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Estranho Caso

1ª Cena do Acto I: No país das histórias que ficaram por contar.

"Na unidade original da primeira coisa Encontra-se a secundária causa de todas as coisas Com o germe da sua inevitável aniquilação." — Edgar Allan Poe
Não existe pior tormento para um autor do que uma história que ficou por contar. Talvez não seja a forma correcta de o pôr: não há nada pior do que uma história que ficou por contar. Esta é a história de um estranho caso que ficou por resolver, talvez até tenha ficado por descobrir uma via para a sua solução. O melhor seria que a solução não fosse a dissolução na torrente de histórias que cada vida é.

No meio das ruínas do que parecia ser um laboratório abandonado, mas não sem antes ter sido vandalizado, descobri uma pasta de cabedal negro. De cada lado da caixa podiam ler-se inscritas algumas palavras, uma espécie de código: "JE/KILL" de um lado e "JE/HIDE" do outro. Claro que é de estranhar este aparente bilingue, o francês "Je" e…

Prelúdio: Patético

O público movimenta-se em volta de uma cortina vermelha com o título bem indentado: O caso caos. Podia ouvir-se os murmúrios, finalmente haveria uma explicação, finalmente saber-se-ia o que aconteceu, finalmente... Como se ver aquela cortina levantar-se e, meia hora depois, fechar-se fosse finalizar o que quer que fosse. Como se pontos finais saltassem da pontuação para a vivência. Como se a arte pudesse explicar a vida. E o que é que veio primeiro? A vida ou a arte? Nota-se uma mudança no tom do narrador.

O que vai aqui ser contado pode parecer justificar acções, mas qualquer semelhança ou sentimento de alívio que possa suscitar é um fortuito meramente surgido do acaso das correspondências. É que por vezes, as pessoas na vida têm o mesmo número de membros que as pessoas da ficção. Mas as pessoas da ficção não fazem tantos acrescentos à ficção como as pessoas da vida. O público acalma-se, senta-se, continua a falar entre si, continua sempre a falar, receio até que cause dificuldades a…

O Cofre do Homem Morto

Cruéis frios ventos do mar
Que te levaram de mim,
Será que vais voltar
Se ouvires a minha voz
Cantar com as marés
O meu amor que nunca morre?

Pelas ondas e no azul profundo
Vou ancorar o meu coração por ti
Dez longos anos, a minha maldição
Cantar com as marés
O meu amor que nunca morre.

Anda, meu amor, sê um com o mar
Governa comigo a eternidade das ondas
Afogar outros sonhos, sem piedade,
Deixa as suas almas para mim
Cantar com as marés
O amor que nunca morre.

Deita a canção que cantaste há tanto
E onde quer que a tempestade te levar
Vais encontrar a chave para o cofre
Nunca separar, nem terminar
Cantar com as marés
O amor que nunca morre.

Selvagem e violento, o ímpeto
Que não vai ser contido
Nunca agrilhoado ou aprisionado
As ruínas que tu custas,
As feridas que não saram,
O meu amor que nunca morre.

Cruéis frios ventos do mar
Que te levaram de mim,
Será que vais voltar
Se ouvires a minha voz
Cantar com as marés
O meu amor que nunca morre?

Rei Pirata

"A história humana é um evento imperceptível, de um ponto de vista cósmico." — Naufrágio com Espectador, Hans Blumenberg
Não houve açoite divino que me tocasse o rancor
Flutuei no meu batel como bem me deu na gana
Se sofri, não foi por mérito, mas por acaso.

É que o meu barquito cortou o oceano em tantos...
Que gerou, dos cortes, novos tsunamis,
Tantos pobres iates a virar e a tombar o caviar.

Aldeias que pilhei e vilas que laminei,
Lâminas de água em pescoços só molham,
Mas quebraram-se na ânsia do impacto.

Não esperaram. Ansiaram. Guilhotinaram-se.

Vagueio por águas equilibradas,
No que sei e sinto que há,
No caminho que se abre para ser seguido.

Mas os cortes continuam a fazer caravelas tombar
E que lindas velas bordô que aquele ali tinha
E que grandes balas de canhão seguem em minha direcção.

É o medo do escuro. O medo da bandeira pirata,
Que não diz mais que separação, ruptura com o original.
Nenhum dos meus marujos é normal, é um barco/circo/freakshow.

Temam, temam, q…

Outra promessa numa carta

No meio da podridão, da discórdia e da espiral da demência, recebes outra carta do futuro. O horror é reparar na caligrafia não só familiar, mas tua.

"No dia da tua queima das fitas liguei para te dar os parabéns, mas não atendeste. Foi inesperado. Queria saber o que se seguia, para confirmar que não tinhas perspectivas do que ias fazer. Para ser honesto, lembro-me daquela dúvida. Era difícil sair daquela cidade e deixá-la para trás. Era um fardo a cidade ser de tal modo património que os pecados ficaram esculpidos a granito na memória, prestes a accionar sempre que recordas as paredes contra as quais beijaste. Daqui a pouco vais escrever a tua história a pegadas no mundo. Naquela altura, e acima de tudo, queria dar-te um conselho: a casa não é um sítio, mas as pessoas que lá estão. Daqui a pouco, eles vão sempre estar lá.  Hoje, fico feliz por não te ter dado esse conselho, por não ter arruinado a surpreendente ruína. Por nunca teres estado preparado e ainda assim, continuamente…

parkour

O génio só tem lugar no que tem de pragmático, não no que tem de ético. Uma vez que os grandes desenvolvimentos levados a cabo por um génio dependem do pensamento desviante (do inesperado, em função de dar um grande salto em direcção ao futuro), os seus comportamentos não devem ser punidos por terem sido, se não a causa, um acidente no percurso ao desenvolvimento. Não é função do génio pedir que lhe sigam os comportamentos, mas que lhe admirem a forma como devolve arte ou técnica (no modo como as enaltece) do vocábulo primeval e polissémico technè. Estes desenvolvimentos não são políticos, são estéticos ou tecnológicos, fazem a sociedade progredir sem ligar a quem dela faz parte. É, portanto, inútil associar a vida do génio ao papel de um modelo social, pois a sua única utilidade tem a ver com a sua finalidade, é o que o génio tem de prático. A sua vida foi um percurso em torno do desenvolvimento.

Acabar, não com o culto do indivíduo, mas da própria ideia de indivíduo, é esperar que t…

228 sobre 1 Dias; Ou 17, ou 18

228 sobre 1 Dias
A luz refracta pelos vidros dos edifícios
Estes fios não podem mentir acerca do que levantam
Mas porque é que eu existo aqui?
E como é que alcancei e senti felicidade?

Deixei o meu coração entrelaçado na esperança
Mais um agora, mais disto. Aperta-o até que quebre
Mais uma vez, mais e mais apertado. Isso.

A dor do que passa para detrás da íris cresce
A preocupação, a vacância, a evitância
E se me magoar? E se ultrapassar a ansiedade?

Todos os dias recebo cartas do futuro
Mais um agora, mais disto. Enfrento o presente decidido
Cada vez mais e cada vez mais decidido.

Essa luz que os teus olhos vêem invadir o dia
As desculpas e os remorsos que fazem sentir pressão
Aquela mesma luz que se espalha sobre as nuvens
Os dias que se repetem e repetem e vão repetir
O céu pálido.

Ou 17, ou 18
Troca ansiedade por esperança e nunca vais perder para o tempo.

Corre em direcção aos caminhos excluídos do mapa
Às coisas que temes, que pensas que não existem;
Fecha o guarda-chuva e abre a…