Flores do Nada

Permite-me uma questão. Se aceitas a escuridão, mas preferes viver na luz, porque negas os habitantes que oscilam na berma do nada?  Os que foram menosprezados por ambas luz e escuridão, sem poder escolher? Nós não podemos sentir o sofrimento. Não importa que miséria sucumbe os mundos, o que pensam, o que sentem ou como existem... 

Em tempos que já lá vão, e havia orgulho em ouvir-se cristão, a minha musa Vénus perdeu os braços. E às suas bênçãos mundanas e utilidades Tirésias traçou mapa em braille. Cheguei à Babilónia em busca de uma bicicleta, pegaram no meu carro e jogaram-no encosta abaixo. "Desliza por pedradas firmes o rochedo" para cair do outro lado do rio, onde as bandeiras são bravas e sensatos os homens que as consideram.

Contei treze praias até me poder sentar. Até o mar reflectir a luz da lua e não estar dividido em dúvidas. Não posso banhar em águas que não sei se existem, mas posso agarrar-me a estrelas cadentes, cujo rasto é um autêntico torreão de luz físico, mas esse poder... que tanto me seduz. Olhar de frente para o holofote que os enganou: a caverna é ficar de pernas e braços cruzados.

Contei treze praias até lá chegar, e se calhar ainda só vou na sexta. O pó que acumulámos nas nossas estátuas é apenas uma nova camada. E caem que nem guilhotinas. Espelho, espelho, o tempo aproxima-se e logo se verá o rasto de sangue deixado pelo cão. Não há maldição que equipare esta sensação.

Contei treze praias só para me justificar. A terceira ou quarta podiam ter servido, não fosse eu sentir que na missa há serviço. Cunhar moedas é carimbar o inútil, a moeda servirá sozinha para comprar o pão que de valor tiver. Isto, se o ouro for a favor e o contrafeito não substituir o rarefeito. Abaixo o amor, abaixo os sonhos, vou arrancar o cântico aos pulmões.

Contei treze praias e sabes que mais? Tem-me durado este bom partido mefistotélico (desde que o aristotélico enferrujou), este pacto que fiz com o meu próprio sangue: que só se derrama a ferida ou corte e não são dores alheias que nele têm sorte. Pena e empatia ou honra entre ladrões? Vê a minha maldição matar o romance, o amor não vai ter chance.

Contei treze praias e mais alguns momentos, para te acalmar. Despacha-te, diz a rádio, que o meu carro depressa vai demais. A velocidade da queda desse sonho, apressado, ata-te os pés um ao outro. A boca do lobo em que entraste é a tua própria e o papel desempenhado de amores não sustentados. Dançam fogos-fátuos. Olha a minha maldição matar o romance, é assim que se remove um final feliz.

Contei treze praias, só para te ver sentar.

Este coração pertence de novo ao nada. Todos os mundos começam no nada e todos lá terminam. O coração não é diferente. O nada floresce dentro dele, cresce, consome, tal é a sua natureza. No fim, cada coração é devolvido ao nada de onde veio. O nada é a verdadeira essência do coração. 


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