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A mostrar mensagens de Junho, 2018

Caos reflectido [666]

2ª Cena do Acto II: Ao espelhoVoz de fora do palco: Esta cena passa-se em simultâneo com a primeira deste acto. O que segue é o mais temível acto que tenho a fazer para com a minha própria vida. Fazê-lo deixa-me de coração na garganta, quando o meu desejo é ter o coração na mão. O que se segue é a pior das catástrofes que podemos esperar nós mesmos. Vá lá que não é a vós que vos acontece. O que segue procede da magnífica frase do Dr. Samuel Johnson: "He who makes a beast out of himself gets rid of the pain of being a man". Mas o mais pérfido da peripécia que segue é facto de ser a única chave para o sucesso. E não é nenhuma maldição, mas uma segunda chance de viver que lanço.
(o palco gira 180º. o espelho e o protagonista trocam de lugar, mas o público mantém-se no mesmo, mantendo a perspectiva que tinha mas agora acerca de uma nova ordem das coisas que vê. o protagonista tem agora o cabelo branco e os olhos dourados: é o reflexo que dantes via.)

Olha para isto, não é fantás…

O reflexo do rei

3ª Cena do Acto I: No país das histórias que ficaram por contar Então, a história de Pandora foi outra das que ficou por contar: a sua caixa nunca foi aberta. Se assim é, então que males continuam a atazanar o mundo real, pergunto-me. E o que é que está dentro deste cubo Rubrik? Prontamente, peguei na caixa e embarquei no primeiro zepelim para fora daqui. (a cortina vermelha fecha-se e volta a ver-se o título indentado Caso Caos.) 1ª Cena do Acto II: Ao espelho Quando a cortina se reabre o público pode apenas ver o protagonista em frente a um espelho. O palco é o topo de um cilindro decorado como o vitral de uma igreja, sem luz que o trespasse e ilumine. O espelho, do tamanho do protagonista, está pendurado por fios, é circular e não é decorado: uma folha de papel que se levanta e reflecte. A voz do narrador e do protagonista confundem-se a partir daqui.
Reflectir é característico das superfícies em cuja incidência da luz permite uma duplicação do que se coloca em frente. Parece haver…

A palavra de Pandora

2ª Cena do Acto I: No país das histórias que ficaram por contar.
Dediquei maior atenção ao último parágrafo da nota do Dr. Jekyll, que levava na mão:
"Passou uma semana, termino esta nota sob influência do velho soro.
Esta é a última vez que Henry Jekyll pode pensar os seus pensamentos
ou ver a sua cara, ainda que alterada, ao espelho.
Não devo demorar-me muito mais, se a minha narrativa escapou à destruição,
foi por combinação de grande prudência e sorte em igual medida.", Henry Jekyll
Eu: Se a narrativa do Dr. escapou à destruição foi porque a decidiu pausar. Num país destes, a história teria ficado em pausa a partir do momento em que Jekyll aqui entrasse, nunca teria sido completamente Hyde. Seja como for, este é o laboratório, e se a investigação aprofundada não leva a lado nenhum, talvez devamos sair daqui. E como seria encontrar um artefacto como este soro? Coisa de lendas, aquela flor com que Coleridge sonhou e que quando despertou a encontrou na almofada, como é que …

Estranho Caso

1ª Cena do Acto I: No país das histórias que ficaram por contar.
"Na unidade original da primeira coisa Encontra-se a secundária causa de todas as coisas Com o germe da sua inevitável aniquilação." — Edgar Allan Poe
Não existe pior tormento para um autor do que uma história que ficou por contar. Talvez não seja a forma correcta de o pôr: não há nada pior do que uma história que ficou por contar. Esta é a história de um estranho caso que ficou por resolver, talvez até tenha ficado por descobrir uma via para a sua solução. O melhor seria que a solução não fosse a dissolução na torrente de histórias que cada vida é.

No meio das ruínas do que parecia ser um laboratório abandonado, mas não sem antes ter sido vandalizado, descobri uma pasta de cabedal negro. De cada lado da caixa podiam ler-se inscritas algumas palavras, uma espécie de código: "JE/KILL" de um lado e "JE/HIDE" do outro. Claro que é de estranhar este aparente bilingue, o francês "Je" e…

Patético

Prelúdio O público movimenta-se em volta de uma cortina vermelha com o título bem indentado: O caso caos. Podia ouvir-se os murmúrios, finalmente haveria uma explicação, finalmente saber-se-ia o que aconteceu, finalmente... Como se ver aquela cortina levantar-se e, meia hora depois, fechar-se fosse finalizar o que quer que fosse. Como se pontos finais saltassem da pontuação para a vivência. Como se a arte pudesse explicar a vida. E o que é que veio primeiro? A vida ou a arte? Nota-se uma mudança no tom do narrador.

O que vai aqui ser contado pode parecer justificar acções, mas qualquer semelhança ou sentimento de alívio que possa suscitar é um fortuito meramente surgido do acaso das correspondências. É que por vezes, as pessoas na vida têm o mesmo número de membros que as pessoas da ficção. Mas as pessoas da ficção não fazem tantos acrescentos à ficção como as pessoas da vida. O público acalma-se, senta-se, continua a falar entre si, continua sempre a falar, receio até que cause difi…