E o riso do Cisne?

Aguarda-se com celebração o dia do fechar das cortinas que são as pálpebras.
Ninguém o pondera mas é uma âncora a pedir mais atenção
- como uma criança chata no super-mercado.
E corre o mito ou a pura mentira do canto do cisne:
que é antes de morrer que o cisne solta a sua melhor composição.
Se aqueles latidos e bramidos e espremer do corpo para bater asas,
esse espectáculo hediondo, se é visto como modo belo da morte,
admita-se que morrer num leito, deitado e sem margem de manobra
é preferencial à raça humana.
Que fariam estes símios para se compararem a cisnes,
etiquetados de belos, sublimes ou artísticos?

Mais que cantar em prantos de dor
(e a estranha correspondência com os gritos do parto)
o cisne deve rir-se, concluído o macabro.

O sorriso está debaixo das peles e músculos da nossa fronte,
prestes a sair apesar de contrariado pelos funestos.
Alegra-te, carpideira, que a tua caveira nunca parou de sorrir
e se a pele é invólucro, o riso é condição da autenticidade.
Enquanto progridem os vermes pelos tecidos carnais adentro,
progride destes o sorriso que sempre escondemos afora.

Temem o riso que gela a espinha, da irmã Morte,
na distante névoa da noite de Inverno.
E o que se faz quando se vai ter frio para sempre?

Chama-se família e amigos.
Espera-se a solene hora de verdade.
Chama-se o público ao espectáculo do finado,
porque cada e toda a hora substitui, irreversível,
a anterior.
Juntam-se mãos, contam-se uns salmos,
atiçam-se afora os santos espíritos que o assombram.
E alguns, que nem moscas,
esfregam mãos por cima do caixão,
porque os mortos já não jogam a ouros.

A lua sobe e a temperatura desce.
O corpo cumpre os últimos ritos protocolados,
respira umas vezes, outras com esforço,
escancara as janelas ao bater da última percussão,
decide-se que o verde pálido é uma óptima cor para a estação.
E a família vai tarde para evitar a decisão cosmética.

Pode ter dito umas palavras,
pode ter murmurado,
pode ter-se cagado ou dito que amava outra.

Não o fez antes e do depois não vamos ter notícia.

É capricho sonhado manter a família que não vais levar
nessa nossa hora mais nojenta, sob o pretexto
(que é mentira) de que vai ser bonito.
Um hospital e um pote de cinzas,
ou um caixão com sistema de som, por favor.


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