Os blues da Bandeira Morta

A minha geração tem a estranha tendência para se pensar numa história. Parece que o que está entre nascer e morrer foi designado como sequência de si mesmo. Para além da sua construção sintáctica da vida (antes/durante/depois) ainda se medem as sensações com uma escala como a de Richter. Cada evento, cada acção tomada ou a espera por efectuar outra, é medido em termos de magnitude e posteriormente posto em perspectiva em correntes de comparações. Durante aquele momento senti com determinada intensidade que só tornei a sentir uns trinta anos depois, diz-se de um momento importante, profundamente sentido e de outro aparentemente similar.

Deste lado. Acredito que só existem repetições na nossa relação com o místico ou o esotérico. A relação religiosa funda-se sobre a repetição de ritos, ao ponto de muitas religiões optarem pela repetição obstinada de orações que faz os actos linguísticos perder a intensidade da sua intenção e a profundidade do que significam. Não obstante, a relação religiosa concretiza-se através dessa repetição ritual. É o que pressiona a que a tradição não seja abatida: a repetição de padrões em determinadas horas pode (eventualmente) proporcionar determinados efeitos. Mas não é por haver dança da chuva que se garantem nuvens em Setembro.

Existe também repetição no leitmotiv musical. Cria-se um padrão na música que se quer como o das marés: nenhuma maré vai igualar uma anterior, tal como o padrão instrumental de um leitmotiv nunca se repete em perfeição. Em último caso, por incapacidade cosmológica: nenhum momento se repete pelo facto do planeta girar em torno de coisas que por sua vez giram em torno de outras. Disso decorre que a mesma construção atómica nunca recorrerá e, por sua vez, a acústica é afectada. O leitmotiv faz uso da capacidade hipnótica ou encantatória da música: por nos parecer levar numa nova viagem de sensações, oferecendo-nos sensações novas num novo padrão emocional (o das notas e da sua composição). Então o leitmotiv oferece a ilusão de reviver um momento, como tantos o desejariam tantas vezes.

Naturalmente, o reflexo é uma repetição de uma sensação visual. A natureza repete-se a si mesma em espelhos de água que repetem belíssimos jardins suspensos. Igualmente, a narrativização do espelho é um mito que conta algo de visceral para os seus contadores: que a imitação natural imita unicamente aquilo que a natureza tem de natural. Os momentos de maior perdição para o homem foram quando pretendeu substituir a sua bússola moral por sonhos de um espelho moral que reflectisse a essência das pessoas. O pobre feio nunca se viu belo por ser bom, no fundo, a inveja foi uma âncora ainda mais pesada para o seu desespero do ser. E o rico, que tão bem se aperalta - juro que se esforçou para semicerrar os olhos até dissolver o reflexo em manchas minimamente feias. Mas quando reabriu os olhos, as suas posses ainda lá estavam e as roupas não se transformaram em pelos nem caudas pontiagudas.

Assim se viu Camões desolado pelo "desconcerto do mundo", pelo que de mais autêntico e poético este tem: a pura aleatoriedade da verdadeira verdade das coisas. O ardor esmeralda nos olhos vivos. O estímulo da atmosfera. Perdidos em jardins de aromas, mergulhados em águas quentes, no sabor de cerejas rubis e quando o ritmo rima com o coração.


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