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L'Impeto Oscuro

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A distância da queda de um sonho é demasiado curta. Os mundos são demasiado pequenos para colidirem quais átomos. E é de novo e sem pesar que se me gelam as veias pelos defuntos. O resultado é um magnífico fogo de artifício, mas o que salta é carne solta, excruciada. Cometendo apenas um pecado capital. Recentemente sinto que faço o tempo submeter-se à superbia.

A vontade, a vontade, poupem-me a vontade, desbastem as cabeças, guilhotinem as próprias pernas, caminhar nunca foi vontade. É que de boas intenções está o inferno cheio, mas aqui, onde a terra e o inferno se indistinguem, essa facécia revela a sua ineficácia. É natural que se afoguem os peixes que não sabem nadar. Recentemente sinto que o tempo se submete à superbia.

O mal-estar, o tóxico mal-estar, a infecção odorosa de uma sala de espera hospitalar, a constante dor que não dói do osso que não temos, a planta que tenta viçar rasga o talo a si mesma por assim desejar. E é tão raro ver-se florir rosas no inverno, quanto mais no…

Libra

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O sol põe-se sobre o nada de novo; a lua traz uma cara nova para lhe sorrir. À medida que um cai, noutro sítio, só as copas anunciam a alteração para um clima mais frio. O resto fica com esta escura estampa do verde.

Não no meio do deserto. Parece que esta área não foi seleccionada pela valsa cósmica do vento sobre os corpos celestes: a noite é clara. É impressionante como o céu do deserto tem esta limpidez cristalina que as florestas obscuras em que já dormi nunca vão ter. É surpreendente como a musa se imiscui nas inusitadas inóspitas incoerências do destino.

Que padrão tem o belo para se falar de coerência, para além do bailado entre a lua e o sol num cenário estrelado? A lua com a sua inconsistência facial e o sol no seu permanente movimento de nada de novo. E ainda assim é o nada de novo que atrai por debaixo deste cobertor que joguei à estátua que esculpi do mundo: o azar.

Apesar da sagrada lua, na inconstância das suas caras, ser quem melhor representa o azar, a lacuna de padrõ…

Chama a flutuar

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Não há nada de novo debaixo do sol; mas há ficar-se debaixo do sol num dia de folga. Por muito que aqui um dia livre não o pareça por não se poder partilhar. Ficar debaixo do sol fez-me cheirar o passado: houve um dia de Março, talvez o primeiro dia da Primavera que foi realmente solarengo; tinha voltado da escola para almoçar e o tempo para voltar para a escola era cada vez menos. Mas deitei-me ao lado da piscina, não valia nada mais a pena do que estar ali debaixo do sol. E agora abrem-se os olhos para o por do sol no presente. As nuvens não podem ser pintadas, não há tantas cores na palete como as que estou a ver. Há uma chama a flutuar no canto entre o horizonte e a janela em primeiro plano. Flutua num movimento descendente e as nuvens reflectem o brilho da chama — a distância faz aumentar o contraste deste grande ovo estrelado azul e branco no céu.

Há momentos em que a música quer acabar e eu não o posso permitir; que crueldade! E a hipnose dela? Não é por sua vez cruel? Leva-me …

Pó Negro

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O acaso impera sobre o destino como a marioneta que dança sob os nós que ataram só para o vosso entretenimento. A musculatura e a madeira que une a sua construção flutuam com a música que se ouve sem acompanhar qualquer vontade maior. Não há maior generalização do que procurar corresponder a forma de comunicação da dança à geometria. O fluir do vento influi sobre os movimentos dos corpos; pode abismar as almas mais religiosas, como o pensamento de que o bater das asas de uma borboleta tem resultado na acumulação de tráfico rodoviário às portas de uma cidade.

As peças caem como calha nos seus lugares, como o céu escuro recorta sombras no horizonte à noite. Parece ver-se o peso do manto do céu sobre a terra e a aproximação do sol distingue as silhuetas, levanta o mesmo peso. O que se recorta à luz do dia é tão literal quanto a palavra que se vê. As sombras do passado que descansam desprovidas de coração actuam barbaramente, conversam com a indelicadeza com que se pisa uma flor. Já os qu…

A janela, o mergulho e a janela

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Como é que se volta a uma vida passada? Quando dentro da casa só vejo um jogo de fumos e espelhos, miragens, promessas e mais espelhismos olho pela janela. Mas quando olho para fora da janela, só tenho dores de cabeça e os ventos dão-me vertigens.

Como é que se retoma o caminho de ferro depois de ter descolado num avião? Cada casa é um esconderijo, cada um tem a esconder o que tem a esconder, não há cofre sem o que tem dentro. Ou melhor, há, mas que surpresa se pode ter na indecisão? De que me vale um gato vivo e morto se não o posso enterrar nem brincar com ele? Quiasmo desnecessário.

E onde é que se vai com esses bens materiais de capoeira que se escondem? Em que é que o ter tem mais de ser-se uma pessoa que o sentir? A posse é um acrescento, uma aproximação que faz analogia entre a proximidade gravítica em torno de uma pessoa e aquilo a que se dá o nome de identidade, assumindo a sua existência, como um biólogo a falar de unicórnios.

A sensação não acrescenta, altera — é reacção qu…

Veneno

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Confundes cuspo e lágrimas.
Sangue e mel na lista de compras
E neste pequeno-almoço já vou fugir à morte.
Amar é esculpir nos entre-folhos dos lençóis
Uma omelete de gemas gregorianas
Enquanto se dança por entre o suor
(Como Cristo ensinou).
E se a vida é um fio que se desdobra —
Na linearidade que podemos atribuir
A novelos de lágrimas —
Mas só és Pablo se venderes — e bem, então:
Duvida e cospe enquanto a coroa se endireita,
Duvida e chora, que os diamantes não arrefecem as veias.
Eu não duvido dessas dúvidas e dívidas,
Eu não cozinho a ignorância num espeto
Nem crucifico seus julgamentos, Meritíssimo.
Enquanto as lágrimas que cuspiste nos olhos
Derrapam pelo oco mármore abaixo,
Vou continuar a sangrar por sucesso.

E repara no som do oco, que faz um lindo eco.


O fim do abismo

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Ficam para trás as ruínas, os espinhos das rosas que lhes tirámos. Ficam para trás os mortos e as memórias que lhes absorvemos. O que resta é o que lá está: as ruínas para que continuamos a olhar sem observar, os mortos que constantemente desrespeitamos pela nossa falta de vontade de viver.

O tempo e o espaço são medidas incompletas sem a emoção. E a emoção divide-se em conhecimento e vontade. Se a emoção desliza da sensação e é corrompida pela idealização, o conhecimento é esse generalizar. Olhar para o mundo pelo espectro das ideias é a constante dissatisfação de ter o que não temos, por não corresponder ao nosso conhecimento das coisas. O conhecimento, a inteligência, é o que nos ancora ao fundo do abismo e não nos deixa escalar em direcção à luz que víamos antes de cair.

Por outro lado, a vontade é o que nos dá permissão. É a emoção que nos faz mover em vez de nos calcar ao conhecido. Que desloca dos padrões desrespeitados pelo confronto directo com a vida. Se continuamos a viver …