Mensagens

O Cofre do Homem Morto

Cruéis frios ventos do mar
Que te levaram de mim,
Será que vais voltar
Se ouvires a minha voz
Cantar com as marés
O meu amor que nunca morre?

Pelas ondas e no azul profundo
Vou ancorar o meu coração por ti
Dez longos anos, a minha maldição
Cantar com as marés
O meu amor que nunca morre.

Anda, meu amor, sê um com o mar
Governa comigo a eternidade das ondas
Afogar outros sonhos, sem piedade,
Deixa as suas almas para mim
Cantar com as marés
O amor que nunca morre.

Deita a canção que cantaste há tanto
E onde quer que a tempestade te levar
Vais encontrar a chave para o cofre
Nunca separar, nem terminar
Cantar com as marés
O amor que nunca morre.

Selvagem e violento, o ímpeto
Que não vai ser contido
Nunca agrilhoado ou aprisionado
As ruínas que tu custas,
As feridas que não saram,
O meu amor que nunca morre.

Cruéis frios ventos do mar
Que te levaram de mim,
Será que vais voltar
Se ouvires a minha voz
Cantar com as marés
O meu amor que nunca morre?

Rei Pirata

"A história humana é um evento imperceptível, de um ponto de vista cósmico." — Naufrágio com Espectador, Hans Blumenberg
Não houve açoite divino que me tocasse o rancor
Flutuei no meu batel como bem me deu na gana
Se sofri, não foi por mérito, mas por acaso.

É que o meu barquito cortou o oceano em tantos...
Que gerou, dos cortes, novos tsunamis,
Tantos pobres iates a virar e a tombar o caviar.

Aldeias que pilhei e vilas que laminei,
Lâminas de água em pescoços só molham,
Mas quebraram-se na ânsia do impacto.

Não esperaram. Ansiaram. Guilhotinaram-se.

Vagueio por águas equilibradas,
No que sei e sinto que há,
No caminho que se abre para ser seguido.

Mas os cortes continuam a fazer caravelas tombar
E que lindas velas bordô que aquele ali tinha
E que grandes balas de canhão seguem em minha direcção.

É o medo do escuro. O medo da bandeira pirata,
Que não diz mais que separação, ruptura com o original.
Nenhum dos meus marujos é normal, é um barco/circo/freakshow.

Temam, temam, q…

Outra promessa numa carta

No meio da podridão, da discórdia e da espiral da demência, recebes outra carta do futuro. O horror é reparar na caligrafia não só familiar, mas tua.

"No dia da tua queima das fitas liguei para te dar os parabéns, mas não atendeste. Foi inesperado. Queria saber o que se seguia, para confirmar que não tinhas perspectivas do que ias fazer. Para ser honesto, lembro-me daquela dúvida. Era difícil sair daquela cidade e deixá-la para trás. Era um fardo a cidade ser de tal modo património que os pecados ficaram esculpidos a granito na memória, prestes a accionar sempre que recordas as paredes contra as quais beijaste. Daqui a pouco vais escrever a tua história a pegadas no mundo. Naquela altura, e acima de tudo, queria dar-te um conselho: a casa não é um sítio, mas as pessoas que lá estão. Daqui a pouco, eles vão sempre estar lá.  Hoje, fico feliz por não te ter dado esse conselho, por não ter arruinado a surpreendente ruína. Por nunca teres estado preparado e ainda assim, continuamente…

parkour

O génio só tem lugar no que tem de pragmático, não no que tem de ético. Uma vez que os grandes desenvolvimentos levados a cabo por um génio dependem do pensamento desviante (do inesperado, em função de dar um grande salto em direcção ao futuro), os seus comportamentos não devem ser punidos por terem sido, se não a causa, um acidente no percurso ao desenvolvimento. Não é função do génio pedir que lhe sigam os comportamentos, mas que lhe admirem a forma como devolve arte ou técnica (no modo como as enaltece) do vocábulo primeval e polissémico technè. Estes desenvolvimentos não são políticos, são estéticos ou tecnológicos, fazem a sociedade progredir sem ligar a quem dela faz parte. É, portanto, inútil associar a vida do génio ao papel de um modelo social, pois a sua única utilidade tem a ver com a sua finalidade, é o que o génio tem de prático. A sua vida foi um percurso em torno do desenvolvimento.

Acabar, não com o culto do indivíduo, mas da própria ideia de indivíduo, é esperar que t…

228 sobre 1 Dias; Ou 17, ou 18

228 sobre 1 Dias
A luz refracta pelos vidros dos edifícios
Estes fios não podem mentir acerca do que levantam
Mas porque é que eu existo aqui?
E como é que alcancei e senti felicidade?

Deixei o meu coração entrelaçado na esperança
Mais um agora, mais disto. Aperta-o até que quebre
Mais uma vez, mais e mais apertado. Isso.

A dor do que passa para detrás da íris cresce
A preocupação, a vacância, a evitância
E se me magoar? E se ultrapassar a ansiedade?

Todos os dias recebo cartas do futuro
Mais um agora, mais disto. Enfrento o presente decidido
Cada vez mais e cada vez mais decidido.

Essa luz que os teus olhos vêem invadir o dia
As desculpas e os remorsos que fazem sentir pressão
Aquela mesma luz que se espalha sobre as nuvens
Os dias que se repetem e repetem e vão repetir
O céu pálido.

Ou 17, ou 18
Troca ansiedade por esperança e nunca vais perder para o tempo.

Corre em direcção aos caminhos excluídos do mapa
Às coisas que temes, que pensas que não existem;
Fecha o guarda-chuva e abre a…

Voa (Sonho)

Pintei nas asas as memórias em que te abraço, são asas fracas, mas de certeza que posso voar neste meu declínio, ó meu amor. Quem me dera ser uma águia feliz ao vento em direcção ao que o coração faz desabrochar, queimar as fotos das futilidades, manter a paisagem. Só há tempo para brincar no xadrez da vida.

Perguntam se asas de cera tocam no céu, perguntam se elas podem tocar o amanhã, mas não há plano de sucesso para o espontâneo. Voltar ao nada depois de sonhar o infinito faz parecer que as ligações se enfraquecem, no entanto, estas asas resistem, ainda são fracas, mas de certeza que posso voar neste decair, ó meu amor.

Num mundo vazio assombrado por um sonho que não tem fim, parece que perdemos o que mais desejamos, mas fica tu, mesmo sob estas asas duvidosas, fica junto das memórias que não podes perder, da certeza de que podemos voar neste nosso ocaso, ó meu amor.

Engolidos do sonho pelo mundo miserável, talvez nadar à rebours não seja mau de todo, mesmo com asas tolas, de memór…

Acerca de masmorras e Dragões

Imagem
Confesso que a vida é maravilhosa. Que no meio da jornada até este meio termo entre o que foi e o que está para ser, conheci um dragão ou outro. Aqui, no meio do nada, não há grande competição, soltam-se umas fagulhas e sopra-se pelo nariz, deve bastar para afastar a areia dos pés. Nas cidades, com grandes tuxedos, porém, aí sim, se sopra fogo, e como eu adoro fogo de artifício.

A fúria de viver deixa os olhos reluzir ouro, a garganta a expelir fumo, faz o espectáculo de devastar as aldeias dos pequenos que são tão pequenos quanto querem ser. Os dragões não têm medo de arruinar o seu caminho até ao topo da montanha — they fuck up their way up to the top. O absinto acende e os finos fios de diamantes na mesa da cozinha entusiasmam.

O que é que havemos de cozinhar hoje para esse povo, sedento por que se verta um pouco do caldeirão? Atirem-se-lhe os restos, apanhamos por eles umas quantas canas de foguetes que nos falharam o centro da testa, limpa-se a lágrima ao canto do olho a uma nota…