Drácula
Sabes onde estamos?
No sítio onde aconteceu o meu pior pesadelo.
Descemos pelo elevador para o parque de estacionamento.
Os lugares traçados no chão, a meia-luz artificial
de um lugar onde não amanhece.
Mas desta vez és tu que vens comigo.
E vais poder ver o que eu vi.
Repara no carro preto que está ali em frente,
se contares, tem seis velas acesas no capô
e, dentro de momentos,
quando o porta-bagagens se abrir
vai sair de lá um mar de ratos.
Imagina-me ali no meio,
a procurar não cheirar, nem tocar,
em cada rato que me afogava.
Prometo-te uma dentada
de felicidade, um milagre mínimo,
a graça que organiza por dentro.
Que só funciona na penumbra,
só funciona sem público,
e só dura enquanto
não se tenta provar
o que foi.
Um milagre de felicidade,
um estado de graça íntimo,
que não é grandioso,
que não é imperial,
e é o motivo pelo qual
os verdadeiros amantes preferem a luz das velas
(nem que sejam as do meu pior pesadelo)
aos filtros do Instagram.
Agora, solenemente,
deixa-me morder-te o pescoço,
deixa-me tornar este pesadelo
na dose certa de felicidade,
e pode ser que acordes
com as pontas das reticências
tatuadas a vermelho no pescoço.
numa linguagem tão vernacular,
a dar tanto brilho à mácula,
(a paisagem não é tão espectacular?)
fujo da luz do palco (Drácula)
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