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A janela, o mergulho e a janela

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Como é que se volta a uma vida passada? Quando dentro da casa só vejo um jogo de fumos e espelhos, miragens, promessas e mais espelhismos olho pela janela. Mas quando olho para fora da janela, só tenho dores de cabeça e os ventos dão-me vertigens.

Como é que se retoma o caminho de ferro depois de ter descolado num avião? Cada casa é um esconderijo, cada um tem a esconder o que tem a esconder, não há cofre sem o que tem dentro. Ou melhor, há, mas que surpresa se pode ter na indecisão? De que me vale um gato vivo e morto se não o posso enterrar nem brincar com ele? Quiasmo desnecessário.

E onde é que se vai com esses bens materiais de capoeira que se escondem? Em que é que o ter tem mais de ser-se uma pessoa que o sentir? A posse é um acrescento, uma aproximação que faz analogia entre a proximidade gravítica em torno de uma pessoa e aquilo a que se dá o nome de identidade, assumindo a sua existência, como um biólogo a falar de unicórnios.

A sensação não acrescenta, altera — é reacção qu…

Veneno

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Confundes cuspo e lágrimas.
Sangue e mel na lista de compras
E neste pequeno-almoço já vou fugir à morte.
Amar é esculpir nos entre-folhos dos lençóis
Uma omelete de gemas gregorianas
Enquanto se dança por entre o suor
(Como Cristo ensinou).
E se a vida é um fio que se desdobra —
Na linearidade que podemos atribuir
A novelos de lágrimas —
Mas só és Pablo se venderes — e bem, então:
Duvida e cospe enquanto a coroa se endireita,
Duvida e chora, que os diamantes não arrefecem as veias.
Eu não duvido dessas dúvidas e dívidas,
Eu não cozinho a ignorância num espeto
Nem crucifico seus julgamentos, Meritíssimo.
Enquanto as lágrimas que cuspiste nos olhos
Derrapam pelo oco mármore abaixo,
Vou continuar a sangrar por sucesso.

E repara no som do oco, que faz um lindo eco.


O fim do abismo

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Ficam para trás as ruínas, os espinhos das rosas que lhes tirámos. Ficam para trás os mortos e as memórias que lhes absorvemos. O que resta é o que lá está: as ruínas para que continuamos a olhar sem observar, os mortos que constantemente desrespeitamos pela nossa falta de vontade de viver.

O tempo e o espaço são medidas incompletas sem a emoção. E a emoção divide-se em conhecimento e vontade. Se a emoção desliza da sensação e é corrompida pela idealização, o conhecimento é esse generalizar. Olhar para o mundo pelo espectro das ideias é a constante dissatisfação de ter o que não temos, por não corresponder ao nosso conhecimento das coisas. O conhecimento, a inteligência, é o que nos ancora ao fundo do abismo e não nos deixa escalar em direcção à luz que víamos antes de cair.

Por outro lado, a vontade é o que nos dá permissão. É a emoção que nos faz mover em vez de nos calcar ao conhecido. Que desloca dos padrões desrespeitados pelo confronto directo com a vida. Se continuamos a viver …

A sagrada distância

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Eu sou o que resta.
Sou a distância da queda de um sonho.
Sou as peças espalhadas onde ficaram.

Não há antídoto para o veneno da saudade
O mesmo céu que para todos é igual,
O espelho que reflecte todas as ligações.

Superior a todas as coleiras e correntes
Ecrã pincelado que nos relembra
Tudo ocorre debaixo do mesmo lençol.

Não se aproveitem da maldição da recordação
Dos constantes rituais pela ressurreição
Que fascinam com a separação sem reparação.

Numa bolha, num reino bem longe, muito longe
Ficou um principe ou um feiticeiro (confunde-se),
Flutua, distante, na inamovível pen-drive da felicidade.

Entes queridos,
Ou sou o que falta,
Ou tudo o que foi.


A maldição.

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Cada peça ficou onde caiu. Deixei os fios da discussão de vidas passadas suspensos, como um puzzle que ficou por completar. Mas uma fagulha do motor do avião bastou e peguei-lhes fogo quando comprava uma harpa. Saltei da frigideira para uma piscina de licor.

As regras de que todos os sonhos escapam. Um a um ilumino os tijolos dourados, que são dourados porque assim os pintaram. Os tijolos de uma história são o suposto para o absurdo, o como deve ser da pobreza de espírito de lentes desfocadas, para quem os caminhos bordados a ouro são falsas pretensões. E o absurdo é a lei do momento que leva terminar uma vida como se bate a cinza de um cigarro.

Pode ser que o caminho se desenhe em erros. Porquê o pânico face aos caminhos bifurcados se já estão pavimentados e é seguir? Não será difícil averiguar que Oz não é algures sobre o arco-íris, mas aquele caminho banhado a luz verde que por ali vês? Por vezes os focos de luz verde no céu podem estar certos e talvez tenhamos sido nós a errar por p…

A balada do Caos

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Resultas do cruzamento de dimensões e poeiras
És privilegiado por respirar
Não vês os rios de ouro escorrer?
E as pirâmides doidas que fizémos ao passado?

Como podes entender?
Como podes aceitar?
Como não dramatizar?
Quanto medo tens de reprimir para dar um passo?
E com quanta ansiedade lidas
Quando estás prestes a ser alguma coisa?

Custa ser por se acreditar num protocolo
"Se agora sou isto devo sê-lo e a isso apenas"
Esse é o teu tiro no pé
Vendem-te os sonhos a preço da alma
33 gramas numa nota, heh, e nem uma linha para cheirar

Custam-te os jardins de caminhos bifurcados
A possibilidade face à sensibilidade
A eternidade face ao tempo
E vives como uma estátua prestes a desabar
Sem certezas dos folículos que te fazem

Todas as mortes que planeaste,
Os suicídios ao juízo,
Tudo o que podia ser mas ia deixar de o poder
Vives tudo como se a Fortuna existisse mesmo
Todo preocupado com o karma
E todas as vidas dos outros (que consideras "simulação")
E com "como dev…

O caos, a ordem e o tempo

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Eu tive a memória de um futuro perdido, em que o sol se punha sem raios, o céu era cinzento e no vento se sentia o odor a cripta. A respiração ansiosa não descansa, receia vê-lo concretizar-se.

Quem lida com o tempo descobre logo um paradoxo eterno: os momentos nascem sabendo que vão morrer antes de se sentirem vivos. O seu único propósito é o de morrer e tornar a morrer para se substituir por uma versão desprovida de memória. Sempre que se aceita a sensação de um momento, vende-se a sensação do anterior e da sua alternativa. Ironicamente, só quem renuncia ao tempo (à sua contagem ou organização) o pode apreender realmente.

O tempo pode sentir-se de dois modos. Do modo que é contado pelos vencedores, que se aliam e auto-nomeiam de heróis debaixo da asa da deusa Ordem, que generaliza, faz estereótipos, calcula médias, modas e medianas e ensina à sociedade como se deve viver. Ou, de outro modo, o tempo pode ser sentido tal e como é, na mais pura autenticidade do mundo a que subjaz e, ne…