. entre arte e desespero encontramos a nossa noção de si. o biográfico feito por mim, feito a mim. a culpa, a inimizade. per speculum aenigmate: somos os nossos próprios inimigos.

eu vou continuar a dizer que a vida é justa.

ter uma segunda oportunidade. e uma segunda... segunda oportunidade. é absurdo continuar a maquilhar a vítima. o silêncio não esquece pesadelos como eu e aquilo que podemos ser.

a grande diferença é não me importar com a …

Vileza

ironia é ter medo da sorte. porque qualquer coisa voltou. porque a desintoxicação, e a reabilitação, nunca compensam. curas que não pensam, mas te pensam. que pesam, fazem pesar nas costas, nos pulmões, no cérebro. toxinas de pântano. venenos. aquele lodo a pingar de cima do teu corpo. uma abóbora pela cabeça, um cavalo preto e uma figura de tamanho igual e forma humana. que merda é que se passou aqui? uma rosa azul de caule negro não é uma vela de manhã. não aqui. fogos-fátuos. memórias de corpos mortos e sangue nas mãos. tinta, lodo, toxina. a paisagem textual não reduz o ambiente de facto. sem riqueza, sem leveza, só vileza.

traumdeutung

há um novo determinado linguagismo a seguir. trilho de íris de borboletas atlas. asas sem desenhos, asas que não são mapas. nem constelações apesar de fazerem parte.

mas quero ser simples, mantendo um discurso do silêncio desacreditado e incrédulo. tenta parecer o maus humanesco possível. um zé-ninguém a tentar compreender uma nova arquitectura mental. focas olhos em olhares. não em sequências desesperadas. não os sigas. fixa, foca, quem são?

desconcentraste-te. voltaste a escorregar. em ti mesmo.

já não estás a ver. é como se te liquidasses ou liquifizesses, tanto faz. verdade seja dita, já não estás a ver. não são lágrimas. está tudo enublado. ou talvez não. talvez esteja tudo direito e o problema, não seja, de todo, visual. as nuvens são mentais. se existe psicologia, estas nuvens manifestam esse... velcro da alma que se mascara de astúcia. que pinta quadros sobre reconfigurações de quadros. que metáfora. onde molduras não são molduras, nem os sonhos sonhos.

há sempre algo de últim…

decadência

não se sofre para além do poético. para além do vómito no palco, da fotografia inglória do sorriso demasiado forçado. talvez metamos na cabeça que sim, mas não se sofre para além da impostura. de um eu negativo que diz que não diz. que não tem para além da máscara que ganha pó a cada puxar do lustro. muitos sins que são nãos. o que não é propriamente sofrer. e dizê-lo? e forçá-lo num martírio de vanglória? num suicídio remediável? na vela do barco sobre a qual pintaram um furo ou projectaram um fogo? e eu não sinto a cara.

talvez seja outro desses momentos em que o céu não arde mais nas costas que as picadas de mosquitos. talvez esteja a remediar com remendos as fracturas por preencher da vida. da realidade, quiçá? a memória é um quadro pintado de manchas, manchas visíveis, através das quais é impossível ver. não é translúcido, isso sei. admita-se que passou do olho ao cérebro a tintura negra do nada, do vazio, do impreenchido. o que podia muito bem ser branca transparência, é tintura…

pela praia

à noite os nossos desertos são pardos. mas naquele dia fui cartógrafo de areias negras. bem podia ser petróleo e manchavas o sonho. mas era só erosão de cristais de estanho. as esfinges contam espelhismos pelas esperas. as unhas segredam partos de epiderme que nunca chegou a brotar. não como as memórias. nada se revive, especula-se à distância a incerteza do que passou. sobram laços escarlates, grossos como as ondas da água turva. amargos como a obrigação de chupar o cano a uma pistola. encontras-te sem dissolver na solução de tudo. se as frases se escrevessem em mais do que uma direcção: deixaste em paz.

Justiça Poética

a justiça poética é geométrica. remoinhos concêntricos, diâmetros das acções, equivalências de simetria. um passo em frente é como se só caminhássemos para trás. não são assim as parábolas? não existem quadrantes esbranquiçados na realidade. as suas construções 3D são aleatórias, descentradas, ao deus dará. já o poético são peças de puzzle 2D recortadas para encaixar, pertencer e estabelecer uma direcção de superfície. o relativo sobre o absoluto. onde o absoluto é o real, actual, e o relativo um espaço, uma peça que sendo parte, não faz parte. uma ex-parte que comprova e aprova. o rio transborda com minúcia o seu caminho. o escrito segue um rio de tinta para desaguar num ponto final perspectivo. afirma-se a cada letra. a forma é exterior à nossa configuração. mas fomos formados em criação. fomo-nos formando em evolução. há uma noção reflexiva e ao mesmo tempo distorcedora da forma como espelho. é molde poético.

se um sistema de axíomas matemático apenas reconhece o seu estatuto quand…

MAZAL TOV!

quero chegar tarde, quando não chagar
decide o teu silêncio, destrinça o teu falar.
de uma vez, ataca, tanque,
e gritas, e desfazes-me na tua liberdade
a vingança cresce nas veias.
destrói o que tens a ser, o que és a ter.
em ímpetos de perversão
continuo a amar a destruição.
as veias dão nós na garganta,
nem Moisés retorquiu a deus!
as constelações não desenham futuros,
formam presentes, tentei dar-tas todas
um dia tentei dançar ao pé de ti.
visão estilhaçada desde que te quebrei,
o amor ao canto do olho, onde tem de ficar.
periscópio, estetoscopio, qualquer-escópio,
não é o melhor sentimento, mas é certeza.
peguei um escorpião no meio do deserto,
nunca me senti tão protegido.
nunca me senti tão indefeso.
boa sorte, escorpião.

jardins de granito

corta as pernas para voar. são raízes no chão
são raízes no tempo. corta as pernas para alcançar
deita abaixo o recém-castelo
causa e põe em causa as euforias discretas
as preocupações secretas. as críticas feéricas
põe um pé no chão, só falta serrares o outro
uma flor azul liga-se por fios de cobre a um arbusto disperso
nesta sala, tudo onde o sol se não digna a tocar são memórias
só sabes que não são mais esculpíveis
só sabes que não as vês na plenitude ideal da sua velha actualidade
não importa. nunca importa. alguma vez?
o cromatismo virou eufemismo
tu e eu somos a preto e branco a contaminação
tiras-me a gravata, substituis por um machado
quis tirar-te a aura e pôr-te um sorriso
ou melhor: quis falhar redondamente
não somos todos bruxos e feiticeiros?
pedintes predecessores da premonição?
arrasta as raízes pelo mar de argila,
deixaste a neve misturar-se com fermento.
cozinhaste os sonhos. diamantes em pó.
a perder-me nos teus cabelos, desenhar nos teus sinais.
eu gostava da mald…

3. L'Énigme de l'Auteur

Pirâmide. Numa cela. A maciça porta está fechada. Não tem janelas, só silêncio. Tão arrebatador como as profundeza de uma pessoa. A caixa está fechada. Pandora é um espelho. Enjaulamos os animais interiores. Instintos. O que é que mais te pesa?

A voz infantil retorna: Estou habituado à escuridão. Há tantos momentos que é difícil escolher um. Abandonado, recusado, injustiçado. Há heróis que têm tudo o que nós mais desejamos. Que nem têm de se esforçar. E é-lhes tudo entregue de bandeja. Nem imaginam o que têm! Não sabem aproveitá-lo!

Polvilhar a realidade com o poético. A ficção é a intoxicação do "e se", mas contaminou-se do rumo hierárquico de uma sociedade enviesada. Não existem estruturas, apenas constelações. Intimações da imortalidade. Devemos estar sempre aptos a coser as cesuras da realidade.

Nunca vais ser feliz. Não sabes como. O mau juízo crítico leva à falta de esperança pela verdadeira felicidade. Gabaste das tuas noções de amor... mas és só mais um a pautar o seu…

2. Remorso

Que me importava a morte dos outros, o amor de uma mãe, que me importava o seu deus, as vidas que se escolhem, os destinos que se elegem já que um só destino podia eleger-me a mim próprio e, comigo, mil priviegiados que, diziam como ele, ser meus irmãos? Compreendia, compreendia o que eu queria dizer? Toda a gente era privilegiada. Só havia privilegiados. Também os outros seriam um dia condenados.
- Albert Camus Tribunal. No banco do juiz, o Recusante; em volta as onze outras figuras do autor são os jurados; o autor está no banco do réu, no centro da sala.

O livro caiu da estante. É acusado de não apreciar o que tem. Ao que o autor retorquiu: Se queres tanto ficar conhecido pela tua inveja, faz o favor. Tu sabes que a inveja é só outra palavra para ambição. Assim falou Zaratustra. Isso não é verdade! Eu trabalho para as coisas!

Tu reescreveste um livro como saída de emergência para o labirinto decadente em que te enjaulaste. O fio de prumo sempre este ao teu lado para seguir. Tivest…

1. Sabotagem

Num piscar de olhos.

Reparem como o homem tende a descrever riquezas. A desmultiplicar em parcelas adjectivais os compostos disto e daquilo. Atira o coração às coisas e fotografa as manchas de tinta. Chama-lhe arte. Mas este processo pode estar vectorialmente gangrenado.

Os quatro prados estão percorridos de tons de verde. A estrada é feita de tijolos dourados.

O que acontece, deveras, é que as coisas são violentamente arremessadas ao coração. Que no impacto esguicha sangue por todos os lados. Manchas inomináveis, irreconciliáveis às formas do mundo e das coisas.

Apesar de decorarem a realidade a bordados de ouro, a natureza permanece em mudança.

Se descrever é atirar o coração ao mundo, que segundo processo é este?, para além da vida? O que é, em escrita, em literatura, deixar o mundo contorcer o coração? A descrição pede objectividade, mas o coração é arremessado à coisa. Num movimento oposto, teremos subjectividade.

O autor levanta-se e segue pela estrada de tijolos dourados até à …

0,5. Crux Post-Mortem

Sabes que tornaste a acordar num sonho, que a realidade permanece fracturada mas retém a sua aparência cristalina. Nada aqui é demasiado, mas falta-lhe o factor do inesperado na vida. Depois de viver a ficção, a realidade parece aborrecida.

As minhas condolências. Ó, perdi um discurso... ou devo ser eu a fazê-lo? No fundo, eu sou o único responsável por esta reviravolta. O Recusante surge com A Ilusão Esmeralda do Oeste debaixo do braço.

Ainda estou para perceber o que é que eu te fiz. Nasceste! E eu vim acordar-te para este mundo... real, como lhe chamas. Vim dar-te as boas novas em primeira mão. Que consegui e venci. Estes quatro caminhos de tijolos dourados são tanta ficção como a de antes.

De facto, era uma questão de tempo até um dos finais felizes se concretizar e destronar a realidade. A nova ordem corresponde à sexta dimensão. A minha. Não percebes? Eu vou ter tudo o que tu tiveste!

A última frase fora solta na voz de uma criança. Ao dizê-la cravou a mão no peito do autor e re…

XI. Lírio Virtual

"Que um homem escreva um conto e verifique que este se desenrola contra as suas intenções; que as personagens não actuam como ele queria, que se dão acontecimentos não previstos por ele e que se aproxima uma catástrofe que ele tenta em vão evitar. Este conto poderia prefigurar o seu próprio destino e uma das personagens é ele."
- Nathaniel Hawthorne Treze. Cada um viveu o seu final feliz. Sempre soubemos mas nunca pensámos vê-los arder. Voltaste? Para me certificar que mais ninguém se magoa. O autor cai no chão. Então? O meu coração estilhaçou com a escrita do livro. Voltar à realidade sempre foi um objectivo. Meios para um fim. A humanidade? Ao menos tive direito a ver os teus olhos uma última vez. Tinha sido o suficiente, isto tinha sido o suficiente.

Podias ter tudo o que tiveste no livro. Podias ser feliz e amar a sério. Porque é que isso não foi suficiente? Eu não achei que fosse possível. Aos vilões são barrados os caminhos dos heróis. Eu sabia no que me metia, não i…

X.Meios para um Fim

Sala redonda com treze assentos dispostos em círculo. Cada trono tem um número e doze deles estão ocupados pelos protagonistas, deixando um lugar vazio. Cinco deles estavam mortos. O tempo está claramente parado. Tudo isto foi decidido. Começou o autor. Hoje vamos abandonar o livro e voltar a ser quem éramos. A partir daqui só o futuro nos cega.

Os amigos que perderam e os sonhos que se fundiram falharam a entender a felicidade. Conhecemo-nos bem demais. Somos mais do que devíamos. Disse o número treze. Sim, algumas mortes foram traições. Quando escrevi o livro ressuscitei as almas que sacrificámos. É por isso que aqui estou? Perguntou Alice. Tu e o teu irmão, o Recusante, foram excessos. As vossas mortes estavam próximas do meu coração. Não vamos regressar? Nunca regressámos. Respondeu o Recusante.

O destino é da sorte e não do tempo. Cada um serviu o seu fim. Vocês recordaram histórias desconhecidas. Compreendi que o desafio à balança tem interferências. Outra voz. Há quem não tenha…

VIII. No More Flaming Lips in L. A.

Agora vamos dar as mãos para sempre. O destino deixou esta dimensão à parte. Parada. Um tempo vago, um espaço morto. O Recusante, a figura encapuçada, fora apanhado. Está numa gaiola cúbica com um X em cada face. O Disco Externo aproxima-se, vestido de branco: Rá.

Queria que aqui estivesses, no momento em que te apago. Eu? E o que ele te fez? Ele teve tudo o que eu nunca pude ter! Ele abandonou-me ao esquecimento e removeu-te da história! Eu quero e vou substituí-lo.

Tu não vais substituir nada. Nem ninguém. Nem vais existir. Espera... tu não és... Eu sou um fetiche narrativo maior do que imaginas! O teu plano vai ser o teu fim! Eu venci a morte! Temporariamente. Mas porquê? Diz-me! Eu nunca te fiz mal! Lá isso não é bem verdade. Os ecos queimam.

Quem és, afinal? Ser como tu. Um meio-termo. Eu não sou apenas o Disco Externo, eu sei de tudo o que se passou. Venho do décimo-terceiro final feliz onde... bem, eu era outra pessoa. Mas nunca me livrei de mim. Então saltei para esta dimensão…

XII. Desfile da Morte

Clareira à noite. Há um trapézio de circo montado no centro e sobre ele dança um corpo em equilíbrio precário. No chão, um outro corpo prepara uma espécie de ritualística. Esfrega um rosário na tatuagem de um crucifixo. Dos olhos escorre sangue.

Nunca pensei ver tantas cordas quebrar. A dança torna-se lenta e preocupante. É um sacrifício ritmado pela batida do coração. No chão, a prece torna-se conturbada, o corpo estremece descontrolado, alucinado. Ouvem-se os sinos da aldeia... doze, treze. Entra uma silhueta encapuçada com um pendente em forma de X. Achavam mesmo que iam evitar que eu viesse meter o bedelho?

Ao ouvir a voz, o corpo desequilibra-se no trapézio, consegue agarrar-se à corda por segundos. Mas assim que vê quem fala, larga-se, cai e morre. Enquanto caminha em direcção ao cadáver, a outra silhueta vai batendo nas árvores. Já reparaste como tudo aqui é vazio e chato? Como ecoa?

Repara, nós já nos apercebemos que o livro é um erro. O outro arrasta-se pelo chão para alcança…

VI. «A Ilusão Esmeralda do Oeste»

"Essa greta era só uma boca do abismo de trevas que está por baixo de nós, em toda a parte. A substância mais firme da felicidade dos homens é uma lâmina interposta sobre esse abismo e que mantém o nosso mundo ilusório. Não é preciso um terramoto para a quebrar; basta apoiar o pé."
- Nathaniel Hawthorne Não estamos a sós. Cama de hospital. Sentes outra vez peso no coração. Sabes que é a doença. Tomas um comprimido mas não está a funcionar. Porque é que não está a funcionar? Porque isso não é magia a sério, é uma ilusão. Entra um homem encapuçado no quarto. Não te deixaram morrer como eu pedi, então decidi aparecer. De debaixo do casaco tira um livro chamado A Ilusão Esmeralda do Oeste. Bem-vindo ao meu final feliz.

Como? Porque é que estás a fazer isto? Eu nunca te fiz mal! Lá isso não é bem verdade. O homem despe o casaco e revela um pendente em forma de X. Não pode ser, tu não estás na história! Eu certifiquei-me disso! Múltiplas agendas.

Eu só fiz o que sempre disse: a p…

IX. Alice Deste Lado do Espelho

"Em matemática, um sistema de axiomas só pode provar a sua própria consistência incluindo pelo menos um postulado que não pode ser demonstrado no interior desse sistema."
- George Steiner Nuvem nove. Não somos treze. Há alguém a mais... ou um eu a menos. As paredes deste castelo... eu não me lembro de alguma vez as ter visto.

Se não fizeres uma linhagem vais deixar o trono dissipar-se. Sim, mãe, e quando eu morrer aleatoriamente afogado? Vais ser tu a ficar com a coroa? Não. Eu descobri como evitar que isso aconteça. O que é que queres dizer?

Esta poção; para acabar com qualquer linhagem. Tu não vais fazer isso, é bluff. E a Rainha de Copas que mo diga? Achas que estou a fazer bluff, mãe? Deixaste bem claro que nunca ninguém me vai amar. Porque não torná-lo oficial? Afinal, o que melhor aprendi contigo... é que o amor é uma fraqueza. Corte. Treze são três.

Rapariga estúpida! Achas mesmo que vais ficar mais forte ao magoares-te? Sim, se souber que te vai magoar mais a ti! Be…

III. A Biblioteca de Babel

Da janela, o crepúsculo. Do espelho, a reduplicação da biblioteca. Já o encontraram? Eu ajudei-o, ele disse-me que o final tinha sido reescrito. Que para o evitar eu tinha de o ajudar. Mas era tudo mentira. Despertou a escuridão e agora o meu sangue é a ameaça das histórias.

Entra o rapaz com quem pintaram. Era o alfarrabista. Não sei como vim aqui parar. A realidade anterior assusta-me. Não te preocupes, ele ainda não tem a tinta. Pessoal... enquanto vosso amigo, eu peço-vos... dêem-me um fim.

O alfarrabista muda de tom. Estas estantes guardam cada uma realidades cristalinas intermináveis. Que escuridão. Queixam-se os outros. É finalmente claro que não nos dividimos entre vida e morte, mas existência e ausência. Vocês adormeceram em busca de uma história sem a terminar. Cada livro é uma tentativa. E agora vamos reescrevê-los como devem ser. Apontou para o outro: Tinta.

Um livro que pode transcrever eventos que ainda não aconteceram. Um livro que pode conjurar mundos novos. O cenário …

V. O Retrato do Artista

O céu era o canvas plano. Sem hierarquias, apenas o reflexo da plena simplicidade. Quando descobrimos a profundeza do céu é que descobrimos a sua hierarquia. A uns promete-se um fim, a outros outro. Parecem depender, esses fins, de escolhas na vida. Mas o código é irreconciliável. Não parece existir uma lógica.

Cemitério de chaves. Entra o alfarrabista. Eu estive nas outras dimensões e já sei tudo. Para quê? Já deves saber que a luz está presa no disco. Que nenhuma história assim terá um final decente. Foi o coração que foi distorcido pela ligação. Foi um acidente. A luz e a escuridão dividiram-se entre nós. Fiz o que achei melhor e exilei-o do universo, no sono.

Não era justo mantê-lo com a pessoa que causou tudo isto. Reescrevi o livro treze vezes e deixei-o sempre de fora. Mas há fantasmas psicológicos. Há algo de contaminante e contaminado em todas as histórias. O diametralmente oposto a um pântano. Luminoso. Agora a escuridão que vaporiza espalha-se pelas treze dimensões. Tem de …

VII. O Estrangeiro

A maré não se mexe nesta praia. Há uma silhueta negra deitada na areia e alguém a aproximar-se. Quem és? Não é normal ter visitas. Estás sozinho?

É a segunda vez que aqui chego sem ir. De mim, não sei quem nem quando. Foi-se tudo nas marés que me trouxeram e entretanto pararam. Não sei como sair. E queres sair? Eu prometi aos meus amigos. 

Pontos luminosos. Na pouca memória que tenho fazes-me lembrar um rapaz que visitava e distribuia luminosidade com um sorriso. Tudo parecia a salvo. O que é que aconteceu às dimensões? Nós desenhámos um mapa para um lugar melhor.

Estilhaçaram-se sete vezes entretanto. Algumas mantêm-se de pé. Há um elemento constante, uma aura ou sopro transcendental. Como se as dimensões respirassem. Para tantos mundos existe um só céu. Um só céu e um só destino. 

Não sei quantas vezes vivi o fim da história e fui até aqui carregado pelas correntes. Não sei de mais ninguém. Lembro-me de ter vendido um livro. Esse rapaz... a sua aura era obscura por dentro e lumino…

XIII. O Tempo e as Dunas

Corações escondidos. O filtro é escuro nesta dimensão. É a escuridão que me dá controlo aqui. Os músculos e tendões que uma vez te obedeceram rebelam-se. O puro facto de aqui estares só confunde a mente.

O meu coração é meu. Achas que podes chegar e conquistar? Isso não vai acontecer. Veni, vide, vici. Não vais conseguir fugir. No final, o teu coração vai ser engolido pelo meu. Para sempre. Não, eu vou dizer-te onde fica a saída.

Tu nem dominas a tua escuridão, que sangras das feridas que não sabes ter. Como podes pensar triunfar? Vais descobrir em breve. Não me digas que há mais alguém aqui? És traiçoeiro. Aprendi com o melhor.
"Eu não posso ser objecto imediato do conhecimento, porque se fosse conhecível a nossa alma, requerer-se-ia uma alma segunda para conhecer a primeira e uma terceira para conhecer a segunda."
- Paul Deussen Não tenho medo do escuro, podes controlar o corpo, podes atirar-me ao abismo. Nunca vou largar o que é meu.

Palavras caras para quem não tem faca …

IV. Mnemosine

O Labirinto do País das Maravilhas é impressionante. Não entendo o código. dizes que amas, és o Inverno. Um dia cá, outro lá. Um dia preocupas-te... que jogo injusto. "Bebe-me" diz o frasco, antes que a corrida acabe. Santo Graal. 

Era uma vez um rei que reescreveu a sua história. Reescreveu-a com tudo o que desejava. Pelo menos, assim pensava.

Um dia, o rei apercebe-se que a vingança não bastava. Desesperou. Sentia-se só. Passou os anos à procura de amor e encontrou. Mas apesar de viverem juntos, não acreditava num para sempre. O ar é exactamente o mesmo que respiro. Tu, sejas tu quem fores ou o que fores, ainda aqui estás.
"O porvir é inevitável, preciso, mas pode não acontecer. Deus está à espreita nos intervalos"
- Jorge Luís Borges
"Deus morreu e fomos nós que o matámos."
- Friedrich Nietzsche Mantinha-se a neblina que o supervisiona. Preocupava-se com os Diamantes Unidos do Caos. Defendia-os, mas nenhum era real. Era preciso esquecer a condição fi…

I. À Distância da Queda de um Sonho

"A história universal é um infinito livro sagrado que todos os homens escrevem e lêem e tentam compreender, e livro este em que também são escritos."
- Thomas Carlyle Estas ruas não são de ouro porque as memórias não se forjam.

De manhã, com o sol a entrar pelo quarto, levantou-se sem saber onde estava. Olhou pela janela e viu o recorte horizontal de uma cidade. Consegui, venci. Saiu e pelas ruas observou a sua obra mais impressionante. É uma realidade tão cristalina como a outra. Bom dia, senhor presidente, está um belo dia. Disse o psicólogo. Está sim, sorriu.

Personalidades são personagens. Noutro dia, pelo cemitério perguntou. Recorda-me, há quanto tempo és coveiro? Desde que me lembro. Anda. Caminharam juntos até ao hospital. Conheces este homem? Silêncio. Não, porquê? Quem é? Encontrámo-lo assim, é um John Doe. Pode ser que o procurem. Pode ser que o amor o encontre. Eu não contaria com isso.

Outro dia. Olhou pela janela. Passou pelo cemitério e pelo hospital. Nenhum d…

II. Disco Externo

Uma mão sai do ecrã para se cravar no teu peito. Já não há tempo: esta dor é composta de apertos emocionais. Aquilo não é o físico-coração que bombeia o sangue, mas o núcleo de todas as tuas emoções. Um órgão não-físico que se força afora do corpo. Uma ânsia por não te teres desviado a tempo.

Passam duas chaves a sobrevoar e reluzir na tua direcção, uma roxa, outra verde. Ouves um estalar de dedos e as chaves explodem num fogo-de-artifício. Algo te diz, de mão cravada no coração, que eram almas que rebentavam. Estás espantado, mas não tens coração... emocional... para o sentir. Tirem as mãos do meu receptáculo, o anterior resistiu à escuridão. 

"Duas pessoas esperam na rua um acontecimento e a aparição dos principais actores. O acontecimento já está a ocorrer e elas são os actores" Nathaniel Hawthorne
O meu objectivo é espremer a tinta do coração. Desse que emana escuridão e mantém luz própria. O teu sangue é tinta para reescrever aquele livro. De seguida vou dividir uma di…

0. Blackout

À beira mar, um jovem de olhos dourados e cabelo esbranquiçado. O mundo é demasiado pequeno. Este corpo tece as escalas do que é menor ou maior. As dimensões, as proporções e as equações fascinaram o tamanho do mundo. Mas há tanto mais perdido no vácuo do mundo que no corpo.

Ao lado um saco com um corpo. Existem vários mundos, um deles terá esse vácuo e lá um corpo sem alma como o teu poderá ter uma casa. Uma plenitude poética com o cenário: serás o protagonista do teu próprio poema-aquário. Uma silhueta sufocada pelo seu contorno.

És um prisioneiro hipócrita, pensas ser prisioneiro do teu corpo-jaula sem o ser. Temes o escuro, mas dormes tão sossegado. A luz cega e amplia a nossa escuridão. Acredita no teu próprio equilíbrio e luta para que não seja corrompido.

As chaves servem para abrir portas. Existem chaves para todos os mundos. Eventualmente vou poder dourar-te um trilho de luz alheia, salvar um amigo como nos salvámos a nós mesmos. Mas o amor, a sua fusão do coração, requer mai…

-1. Heróis e Vilões

"Ver para crer", São Tomé. Eu vi mas não acreditei.

Posto isto, imagina agora um prado de livros. Sim, folhas verdes, mas florescem códexes. A estes são chamados "finais felizes" e deles o vento arrasta sementes, pequenos caracteres negros, de uns para os outros. O vento carrega a tinta para as cores das flores e salpica aguarelas reluzentes. Sabem-no as bolhas de sabão, os sonhos ensimesmados, as águas de artifício, a alucinação.

Dantes esta terra estava privada de luz. São os teus olhos que nada vêem que a vêem de outra forma. Este jardim evita a contaminação do puro possível no real plausível. Aqui não estão em jogo noções éticas. A balança é imperturbável entre luz, escuridão e aquilo que delas decorre. Aqui o que está em jogo é a própria existência, o traço ou a borracha que não corrige mas censura.

Ao longe, como que num quadro de Ruisdael, uma montanha à luz ponderada da trovoada. Nela esconde-se uma maldição. Quando vês o teu reflexo na água que bebes, ouve…

-2. Simpatia pelo Diabo

Era uma vez... dizer era uma vez é tendencioso, quando não falamos de princípios nem de unidade. Eu não o faria, a minha tinta não come aquários nem dragões, apenas os injecta nessa cabecinha. A não ser que eu mande.

É caso de apresentações: nenhum assassino é inato como eu. Tenho tanta sede de cravar mãos em peitos e esmagar, tanta fome de veneno nos outros. O meu esgar é dourado como o vácuo do precioso [Apolo é pura aparência]. Eu nunca gritei pela honestidade, mas sondei a alma [Dionísio é maldade]. Os anti-depressivos só empurram o óbvio e mantêm o coração enjaulado no trauma. A única coisa que me sacia hoje é a tinta. Negra, parasitária do tom do meu cabelo que esbranquiça lentamente.

Tenho prazer em ter perfídia no nome e deixar o puzzle em aberto. Aterrorizar com palavras, prometer mortes aos planos menos patriotas. Nunca me faltou riqueza nem beleza, mas ó... porque é que subestimam sempre uma pessoa que se decora a diamantes e peles? As lágrimas caem tão depressa que nenhuma…

Forze dell'Oscurita

partir sete asas ao cair do céu
questionar o ludibrio é não ter infância
reviver, relembrar, recordar...
há sempre sombras nos recantos,
periferias horizontadas do negro sombrio
esquecer um cumprimento, cumprir um esquecimento
mas não há salvação para os condenados
descansar em paz pede que chapinhemos no lodo sombrio
cada sesta foi um sorriso aterrador do infante não-morto
pálido e logo coberto do negro, cara bipolar,
o fogo da cara pode congelar.
a seguir a perfídia, crueldade é a minha palavra preferida.

Mundo Cruel.

eu nunca vou voltar para onde comecei...

à toxicodependência por corpos cósmicos caídos nos cruzamentos de cemitérios
fronteiras da vida e tubos de ensaio de onde só brotaram pistolas, nunca rosas
festas sob chuvas de raios de sol, à diversão em piscinas venosas
loucura de tons que se entreteciam e nos entretiam nas nossas teias suburbanas
cometas esbarrados em paredes de lítio, estilhaços de espelhos inversos
nem ervas daninhas em prados litigiosos, confusos, cristalizam palmeiras
a medos da solidão na companhia de solilóquio e de palavras caras que repulsam amor
à sorte sem transgressão, paixão sem sufoco, essas bíblias de promessas infantis

talvez seja melhor do que atribuir culpa às idade americana e ao bourbon
estava satisfeito com a vida até receber notícias. não gosto de ser arrastado em ilusões
e esta desilusão de final feliz de que me falaste... eu duvido que ma consigas dar

eu nunca vou voltar para onde comecei.
e se um dia o virtual desabar sobre nós?

Lilith.

o céu é lilás, não há melhor altura para dormir.

uma pistola atira-se a si mesma e é homicidio.
o coração é um gatilho que espera outro para pulsar,
línguas dançam num combate em solo abandonado,
podem ser floretes que degolam pescoços,
e as mãos resultam mar vermelho.

o mal olha-nos nos olhos, sem silhueta nem horizonte,
éramos um corpo, acendemos os nossos cigarros,
acendemos fogos nas nossas mentes.

repito para mim mesmo que tenho a mente feita,
mesmo que tenha a ideia-tu por disparar corpo-fora,
o coração é território de tatuagens cicatrizadas a cuspo e heroína.
as linhas brancas na cozinha não fizeram bolos,
agora a alma de cocaína é a de um só.
a mescalina faz as coisas grandes e pequenas como o coração a bater.

alado, o coração não voa em céu nenhum.

rant #givethemdarkness

meus queridos, nós já não precisamos de arrependimento. só de pisar o chão e olhá-lo de cima, nos resquícios da dignidade. ter um final feliz é a grande mitificação. não há karma nem cruzamentos que separem os vários tons da moral. não há amparo para os amaldiçoados, o jogo está viciado. o tabuleiro é o maior toxicodependente de todos, nas suas escolhas ao deus dará. de pequenos contam-nos as historiazinhas que moldam o fora por dentro, reprovas, aprovas, chega o sentido moral, e não será esse o grande anormal? todas as histórias definham na mazela da mentira, construções, metáforas e alegorias. sem efeito. sem efeito. sem efeito. riscam-se as respostas, procuram-se novas perguntas, ultrapassam-se os suspiros incrédulos. esse deus, que deus?, diz que diz?, faz não-faz? há demasiado que oiço recorrer outro mito de condescendência moral: se deus existir, não permite, e recorre há demasiado tempo, há burros velhos demais para aprender línguas. e se as prendêssemos umas às outras, seria a…

abraça(-)o mal

sentimos leves feridas do vento quando não sorrimos de lado, que podem ser tão temíveis quanto amáveis. podem ser amigáveis e mesmo selvagens. criticamos, não praticamos o mal, apontamos, destrinçamos e desvelamos apocalipses. descobrimos encobertos. criticamos sem o saber, não somos nós a processar de A a B, mas o B a reverter A, qual alpha original para um beta ulterior. o amor é uma luta tão fácil, mas a guerra fria que o envolve é tão mais cativante. devém o jogador jogo, transforma-se a coisa amada no amador. não é ruína que arruína, mas rui por si só. é desmontada pelo imberbe que chuta pedras ao horizonte, desfazendo-se a si enquanto horizonte. nunca somos jovens o suficiente, nem é a idade que nos diz que não nos devemos apaixonar de baixo para cima. não é justo, não é certo, gasta as caras, deixa os livros desequilibrar-se, os pratos caem ao chão e a literatura é de todos. eu cá, gosto da charada da esfinge, danço por entre espelhismos, adoro como o diabo se reporta a mim com…

e(c)lipse

as cores trocam-se enquanto não olhamos. cada piscar de olhos é um baralhar de cartas que se propõe à confusão. nós mantemos os códigos, diálogos e estereótipos semiótico-simbólicos das coisas, mas elas dão esse salto mortal-pirueta-encarpado pelo simples motivo de nos enlouquecer e causar discórdia. mantém-se uma só: a transparência das poças do chão e das bolhas de sabão, das pingas no ar e do próprio ar a rodear. reflexo ou aparência vazia, promete um outro algo para além de si. se não é cor, o que é? se um nome for cor, que falta de condignidade é ter uma linguagem? institui-se o intermédio da cor que é o não-ser, que é o estar para lá a mais do estar lá que a preside. essa transparência preenche-se da promessa da outra cor e essa outra cor, traidora, violadora de princípios lógicos, salta de ramo em ramo e engana pássaros. olho para ali e na distância há aquilo, no meio nada, mas há aquilo ali. todas as promessas são embustes, fastídios propositados por uma cósmica que ultrapassa…

Icarus

não rasgues o céu,
podes magoá-lo
e ele só reflecte emoções
onde injectas acepções.
não rasgues o céu,
há um zénite qualquer
em que distingues
a ficção da luz.
não rasgues o céu,
que te exuma,
que te consuma,
como fogo de artifício.

não voes demasiado alto,
as tuas asas podem derreter,
és demasiado
para ser verdade.

paráfrase coração elástico

quem lhe dera ter no corpo um coração elástico
foi tortura esticá-lo sem que se esticasse
desenterra castelo de cristal, não o queiras enterrar
dar vida por jaula, não nascer para se deitar
meandros do veneno da escrita, cemitérios por assassinar
flores em campos de guerra, inexistem onde nada sobrou
luz do luar, natureza morta na areia.
sol da terra, brilha diamante sobre o mar.
nada é perfeito, nunca se vai realizar.
olha os soldados, olha as algemas.
que fique claro, não vou fechar os olhos.
e eu quero, eu quero tanto a minha vida.

mosaicos de Borges

Deus está à espreita nos intervalos. Per speculum in aenigmate, diz S. Paulo, vemos todas as coisas ao contrário, então nós estamos no céu e Deus sofre na terra. o terror do Inferno é a sua irrealidade; todas as criaturas, incluindo o Diabo, regressarão a Deus. a democracia é o desespero de não achar heróis que nos dirijam. ninguém se apaga no nirvana porque a extinção de inúmeros seres no nirvana é como a desaparição de uma fantasmagoria que um bruxo numa encruzilhada cria por artes mágicas, e noutro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade, mero nome, e até o livro que o declara e o homem que o lê. eu não fui essas pessoas; isso, quando muito, foi o disfarce que vesti e que deitei fora.
o planeta foi criado há poucos minutos, e povoado de uma humanidade que «recorda» um passado ilusório. quem me ouvir assegurar que este gato que está ali a brincar é o mesmo que brincava e fazia travessuras nesse lugar há trezentos anos pensará de mim o que quiser, mas a loucura mais es…

longa vida a um vilão

viciado que nem o ralo por onde escorremos viciosos, o jogo dos vícios serve tanto e serve-me de tão pouco. apontam por mim, enquanto me deixo reinar, manter uma coroa por tão só ignorar. era suposto teres voltado quando eu te chamei. sabes bem quem eu sou, era suposto voltar tudo ao normal. quero o meu poder e o meu castelo de volta. o que é que tu queres ouvir? que tinhas razão e que nunca me vão amar? tão triste quanto verdade. vingança. perseguem a cultura mas são cegos às vanguardas. uma fala de lado nos meandros do miasma, outra fala alto conforme proporções corpóreas e aqueloutro por trás, só lhe aquece a retaguarda.

caríssimos, o rei morreu. longa vida a um vilão.

rant #a(r)(c)tual

eu acho (quão kantiano) que os limites da arte são os precisos borrões entre forma e conteúdo que nos afectam. que deixamos de ver na pura forma a forma que é pura para se deixar contaminar de um conteúdo incerto, transversal ao pensamento vigente ou ao artista que pinta, qual influxo auto-biográfico in ars, e esse conteúdo extravasa e contamina a forma. picasso na verdade pouco passa de rabiscos a que chamámos impacto, e dada elevou as decorativas sanitárias invertidas (quais anticrísticas) à forma artística. que mais? os limites (formaconteúdo) são o isco para os nossos dois peixolhos no marseu, não expressos transtornam a experiência da arte numa experiência da alucinação, num entrar em obra, como se passeássemos ao luar da noite estrelada de van gogh por momentos, reduzindo o nosso mundo às formas, um como-se do mundo na arte. mas não deixa de agir por pôr em diferença: o como se é comparativo, entre a forma da arte e a forma da actualidade, onde o conteúdo preenche a lacuna e tra…

(ar)ruína

verte a tinta da pena para o copo meio vazio,
 versos que foram feitos para se partir
 reversos da escrita, a simples mentira de viver,
 segundo a qual passas a crer
 amarrado da vida à arte, qual rasto de humanidade
 não reduzas nem sublimes uma à outra
 todas as hipnoses são iguais.
 tatuar pecados um no outro
 meios de um fim ainda por recomeçar.
 viver-arte. respirar-te.
 o amor mancha a pureza com palavras,
 mostra-me a ruína por detrás das rosas, 
não escrevas a sangue os teus medos, deixa-me sará-los. 
cravos em pistolas disparadas à liberdade.
 sou uma ruína e vou arruinar-te.
 não vou negar a visita às ruínas deixadas em mim.
 dá-me a mão ao pôr-do-sol.
 vamos desbravar cemitérios de chaves,
 dançar em volta daquelas que falharam a abrir corações.

"sunrise angel page unavailable"

tomara que ideias fossem comprimidos, mas são pontos. cicatrizam feridas, deixam um fio de fora. começas a puxar e a puxar, vês a cicatriz vomitar sangue, como os olhos às lágrimas. intermináveis pontes entre génese e a concretização que as finda. êxtase é o entretém. eriges guilhotinas para decapitar o fim, para que não ressurjam, sem sucesso. pensar, efectivar, olvidar, onde olvidar é deixar cair no emaranhado de tecidos cutâneos da vida. tão profundo quanto denso, nada elástico, sempre extenso pôr-depois-do-fim. enterras os restos, os feitos. montas cavalos alados e corneados mas sais do cemitério pé ante pé. chaves são ideias para corações sem contraste. cabisbaixo mentecapto, o crepúsculo é a aurora em marcha-atrás.

kilos.

cristalizámos diamantes para tornar sonhos carvão. disparámos foguetes para caírem nuvens de granizo. estilhaçam-se luzes como espelhos. puxo uma cadeira, deito-te na mesa, rebolas para o chão. corri mas não fugi, tropecei a cada golpada nas pernas. tossíamos desespero, agarraram-te o cabelo. linhas brancas / negras tatuagens. brota sangue, desabrocham poças de lágrimas. caem as estrelas quais vitrais da noite, estico a mão e corto-me sem te agarrar. o espelho que rompes sou eu. pó recortado no vidro partido, chão de um, pão de muitos, sonhos nossos. amar é grátis sem reembolso. tens os comprimidos que preciso, ignora deus, tabaco, cheiro, absinto, nada me leva à alma. não censures a espera. só o absinto não quebra ciclos.