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O caos, a ordem e o tempo

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Eu tive a memória de um futuro perdido, em que o sol se punha sem raios, o céu era cinzento e no vento se sentia o odor a cripta. A respiração ansiosa não descansa, receia vê-lo concretizar-se.

Quem lida com o tempo descobre logo um paradoxo eterno: os momentos nascem sabendo que vão morrer antes de se sentirem vivos. O seu único propósito é o de morrer e tornar a morrer para se substituir por uma versão desprovida de memória. Sempre que se aceita a sensação de um momento, vende-se a sensação do anterior e da sua alternativa. Ironicamente, só quem renuncia ao tempo (à sua contagem ou organização) o pode apreender realmente.

O tempo pode sentir-se de dois modos. Do modo que é contado pelos vencedores, que se aliam e auto-nomeiam de heróis debaixo da asa da deusa Ordem, que generaliza, faz estereótipos, calcula médias, modas e medianas e ensina à sociedade como se deve viver. Ou, de outro modo, o tempo pode ser sentido tal e como é, na mais pura autenticidade do mundo a que subjaz e, ne…

Fama Engarrafada

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"Toma só mais um golo, prometo que está quase a acabar". O problema da fama engarrafada é que só quando consumida é que faz ver o que traz no fundo. É outra deusa voraz, presa à vaidosa ideia romântica da mulher demoníaca. E nada mais a prende. Não é bem ou mal, é para além da moral. Ver julgamentos apenas no beijo da despedida: o que é eternamente trocado com a terra e os vermes. Mas é apreciadora dos esforços que são feitos por ela. De cada intento suicida em consumir a sua poção.

Em teoria, a fama engarrafada actua lentamente no corpo, pode paralisar ou fazer esquecer motivos, criar uma dor tão grande que distrai dos objectivos ou incapacitar, dê por onde der. E há um carrasco que ta dá de beber, trago a trago, cálice a cálice. Ele olha-te nos olhos e faz esquecer a luz verde. Deixa-te apenas a nadar no teu medo do desconhecido. E obriga-te a beber da mais violenta forma. Antes que possas contestar, já a estás a provar.

Ouves os iniciados brindar saúde à tua volta, enquan…

O roubo de Calypso

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cortinas de fumo negro
do barco que acabei de derrubar
não permitem ver além do trono
a aridez de sucessivos desertos
secou o soro ocular
astrolábio e quadrante mostram que as estrelas existem
de que valem quando o coração as não sente
antes salta as batidas
e o ritmo fica estranho
a respiração carrega a preocupação
às costas como uma pesada âncora a puxar
o sufoco engasga e não desaparece
rezo a Calypso
que me devolva o oceano aos olhos
esse amor abandonado e abandonante
que nos mares que me levou
navega triunfante
e as velas não sentem o vento
param
mas as paisagens passam e os continentes também
e o barco parado no mar despejado
os marinheiros ao convés desatinados
ofegantes
vislumbrados pela morte no fundo
onde os mortos já não mentem
içam bandeiras de socorro
que ardem junto com as outras
tomam a tonalidade negra quando sobem mastro
esvaem-se em fumos
nem se sabe que dantes havia mar aqui
ela lá vai
ao longe flutua
ergue-se para ser vista
sem nos ver
e com a miragem a melodia
e c…

Magia Verde

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A beleza da vida está no desapontamento. Está lá quando a cor do mar é mais verde que o azul que lhe chamamos, deste lado dos olhos verdes. A questão que marca as minhas entranhas a ferro nunca foi outra: como é que se cria uma ilusão? E o problema estava na perenidade do sentido, do sentir e do que sente:

"A realidade é só uma ilusão muito persistente", Albert Einstein.

As luzes que vemos parecem ter pesos. As auras de uns e outros, tão amenas e tão quentes, mas os cabos dos feitiços, que se lançam pelas palavras, as frias maldições que tanto adorei confabular. E o mais irrisório no cair dos peões em cada buraco que abriam sob si mesmos. Mesmo quando me ergui acima da altura e me chamei de narrador, em resposta a acusações de manipulação. Olha lá o que me fizeste fazer: cumprir as profecias que se foram com o vento e o meu olvido de mim mesmo.

Essas profecias eram lágrimas a cair na chuva. Que culpa tenho que lhes tenhas jogado gasolina?

Então, agora aceito que nada se fixo…

Flores do Nada

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Permite-me uma questão. Se aceitas a escuridão, mas preferes viver na luz, porque negas os habitantes que oscilam na berma do nada?  Os que foram menosprezados por ambas luz e escuridão, sem poder escolher? Nós não podemos sentir o sofrimento. Não importa que miséria sucumbe os mundos, o que pensam, o que sentem ou como existem... 
Em tempos que já lá vão, e havia orgulho em ouvir-se cristão, a minha musa Vénus perdeu os braços. E às suas bênçãos mundanas e utilidades Tirésias traçou mapa em braille. Cheguei à Babilónia em busca de uma bicicleta, pegaram no meu carro e jogaram-no encosta abaixo. "Desliza por pedradas firmes o rochedo" para cair do outro lado do rio, onde as bandeiras são bravas e sensatos os homens que as consideram.

Contei treze praias até me poder sentar. Até o mar reflectir a luz da lua e não estar dividido em dúvidas. Não posso banhar em águas que não sei se existem, mas posso agarrar-me a estrelas cadentes, cujo rasto é um autêntico torreão de luz físi…

E o riso do Cisne?

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Aguarda-se com celebração o dia do fechar das cortinas que são as pálpebras.
Ninguém o pondera mas é uma âncora a pedir mais atenção
- como uma criança chata no super-mercado.
E corre o mito ou a pura mentira do canto do cisne:
que é antes de morrer que o cisne solta a sua melhor composição.
Se aqueles latidos e bramidos e espremer do corpo para bater asas,
esse espectáculo hediondo, se é visto como modo belo da morte,
admita-se que morrer num leito, deitado e sem margem de manobra
é preferencial à raça humana.
Que fariam estes símios para se compararem a cisnes,
etiquetados de belos, sublimes ou artísticos?

Mais que cantar em prantos de dor
(e a estranha correspondência com os gritos do parto)
o cisne deve rir-se, concluído o macabro.

O sorriso está debaixo das peles e músculos da nossa fronte,
prestes a sair apesar de contrariado pelos funestos.
Alegra-te, carpideira, que a tua caveira nunca parou de sorrir
e se a pele é invólucro, o riso é condição da autenticidade.
Enquanto progri…

Os blues da Bandeira Morta

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A minha geração tem a estranha tendência para se pensar numa história. Parece que o que está entre nascer e morrer foi designado como sequência de si mesmo. Para além da sua construção sintáctica da vida (antes/durante/depois) ainda se medem as sensações com uma escala como a de Richter. Cada evento, cada acção tomada ou a espera por efectuar outra, é medido em termos de magnitude e posteriormente posto em perspectiva em correntes de comparações. Durante aquele momento senti com determinada intensidade que só tornei a sentir uns trinta anos depois, diz-se de um momento importante, profundamente sentido e de outro aparentemente similar.

Deste lado. Acredito que só existem repetições na nossa relação com o místico ou o esotérico. A relação religiosa funda-se sobre a repetição de ritos, ao ponto de muitas religiões optarem pela repetição obstinada de orações que faz os actos linguísticos perder a intensidade da sua intenção e a profundidade do que significam. Não obstante, a relação reli…