Mensagens

Flores do Nada

Imagem
Permite-me uma questão. Se aceitas a escuridão, mas preferes viver na luz, porque negas os habitantes que oscilam na berma do nada?  Os que foram menosprezados por ambas luz e escuridão, sem poder escolher? Nós não podemos sentir o sofrimento. Não importa que miséria sucumbe os mundos, o que pensam, o que sentem ou como existem... 
Em tempos que já lá vão, e havia orgulho em ouvir-se cristão, a minha musa Vénus perdeu os braços. E às suas bênçãos mundanas e utilidades Tirésias traçou mapa em braille. Cheguei à Babilónia em busca de uma bicicleta, pegaram no meu carro e jogaram-no encosta abaixo. "Desliza por pedradas firmes o rochedo" para cair do outro lado do rio, onde as bandeiras são bravas e sensatos os homens que as consideram.

Contei treze praias até me poder sentar. Até o mar reflectir a luz da lua e não estar dividido em dúvidas. Não posso banhar em águas que não sei se existem, mas posso agarrar-me a estrelas cadentes, cujo rasto é um autêntico torreão de luz físi…

E o riso do Cisne?

Imagem
Aguarda-se com celebração o dia do fechar das cortinas que são as pálpebras.
Ninguém o pondera mas é uma âncora a pedir mais atenção
- como uma criança chata no super-mercado.
E corre o mito ou a pura mentira do canto do cisne:
que é antes de morrer que o cisne solta a sua melhor composição.
Se aqueles latidos e bramidos e espremer do corpo para bater asas,
esse espectáculo hediondo, se é visto como modo belo da morte,
admita-se que morrer num leito, deitado e sem margem de manobra
é preferencial à raça humana.
Que fariam estes símios para se compararem a cisnes,
etiquetados de belos, sublimes ou artísticos?

Mais que cantar em prantos de dor
(e a estranha correspondência com os gritos do parto)
o cisne deve rir-se, concluído o macabro.

O sorriso está debaixo das peles e músculos da nossa fronte,
prestes a sair apesar de contrariado pelos funestos.
Alegra-te, carpideira, que a tua caveira nunca parou de sorrir
e se a pele é invólucro, o riso é condição da autenticidade.
Enquanto progri…

Os blues da Bandeira Morta

Imagem
A minha geração tem a estranha tendência para se pensar numa história. Parece que o que está entre nascer e morrer foi designado como sequência de si mesmo. Para além da sua construção sintáctica da vida (antes/durante/depois) ainda se medem as sensações com uma escala como a de Richter. Cada evento, cada acção tomada ou a espera por efectuar outra, é medido em termos de magnitude e posteriormente posto em perspectiva em correntes de comparações. Durante aquele momento senti com determinada intensidade que só tornei a sentir uns trinta anos depois, diz-se de um momento importante, profundamente sentido e de outro aparentemente similar.

Deste lado. Acredito que só existem repetições na nossa relação com o místico ou o esotérico. A relação religiosa funda-se sobre a repetição de ritos, ao ponto de muitas religiões optarem pela repetição obstinada de orações que faz os actos linguísticos perder a intensidade da sua intenção e a profundidade do que significam. Não obstante, a relação reli…

O Necromante

Imagem
Um mago pirata que lida com os mortos do fundo do mar contou-me que o langor é a delimitação do tempo de espera pela nova sensação de um objecto de nostalgia. Era magro, um saco vazio cheio de ossos. Contei-lhe que os vivos chamam à paixão um fogo que consome por dentro, talvez por associação dos tempos de espera. Discutimos se o langor seria a duração desde esse incêndio ao seu vapor.

Pescar um morto implica tornar a sentir sensações associadas a uma cara. Faz-se assim. Lançou a enxada escarlate à fátua água turquesa e puxou de um crânio. Sensações de um envenenamento interior, um peso que sua de dentro. E os mais mal mortos nunca cessam de cheirar a si.

Os amantes consomem-se, como o fogo, mas só alguns mortos são consumidos pelo fogo. Só os que não ardem se podem repescar. Será a purificação purgatorial em vida esse incêndio interno, do peso do karma? A torre de colageno que não cai quando lhe atiram uma caveira componente que estruturava a sua base?



A Harpa, o Fogo e a Esmeralda

Imagem
"Que lindo é o incêndio visto por uma esmeralda", Nero, enquanto voam fagulhas que cheiram a cadáveres, como passeiam os dedilhados pela harpa. Pelo chão, os corpos esturricados são provas de um crime extremado. "O fogo nunca é deixado ao destino, ele mancha no mundo o acaso".

Neste mundo de queimados e ateadores, quem é que pode pegar no códex e alegar-se moralmente superior? Quando todos nós jogámos fósforos em busca do domínio da vida alheia? Quando aqueles pobres não são mais desesperados que estes desesperantes, que se pensam ricos?

Neste mundo vestem-se as sombras como véus, como cerejas no topo de bolos, por cima dos corpos e nunca por debaixo do sol; neste mundo em que a sombra é um chapéu, quem é tem o delírio de calçar saltos e considerar o certo e o errado? Quem é que pode ver de cima o que o fogo domina? (E que alta tem de ser a torre).

Se podemos admitir que há uma jóia em cada um de nós, constantemente lacerada e lentamente transformada quer pela eros…

Responsabilidade

Imagem
escorrem pelas montanhas douradas
esmeraldas choradas pelo corpo
esculpido agora e bordado
- de riqueza e prazer.

será que já nos perdemos o suficiente
para ser indistinto
o que nos fizeram do que nos fizémos?
que jóias são estas
e de quem é aquele sangue?
como passa depressa a noite,
a enrolar mais uma mortalha.

as cartas pintam-me as rosas de vermelho
e as maravilhas revelam dúvidas lógicas.
espera até que anunciem o teu nome.
da lua escorre o suor de nos ver falhar,
o sol ilumina a medo o nosso percurso,
(a tapar os olhos, querendo ver o terror)
e os candeeiros são os meus melhores amigos,
quantas vezes não os abracei,
para não terminar a noite
a trocar saliva com o alcatrão?

e monto o trono a fósforos no palácio
projectado nas ruínas dos nossos sonhos.
prestes a ti, prestes à fagulha,
esse pecado original,
que foi dançar na minha tempestade,
a que alumies o nosso equinócio.

então aí tens:
a jogar à macaca em volta das nossas mentiras,
eu posso não ser o melhor mas dou conta de ti.


La Chute

Imagem
ou tudo o que temos.

ninguém se questiona a respeito da face que fica virada para baixo de um dado que cai. nem tem de se preocupar: apesar de ser a face que segura contra o solo todo o resto do corpo do dado, o propósito de um dado esgota-se na face que fica virada para cima. serve para o que serve. esta face de cima é normalmente notada com números de um a seis. os jogos só avançam e os factos só se concretizam com a queda, a conta e os passos. um objecto tem-se a si mas o que é se não existirem acidentes? melhor, de que serve?

um dado parado aponta sempre o mesmo número, permite avançar o mesmo e pré-determinado número de casas. talvez seja o caso: ver-se no dado um objecto estético da contemplação, armazená-lo numa estante e ignorar o que mais pode dele surgir: ganha musgo.

o problema é a queda e é a ideia de acidente que vêm juntas. são acidentes de densidades aéreas imperscrutáveis que fazem o dado girar durante a queda. o jogo só avança, e com ele os factos que só se dão, com …