A Harpa, o Fogo e a Esmeralda

"Que lindo é o incêndio visto por uma esmeralda", Nero, enquanto voam fagulhas que cheiram a cadáveres, como passeiam os dedilhados pela harpa. Pelo chão, os corpos esturricados são provas de um crime extremado. "O fogo nunca é deixado ao destino, ele mancha no mundo o acaso".

Neste mundo de queimados e ateadores, quem é que pode pegar no códex e alegar-se moralmente superior? Quando todos nós jogámos fósforos em busca do domínio da vida alheia? Quando aqueles pobres não são mais desesperados que estes desesperantes, que se pensam ricos?

Neste mundo vestem-se as sombras como véus, como cerejas no topo de bolos, por cima dos corpos e nunca por debaixo do sol; neste mundo em que a sombra é um chapéu, quem é tem o delírio de calçar saltos e considerar o certo e o errado? Quem é que pode ver de cima o que o fogo domina? (E que alta tem de ser a torre).

Se podemos admitir que há uma jóia em cada um de nós, constantemente lacerada e lentamente transformada quer pela erosão, quer pela gravidade, se essa jóia realmente existe e se molda, então é mais pura que a casca deixada pela serpente, mais feroz que a bala recolhida e mais útil que a acendalha ardida.

Então porque continuamos em busca de culpas sacramentais? Por ser o penal um mundo de armas em crises, o que faz pesar a balança deixa de ser substância ou matéria. Não é fácil apreciar arte quando as provas autenticamente apreendidas e sofisticadamente técnicas são postas em segundo plano para ver os anjos e os demónios: as alucinações da idade média.

Os pobres e os ricos que se danem, porque deles é a competição pelos meios de alcançar o final mais surreal. Pena que revele ser um caixão debaixo de uns quantos palmos de terra. Ou um forno, onde pode calhar levarmos atrás as gorduras de outrem.

E continuam a dizer que o crime não compensa quando ainda me oferecem bolo? E continuam a dizer que o karma é uma puta, quando os porcos estão literalmente a voar?, quando são estas pequenas cabras que me estão a tentar? A desilusão é não existir esperança para os danados. Todos: descansar em paz, nas desilusões da luz perpétua.

E eu vou só recostar-me a ver-vos matarem-se uns aos outros.



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