Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2016

Clareza

Vive o presente, lança-te a cada onda, encontra a tua eternidade em cada momento.
— Henry David Thoreau  madruguei tarde demais. exclamei aturdido, com Arquimedes e Poe, "EUREKA!", que os princípios estão nos fins, e os versas nos vices. descobri tarde demais, ainda coberto de lençóis. levantei voo rumo ao dia, em direcção ao sol. no banho, a água transborda, no corpo, os pecados e a ebriedade não. as feridas estancam o sangue que ejacula. amanheceu no bico de uma águia, de onde fui fertilizante de crias. menos um casulo para as metamorfoses de Ovídio. menos um verme que podia ser borboleta. vai ser uma águia. quando o sol segue a meio, o dia e a tarde confundem-se e o livro diz-te:
Não limpes os anjos que os anjos ainda não se começaram a sujar.
- Gonçalo M. Tavares os pássaros apenas seguem o sol e o sul. jogam-se ao mar, por peixes para comer e sal para cicatrizar. nunca vai ser cedo o suficiente. prometem corpos lindos mas nenhuma ave tem o corpo limpo. pouco se pode limpa…

Teorema

Não se aprende. É um engodo.
Outro inverno no coração,
Onde as famílias ostentam o perdão
Ao longe a paz do dia,
Na luz que percebemos
E separamos
O erro é o Eu
A desaparecer na neblina

Comunga do elitismo
Degraus de distância fina
Complexo descomunal,
Intelectual, idiótico

Sem coroa nem cruz,
Fiz das alturas o castelo
Tijolos de sonhos
Medos em fumos

Subir é prometer o julgamento
Acreditar para duvidar
Duvidar para terminar
Terminar sem deixar sobrar

Não cometas os mesmos erros
A mudança não é a promessa;
É a constância

Burnt Norton III

Num lugar de desafecto
Tempo antes e tempo depois
Numa frágil luz: que não é a do dia
Dão lucidez única à forma
Tornam sombra em beleza transigente
Na pequena rotação que sugerem permanente
Nem a escuridão salva a alma
Esvaziam a revogação ao sensual
Limpam o afecto ao temporal.
Nem plenitude, nem vacância. Só a cinza
Sobre caras esticadas que o tempo livrou
Distraídas da distração pela distração
Cheias de fantasia, plenas de significação
Dura apatia sem concentração
Nós e os nossos pedaços de papel, lançados ao vento
Que sopra antes e depois do tempo,
Dentro e fora dos doentes pulmões
Tempo antes e tempo depois.
Erupção de almas miasmadas
Para o ar que torpe desvanece,
Lança ao vento os montes de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Highgate, Primrose e Ludgate. Nem aqui.
Nem aqui a escuridão, no mundo do chilrear
            Vai baixar e apenas baixar
Para o mundo da solidão perpétua,
Da escuridão interna e privação,
À propriedade destituição,
Dissecam o mundo do sentido,
Evacuam o mundo da fanta…

Numa Fala

- à falta de conversa
- as viagens de metro são catárticas
- o que é que queres dizer?
- que fazem pensar
- porque é que complicas?
- os outros caminhos, para onde é que vão dar? e as portas?
- e para que é que queres saber?
- curiosidade
- que matou
- o gato
- megalomania
- ou conhecimento
- de que te serve?
- e porque não?
- qual é a finalidade?
- o meio é que revela o fim, já que os princípios são imperscrutáveis
- lá estás tu outra vez
- apenas coragem para ser eu mesmo, quando sou outro a ser eu
- actor

escrito

não ensinaram o pobre cão a ladrar. teve sozinho que lamber os cacos da tijela de sopa partida no chão. deixou o corpo ao lado. saiu a abanar a cauda quando sentiu fome. sirva para sinalizar que o pouco que resta é apatia. e provavelmente uma pata partida após um acidente qualquer, dirá a vida. o tempo tem tanto potencial.

é preciso demonizar o autor. aquilo que de mais poético a vida pode oferecer é a aleatoriedade. um determinado indeterminado indeterminável. a sacrílega união da caneta com o papel divide e conquista. destrinça um final do sortilégio-maralhal do que, na sua simultaneidade, é impossível. a este único fio sinuoso, aplica-lhe uma demão de coerência, et voi lá.

tudo o que era possível, desaconteceu. ele apenas ilude as suas criações com a promessa do livre-arbítrio. surge-lhes a vida ilusória no sopro das letras do outro lado. mas as suas mãos estão dementes a tentar alcançar a predicação. reuna-se de novo a vida, na lógica ilógica da co-miseração, finge só mais um boca…