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A maldição.

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Cada peça ficou onde caiu. Deixei os fios da discussão de vidas passadas suspensos, como um puzzle que ficou por completar. Mas uma fagulha do motor do avião bastou e peguei-lhes fogo quando comprava uma harpa. Saltei da frigideira para uma piscina de licor.

As regras de que todos os sonhos escapam. Um a um ilumino os tijolos dourados, que são dourados porque assim os pintaram. Os tijolos de uma história são o suposto para o absurdo, o como deve ser da pobreza de espírito de lentes desfocadas, para quem os caminhos bordados a ouro são falsas pretensões. E o absurdo é a lei do momento que leva terminar uma vida como se bate a cinza de um cigarro.

Pode ser que o caminho se desenhe em erros. Porquê o pânico face aos caminhos bifurcados se já estão pavimentados e é seguir? Não será difícil averiguar que Oz não é algures sobre o arco-íris, mas aquele caminho banhado a luz verde que por ali vês? Por vezes os focos de luz verde no céu podem estar certos e talvez tenhamos sido nós a errar por p…

A balada do Caos

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Resultas do cruzamento de dimensões e poeiras
És privilegiado por respirar
Não vês os rios de ouro escorrer?
E as pirâmides doidas que fizémos ao passado?

Como podes entender?
Como podes aceitar?
Como não dramatizar?
Quanto medo tens de reprimir para dar um passo?
E com quanta ansiedade lidas
Quando estás prestes a ser alguma coisa?

Custa ser por se acreditar num protocolo
"Se agora sou isto devo sê-lo e a isso apenas"
Esse é o teu tiro no pé
Vendem-te os sonhos a preço da alma
33 gramas numa nota, heh, e nem uma linha para cheirar

Custam-te os jardins de caminhos bifurcados
A possibilidade face à sensibilidade
A eternidade face ao tempo
E vives como uma estátua prestes a desabar
Sem certezas dos folículos que te fazem

Todas as mortes que planeaste,
Os suicídios ao juízo,
Tudo o que podia ser mas ia deixar de o poder
Vives tudo como se a Fortuna existisse mesmo
Todo preocupado com o karma
E todas as vidas dos outros (que consideras "simulação")
E com "como dev…

O caos, a ordem e o tempo

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Eu tive a memória de um futuro perdido, em que o sol se punha sem raios, o céu era cinzento e no vento se sentia o odor a cripta. A respiração ansiosa não descansa, receia vê-lo concretizar-se.

Quem lida com o tempo descobre logo um paradoxo eterno: os momentos nascem sabendo que vão morrer antes de se sentirem vivos. O seu único propósito é o de morrer e tornar a morrer para se substituir por uma versão desprovida de memória. Sempre que se aceita a sensação de um momento, vende-se a sensação do anterior e da sua alternativa. Ironicamente, só quem renuncia ao tempo (à sua contagem ou organização) o pode apreender realmente.

O tempo pode sentir-se de dois modos. Do modo que é contado pelos vencedores, que se aliam e auto-nomeiam de heróis debaixo da asa da deusa Ordem, que generaliza, faz estereótipos, calcula médias, modas e medianas e ensina à sociedade como se deve viver. Ou, de outro modo, o tempo pode ser sentido tal e como é, na mais pura autenticidade do mundo a que subjaz e, ne…

Fama Engarrafada

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"Toma só mais um golo, prometo que está quase a acabar". O problema da fama engarrafada é que só quando consumida é que faz ver o que traz no fundo. É outra deusa voraz, presa à vaidosa ideia romântica da mulher demoníaca. E nada mais a prende. Não é bem ou mal, é para além da moral. Ver julgamentos apenas no beijo da despedida: o que é eternamente trocado com a terra e os vermes. Mas é apreciadora dos esforços que são feitos por ela. De cada intento suicida em consumir a sua poção.

Em teoria, a fama engarrafada actua lentamente no corpo, pode paralisar ou fazer esquecer motivos, criar uma dor tão grande que distrai dos objectivos ou incapacitar, dê por onde der. E há um carrasco que ta dá de beber, trago a trago, cálice a cálice. Ele olha-te nos olhos e faz esquecer a luz verde. Deixa-te apenas a nadar no teu medo do desconhecido. E obriga-te a beber da mais violenta forma. Antes que possas contestar, já a estás a provar.

Ouves os iniciados brindar saúde à tua volta, enquan…

O roubo de Calypso

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cortinas de fumo negro
do barco que acabei de derrubar
não permitem ver além do trono
a aridez de sucessivos desertos
secou o soro ocular
astrolábio e quadrante mostram que as estrelas existem
de que valem quando o coração as não sente
antes salta as batidas
e o ritmo fica estranho
a respiração carrega a preocupação
às costas como uma pesada âncora a puxar
o sufoco engasga e não desaparece
rezo a Calypso
que me devolva o oceano aos olhos
esse amor abandonado e abandonante
que nos mares que me levou
navega triunfante
e as velas não sentem o vento
param
mas as paisagens passam e os continentes também
e o barco parado no mar despejado
os marinheiros ao convés desatinados
ofegantes
vislumbrados pela morte no fundo
onde os mortos já não mentem
içam bandeiras de socorro
que ardem junto com as outras
tomam a tonalidade negra quando sobem mastro
esvaem-se em fumos
nem se sabe que dantes havia mar aqui
ela lá vai
ao longe flutua
ergue-se para ser vista
sem nos ver
e com a miragem a melodia
e c…

Magia Verde

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A beleza da vida está no desapontamento. Está lá quando a cor do mar é mais verde que o azul que lhe chamamos, deste lado dos olhos verdes. A questão que marca as minhas entranhas a ferro nunca foi outra: como é que se cria uma ilusão? E o problema estava na perenidade do sentido, do sentir e do que sente:

"A realidade é só uma ilusão muito persistente", Albert Einstein.

As luzes que vemos parecem ter pesos. As auras de uns e outros, tão amenas e tão quentes, mas os cabos dos feitiços, que se lançam pelas palavras, as frias maldições que tanto adorei confabular. E o mais irrisório no cair dos peões em cada buraco que abriam sob si mesmos. Mesmo quando me ergui acima da altura e me chamei de narrador, em resposta a acusações de manipulação. Olha lá o que me fizeste fazer: cumprir as profecias que se foram com o vento e o meu olvido de mim mesmo.

Essas profecias eram lágrimas a cair na chuva. Que culpa tenho que lhes tenhas jogado gasolina?

Então, agora aceito que nada se fixo…

Flores do Nada

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Permite-me uma questão. Se aceitas a escuridão, mas preferes viver na luz, porque negas os habitantes que oscilam na berma do nada?  Os que foram menosprezados por ambas luz e escuridão, sem poder escolher? Nós não podemos sentir o sofrimento. Não importa que miséria sucumbe os mundos, o que pensam, o que sentem ou como existem... 
Em tempos que já lá vão, e havia orgulho em ouvir-se cristão, a minha musa Vénus perdeu os braços. E às suas bênçãos mundanas e utilidades Tirésias traçou mapa em braille. Cheguei à Babilónia em busca de uma bicicleta, pegaram no meu carro e jogaram-no encosta abaixo. "Desliza por pedradas firmes o rochedo" para cair do outro lado do rio, onde as bandeiras são bravas e sensatos os homens que as consideram.

Contei treze praias até me poder sentar. Até o mar reflectir a luz da lua e não estar dividido em dúvidas. Não posso banhar em águas que não sei se existem, mas posso agarrar-me a estrelas cadentes, cujo rasto é um autêntico torreão de luz físi…

E o riso do Cisne?

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Aguarda-se com celebração o dia do fechar das cortinas que são as pálpebras.
Ninguém o pondera mas é uma âncora a pedir mais atenção
- como uma criança chata no super-mercado.
E corre o mito ou a pura mentira do canto do cisne:
que é antes de morrer que o cisne solta a sua melhor composição.
Se aqueles latidos e bramidos e espremer do corpo para bater asas,
esse espectáculo hediondo, se é visto como modo belo da morte,
admita-se que morrer num leito, deitado e sem margem de manobra
é preferencial à raça humana.
Que fariam estes símios para se compararem a cisnes,
etiquetados de belos, sublimes ou artísticos?

Mais que cantar em prantos de dor
(e a estranha correspondência com os gritos do parto)
o cisne deve rir-se, concluído o macabro.

O sorriso está debaixo das peles e músculos da nossa fronte,
prestes a sair apesar de contrariado pelos funestos.
Alegra-te, carpideira, que a tua caveira nunca parou de sorrir
e se a pele é invólucro, o riso é condição da autenticidade.
Enquanto progri…

Os blues da Bandeira Morta

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A minha geração tem a estranha tendência para se pensar numa história. Parece que o que está entre nascer e morrer foi designado como sequência de si mesmo. Para além da sua construção sintáctica da vida (antes/durante/depois) ainda se medem as sensações com uma escala como a de Richter. Cada evento, cada acção tomada ou a espera por efectuar outra, é medido em termos de magnitude e posteriormente posto em perspectiva em correntes de comparações. Durante aquele momento senti com determinada intensidade que só tornei a sentir uns trinta anos depois, diz-se de um momento importante, profundamente sentido e de outro aparentemente similar.

Deste lado. Acredito que só existem repetições na nossa relação com o místico ou o esotérico. A relação religiosa funda-se sobre a repetição de ritos, ao ponto de muitas religiões optarem pela repetição obstinada de orações que faz os actos linguísticos perder a intensidade da sua intenção e a profundidade do que significam. Não obstante, a relação reli…

O Necromante

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Um mago pirata que lida com os mortos do fundo do mar contou-me que o langor é a delimitação do tempo de espera pela nova sensação de um objecto de nostalgia. Era magro, um saco vazio cheio de ossos. Contei-lhe que os vivos chamam à paixão um fogo que consome por dentro, talvez por associação dos tempos de espera. Discutimos se o langor seria a duração desde esse incêndio ao seu vapor.

Pescar um morto implica tornar a sentir sensações associadas a uma cara. Faz-se assim. Lançou a enxada escarlate à fátua água turquesa e puxou de um crânio. Sensações de um envenenamento interior, um peso que sua de dentro. E os mais mal mortos nunca cessam de cheirar a si.

Os amantes consomem-se, como o fogo, mas só alguns mortos são consumidos pelo fogo. Só os que não ardem se podem repescar. Será a purificação purgatorial em vida esse incêndio interno, do peso do karma? A torre de colageno que não cai quando lhe atiram uma caveira componente que estruturava a sua base?



A Harpa, o Fogo e a Esmeralda

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"Que lindo é o incêndio visto por uma esmeralda", Nero, enquanto voam fagulhas que cheiram a cadáveres, como passeiam os dedilhados pela harpa. Pelo chão, os corpos esturricados são provas de um crime extremado. "O fogo nunca é deixado ao destino, ele mancha no mundo o acaso".

Neste mundo de queimados e ateadores, quem é que pode pegar no códex e alegar-se moralmente superior? Quando todos nós jogámos fósforos em busca do domínio da vida alheia? Quando aqueles pobres não são mais desesperados que estes desesperantes, que se pensam ricos?

Neste mundo vestem-se as sombras como véus, como cerejas no topo de bolos, por cima dos corpos e nunca por debaixo do sol; neste mundo em que a sombra é um chapéu, quem é tem o delírio de calçar saltos e considerar o certo e o errado? Quem é que pode ver de cima o que o fogo domina? (E que alta tem de ser a torre).

Se podemos admitir que há uma jóia em cada um de nós, constantemente lacerada e lentamente transformada quer pela eros…

Responsabilidade

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escorrem pelas montanhas douradas
esmeraldas choradas pelo corpo
esculpido agora e bordado
- de riqueza e prazer.

será que já nos perdemos o suficiente
para ser indistinto
o que nos fizeram do que nos fizémos?
que jóias são estas
e de quem é aquele sangue?
como passa depressa a noite,
a enrolar mais uma mortalha.

as cartas pintam-me as rosas de vermelho
e as maravilhas revelam dúvidas lógicas.
espera até que anunciem o teu nome.
da lua escorre o suor de nos ver falhar,
o sol ilumina a medo o nosso percurso,
(a tapar os olhos, querendo ver o terror)
e os candeeiros são os meus melhores amigos,
quantas vezes não os abracei,
para não terminar a noite
a trocar saliva com o alcatrão?

e monto o trono a fósforos no palácio
projectado nas ruínas dos nossos sonhos.
prestes a ti, prestes à fagulha,
esse pecado original,
que foi dançar na minha tempestade,
a que alumies o nosso equinócio.

então aí tens:
a jogar à macaca em volta das nossas mentiras,
eu posso não ser o melhor mas dou conta de ti.


La Chute

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ou tudo o que temos.

ninguém se questiona a respeito da face que fica virada para baixo de um dado que cai. nem tem de se preocupar: apesar de ser a face que segura contra o solo todo o resto do corpo do dado, o propósito de um dado esgota-se na face que fica virada para cima. serve para o que serve. esta face de cima é normalmente notada com números de um a seis. os jogos só avançam e os factos só se concretizam com a queda, a conta e os passos. um objecto tem-se a si mas o que é se não existirem acidentes? melhor, de que serve?

um dado parado aponta sempre o mesmo número, permite avançar o mesmo e pré-determinado número de casas. talvez seja o caso: ver-se no dado um objecto estético da contemplação, armazená-lo numa estante e ignorar o que mais pode dele surgir: ganha musgo.

o problema é a queda e é a ideia de acidente que vêm juntas. são acidentes de densidades aéreas imperscrutáveis que fazem o dado girar durante a queda. o jogo só avança, e com ele os factos que só se dão, com …

I sing the body electric I+IX

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I
Eu encanto o corpo eléctrico,
Os exércitos dos que amo engendram-me e eu engendro-os,
Eles não me vão deixar até que deixe com eles, lhes responda,
E discorrompa, e carregue com eles à carga da alma.

Era dúbio que os que corrompem o corpo se escondem?
E se esses que maculam os vivos são como os que maculam os mortos?
E se o corpo não faz tanto quanto a alma?
E se o corpo não é a alma, o que é a alma?

IX
Ó meu corpo! Não me atrevo a abandonar o teu género noutros homens e mulheres, nem
[os géneros das partes de ti, Acredito que o teu género é levantar ou cair com o género da alma, (e que isso é a alma,)
Acredito que o teu género se vai levantar ou cair com os meus poemas, e que esses
[são meus poemas, Poemas dos homens, das mulheres, dos jovens, das esposas, dos maridos, das mães, dos pais,
[do rapaz, da rapariga, Cabeça, pescoço, cabelo, lábios, dentes, céu da boca, gengivas e dobradiças,
Nariz, narinas do nariz e a partição,
Bochechas, têmporas, testam queixo, garganta, trás do pes…

Melo

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L'art, mes enfants, c'est d'etre absolument soi-même
Verlaine

e o terror, e o horror,
e a glória, e a dor,
e o drama, a merda do melodrama

se só se é arte quando se é autenticamente
e se o sonho é elevador para os submersos
se se respira diferente a cada hora do dia
e a repetição é utopia destinada ao falhanço

a melodia que me guia e engole como enguia
que me choca e desloca no maremoto
da tempestade que prendeu a barcarola
engulo-a a tragos nos absintos consequentes
- no fundo, no fim, no resto - inconsequentes

desliga-se a vida da tomada
empurra-se à tomada a onda
as nossas regras e sonhos
o chão é eléctrico e a dança ecléctica
o episcopal tornou-se banal
e os sonhos do céu viraram infernais

e o horror, e o terror
a dor e a glória,
o melodrama e a merda do drama.



Sob um Paúl

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o inóspito frio desta vizinhança entre o mar e o vício trouxe-me a um pequeno bebedouro entroncado no recanto do bosque. dele não podia beber de outra forma se não a animalesca curvatura sobre meu próprio corpo para poder sequer ver a ínfima água que a sede suplicava. e a sede, e a sede e a sede, a sede fazia perder de vista tudo o que envolvia revolvendo. a pequena porção de água estagnada e suja revelou-se um conjunto de aguarelas vivas, que pulavam e salpicavam, tingiam e contagiavam. e a sede, e a sede e a sede, a beber, a beber e a beber. todas as cores estilhaçadas por este vitral aquático, tão mais sujo da terra que do que quer que em seu torno existisse. as árvores reluziam nela um verde macabro, desvendei por meio os tons esmeraldas do meu próprio mar. mergulhei e depois saltei, as algas entrelaçaram-me e comprimiram-me os pulmões que se começavam a inundar. talvez fosse apenas o antro de Anto e se a solidão me tivesse visto sonhar, talvez me garantisse uma mão a dar, uma ânc…

Zoroastro.

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Destati!
Sai da caverna antes do tempo para as estrelas da madrugada.
São como pirilampos, são como tudo o que há.
Tendi ta mano! Conhece a luz e o calor do sol, conhece o dia de chuva.
Os nossos animais não falam para te viciar, dizem mais que os eruditos.
Sempre preferi ser imbecil a um escadote. Sempre soube tropeçar.
Destati! Tendi ta mano! Um rapper pede humildade à maquilhagem.
E vangloriamos cada cicatriz aberta por cada âncora cravada na cara.
E mata-se deus, a pátria e a família. E sobram pussy, money, weed.
Rapidamente: o amor seca-nos os poros e a vida é tudo isto.
A única moção moral é que a perfídia tudo vence.
Mas padeceu, louco. Assim falava.
Assim observava os astros com que nos sonhou.
Assim falou.  Deixa consumir-te pelas tuas chamas. Como pretendes renovação sem cinzas?

Interlúnio

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"there's never enough time, is there?
whether it's fast or slow, or even if it doesn't move at all.
but especially when the end is near."
do lado das areias que traçam o mar
voltei a encontrar uma flor de coral
no meio do tempo que teima em passar
para relembrar que nem todas são do mal...
e o aroma a toxinas, tão infatuador
saboreava-se na sua alma tão esculpida
e o abraço do seu corpo, tão tatuador
foi um paraíso, estar nesta terra pervertida.
espero um dia fugir das maresias
das gravidades que me acorrentam
dos frios que ao sangue sustentam
raptar-te e descobrir o nosso fim


rant #newshadeofdark

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de que me vale fazer-te pagar pelo pecado, quando toda a tua vida foi desgraça? desgraçada redenção, futuro de perder de vista. fugas de um karma inexistente, de inimigos invisíveis congeminadosà maneira do nevoeiro que se abate sobre o deserto? de que me valem as tuas escolhas se não quero que te debruces sobre as minhas? se tu queres que a inveja seja o teu super-poder, segue em frente, mas é ridículo continuares a maquilhar-te de vítima.
ao meu coração um peso de ferro. à nebulosa do nome chegue a escuridão abarcada. que se transforme o remédio e o veneno nos nomes que lhes dás. à nebulosa, uma gravidade estável, que te explico: os diamantes a que chamo amigos foram injectados por intravenosa - o processo mineralizou o sangue que agora gela o suficiente para que seja encargo do coração cegar-se quando precisa. evitar tocar na lama, usar saltos altos com finalidade pragmática. qualquer tipo de abandono, que se preze desse nome (os teus abandonos nunca serão autênticos o suficiente p…
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acordar a meia distância da queda de um sonho.

sob as nuvens de pirilampos eléctricos, a toca do coelho
e o caminho dourado treme no atraso do eco da caveira
"mais que tirar filhos a um pai, cortaram-mos, Salomão".
o céu inocente e irónico, está lá sempre para nos esperar
sem a malícia da floresta que engole, olhar para cima é esperar.
não há mais nenhuma sonata a tocar neste cravo
que vos entrego em soneto depois de vos dizer o que não são.

e sim, era o que merecia, o que não queria ou desejava
mas a roda gira, colhe e traz ao calhas o receio do presente.


nigga, I'm gone, nigga, I'm ghost brought the touchdown on a whole 'nother coast jumping off planes, hopping on boats going to throw it up, then nigga, let's toast
(De um díptico aos meus primeiros alunos)
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o sono dá lugar às verdades escondidas.

foi sob o embrulho encrispado de um mar de tragédia
no constante devolver do riso ouvido de longe da morte
que me surgiu presenteado e imerecido um mar de rosas
as nuvens mantêm a lua tapada, que não sorri, espanta-se
e não é do meio da floresta negra que se vê a saída
há ainda muito que podar neste jardim
fique a maresia daquele teu jasmim

que não foi o que queria, o que merecia ou o que desejava
e tudo devo à fortuna, não à sorte grande, a de aqui estar.


O 13º aforismo

Nada controla tudo. O que está no entre da existência não requer atenção.
Um segundo não critica, nem explica, apenas age.
E não é o vento que levanta as lanças atiçadas do terceiro: é a causa.
Os frios escudos e armaduras não estão no coração nem no cérebro. Estão cá fora.
Estremecem e rimbombam os tambores com o chão, enervam-se as entranhas.
De sonhos e livros, fogos-fátuos que confirmam e conferem o futuro ao passado.
A lua não suspeita nem conjectura, reflecte. Os entes sem viver não reclamam.
O sol que parece comandar e contar, inflecte. Os seres que dão vida solem cobrá-la.
E escutando o correr da água na clepsydra, vagamente sorris, resignados e ateus.
Não há tempo, nem lados. Há a sorte e os factos.
As floridas rosas da memória trouxeram a lamúria.
Na condenação cessam consequências. Há eléctricos risos: o da morte e o do morto.
E não há luz nem heróis, ou escuro e vilões. Há acções sem julgamento póstumo.