Sob um Paúl

o inóspito frio desta vizinhança entre o mar e o vício trouxe-me a um pequeno bebedouro entroncado no recanto do bosque. dele não podia beber de outra forma se não a animalesca curvatura sobre meu próprio corpo para poder sequer ver a ínfima água que a sede suplicava. e a sede, e a sede e a sede, a sede fazia perder de vista tudo o que envolvia revolvendo. a pequena porção de água estagnada e suja revelou-se um conjunto de aguarelas vivas, que pulavam e salpicavam, tingiam e contagiavam. e a sede, e a sede e a sede, a beber, a beber e a beber. todas as cores estilhaçadas por este vitral aquático, tão mais sujo da terra que do que quer que em seu torno existisse. as árvores reluziam nela um verde macabro, desvendei por meio os tons esmeraldas do meu próprio mar. mergulhei e depois saltei, as algas entrelaçaram-me e comprimiram-me os pulmões que se começavam a inundar. talvez fosse apenas o antro de Anto e se a solidão me tivesse visto sonhar, talvez me garantisse uma mão a dar, uma âncora onde me agarrar.

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