Clepsydra

E escutando o correr da água na clepsydra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,
Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.
O exposto é o de escorrer o tempo por um prato furado. Gota a gota, esse grande ladrão engole cada momento cujos abraços não foram capazes de envolver. Desvela o nevoeiro destas ilhas por que passam os nossos barcos, para as recobrir prontamente, quando as águas são passadas. Segundo a segundo, gota a gota, conta-se na medida em que se o pode fazer.

As luzes do farol da minha constante e recorrente decadência prendem-se com três ou quatro pressupostos que podem constituir-se ou não como pensamentos da ficção ou da própria realidade, nas fracturas que cada uma chicoteia à outra. Estas luzes, racionais, submersas, cobertas, obscuras, vêm de uma noção quebrada da realidade, como o vidro da janela ocular que é translúcido, ou quebrado noutros fragmentos do mesmo bloco de vidro.

Uma primeira ideia é a da submersão. Submersos nas partículas de Hidrogénio [H] que nos rodeiam, estamos dentro de água numa condição de menor densidade ou em gelo dissipado. A experiência da realidade seca não diverge tanto da experiência da realidade molhada. Estar ou não no mar, coberto de água até ao tronco e a lutar por dar um passo não é assim tão diferente de estar fora de água, aparentemente seco e a lutar por dar um passo. Esta relatividade da submersão não se prende tanto com o aspecto físico da dificuldade de dar um passo, mas com o seu aspecto de duração. Por vezes, dar um passo na vida é pesado como dar um passo debaixo de água (passe o clichè facial da frase): há inércia e receio.
Não é pelo facto de uma experiência de dor parecer durar horas, quando dura apenas minutos, e uma de extrema alegria parecer durar segundos, ainda mais ínfimos que os minutos a que realmente se reporta, que sabemos que o contar do tempo é uma missão da tolice. Talvez o facto de não respirarmos tão bem como pensamos (ou de nos termos habituado a um pouco de H constante) seja o motivo por que o tempo parece relativo. Como a submersão.

A segunda é a da duração. Antes do mais, o tempo é atmosférico: o passar de um dia correspondeu a um ciclo cuja repetibilidade foi registada. Esta é uma construção teórica e estrutural que é útil e cumpre os seus fins, na medida em que a rotação da terra dura cerca de vinte e quatro horas, correspondentes a um dia, e cerca de trezentas e sessenta e cinco vezes isso para dar uma volta ao sol, constituindo um ciclo de estações durante as quais a natureza reage dependente da sua posição e proximidade do sol. Criam-se categorias como dia, semana, mês, estação, ano,... que reportam ao conjunto de diversas características que compõem determinados intervalos de tempo (de manhã está sol, no outono faz frio).
Mas nenhum dia é igual ao outro. Parece-me que a derivação linguística do tempo veio criar lugares-comuns que nada têm em comum. O tempo não é um objecto da experiência, mas a noção de duração proveniente do intelecto que nota a passagem de eventos que não se repetem e padrões na atmosfera da torrente de tais eventos. O tempo é secundário a toda a experiência; o tempo não está presente na experiência, mas no seu pano de fundo ou atmosfera (é o facto ou a sua sucessão que destrinça a aparente ausência de tempo), como o H que passa despercebido em toda a nossa respiração natural. Se não é parte primária da experiência, mas secundária ou complementária da mente, o tempo é o invisível-elefante-cor-de-rosa-no-meio-da-sala.
Alguns feriados são celebrados em homenagem àquele dia em que determinada coisa aconteceu, sei lá, a Assunção da Nossa Senhora. Mas não é por homenagearmos esse facto que a experiência estética da determinada Assunção se vai repetir, nem é esse o propósito de um feriado. No fundo a única repetição são ecos que nos ludibriam tão facilmente como Narciso foi chamado a perder-se no seu reflexo. As reiterações pedem que finjamos que os acontecimentos retêm a mesma cor, saturação e intensidade, apresentando-nos sombras de sombras, marcas de água cada vez mais claras e indistintas do que se passou. Resta assim a tradição, inquestionada, inquestionável, intocável repercussão da progressão animalesca da repetição pavloviana. Aos quinzes de Agosto homenageamos o mito da Assunção, da mesma maneira que cada vez que a campainha toca, o cão se vai deleitar com o almoço. Recorra-se à astronomia, os "quinzes de agosto" não são todos iguais, não se dão todos à mesma distância do sol (estamos em progressivo afastamento) e a logística (e.g. as pessoas que nos acompanham) não é sempre a mesma. Nos dias de hoje, ver uma coisa a que um grupo de pessoas chamaria de "Assunção" poderia não passar de uma performance artística no meio da rua.
O que resta de palpável da experiência do tempo são os seus mecanismos de contagem e os seus actos locutórios: há palpabilidade em ver representado num relógio de braços abertos "um quarto para as três", tal como na indicação "é de noite" (que corta as possibilidades do nosso sistema de vinte e quatro horas para menos de metade). Sem dúvida que o tempo, conforme o sentimos, contado, organizado, codificado, disposto, é um agente de excelência na organização das nossas vidas, mas esse tempo, anotado, não é O Tempo, num sentido absoluto do termo, mas é o que se tem, numa visão terrestre e pragmática. Rejeitar a noção de tempo como uma noção meramente linguística e não empírica cria apenas o problema da derivação decadentista: então do que é que se decai, se é implícita a inexistência de causas para efeitos?

A terceira é a da suspensão. Como ao tragediógrafo não lhe importava tanto a carnificina a apresentar em palco para conceber a perfeição da sua tragédia (a história de uma boa família que começa o enredo num estado de felicidade e o termina destroçada), à alma decadente não importa os meios necessários para atingir a decadência por fim. Há, por certo, limites logísticos do que um decadentista pode fazer: cortar as mãos pode surtir efeitos simbólicos até mas vai deixá-lo, passe a expressão, de braços atados e há poetas que cantam muito mal.
Há negociações a fazer com a própria decadência, lots of give, lots of take. É aqui que reside a partícula "religiosa" deste conceito. Não existindo um negociante in persona para estabelecer os termos e condições pedidos pela decadência, nem uma bula com a posologia ou uma errata póstuma de momentos que correram mal; a única coisa que resta ao decadentista é a pobreza da crença numa entidade com que negoceia, não sabe o quê, sabe-se lá como, nem porquê. Fausto pactua com o diabo. Baudelaire pactua com o diabo num casino. Paganini com o diabo pactua. Mas a esse nunca o vi, prefiro alucinar.
Suspendem-se a negociação e a actuação. Estão no ar, existem e recorrem; preenche-se com a crença as fracturas do negócio pela decadência. A resposta à anterior questão: não se decai, a decadência pressupõe a queda constante, a queda sem fim, a estrela cadente presa no quadro em movimento da sua própria constante combustão. Tal como fingimos que um ente extraordinário vai acorrer aos nossos suplícios dependentes, fingimos que a estrela não vai nunca cair, mas manter-se, suspensa, na vertigem do momento da queda.

Finalmente, a dissociação. Não falo aqui de experiências de fora do corpo, espirituais ou alucinogénicas. A dissociação não se prende, mas desprende das pegadas o próprio passo. O sujeito não se multiplica mas a sua marca no mundo sim, talvez se realmente deixássemos algo de nós no mundo (receptáculos de pedaços de alma quanticamente inviáveis) sentíssemos alguma realização nos momentos - mas seria a animalesca realização de ter posse de algo.
O desprazer da despondência entre a ideia e a realização, entre a imagem mental e a pincelada, entre a hora do jardim e a dama que abracei. A projecção do presente para o futuro a que muitas vezes chamamos de planeamento ou é uma actividade enviesada para o falhanço desde o início, ou somos incapazes de corresponder a todas as vicissitudes que nos podem trilhar o evento, ou é aquilo a que podemos chamar de decadência.
A dissociação é reconhecer que nem o momento, nem o acontecimento, nem o sujeito vão voltar, naufragaram os três. As estrelas deixaram de cair, o hidrogénio pode afogar e os dias que passaram já não voltam. As estrelas caem mas não deixam mossas. O indivíduo sabe já não ser a mesma alma, mas o corpo reconhece continuar a ser o mesmo Atlas que a carrega às costas.
É o que permite a aberração de anunciar, pior que a morte de deus, a fraqueza prevista pelo amor. O amor é uma fraqueza no sentido em que pede escolhas que comprometem a sobrevivência e a inclinação estética. Para o decadente, com algumas migalhas de romantismo ou medievalismo, a mulher ideal é a mulher morta. A mulher cuja beleza é suspensa e duradoura, cuja alma é dissociada da vida e submersa na morte. Dissociar a capacidade de amar da capacidade de poder é característico à decadência, o pior amante será o melhor governador da sua própria decadência, do mesmo modo que os mais apaixonados são incapazes de construir um império poético assim.

O problema parece-me estar numa tendência de sentir pelos olhos antes de pelos outros sentidos, quando todos nos podem igualmente dar conta de experiências. Posso ouvir o ruído da bolacha que mastigo. Posso escutar o correr da água pelo cano abaixo. O pior é preocuparmo-nos com a "re-visão" de passados que já foram, "ver" incursões de ecos no presente por via de construções linguísticas como "E se..." (como "E se a minha sombra pudesse ter dado o par de estalos certo à pessoa certa, quando necessário") e com o que há-de vir. Submersão, duração, suspensão e dissociação podem ser as características ou directrizes que dei à minha decadência, mas não me vão proibir de aprender a fazer mais e melhor enquanto o posso fazer. Não há fracturas que possa evitar ao passado, vou continuar a não ser perfeito no presente e a viver de tentativas e erros que se vão anulando, mas sobretudo, nada posso fazer em relação ao futuro,
Porque o melhor, emfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sôbre mim
E nada me doer!

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