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Antígona de Gelo

À luz fria reflectida numa catarata que não gelou, vi um enxame de olhos focarem-se no que se deixou por penas traçado, puro vitimismo passado.  Os lençóis sujos, as sombras largadas, as jóias que deixaram um trilho de luz,  os amigos que só foram sonhados.  Esta acrópole gelada, sobre um cemitério, sobre tantos, montados por cima dos outros. Jazigos plantados em mausoléus: gelados.  Na vez de cadáveres: estátuas de gelo e nada aqui derrete, tudo fica, tudo recorda, tudo ainda geme ao frio. Espirais da luz turquesa, nas dores do corpo,  tremores na face transtornada, as lágrimas—estalactites, no preciso momento em que surgem.  Nada vai, tudo fica.  E se plantei cemitérios, se moldei quimeras nas geadas (quando quis formar rosas líquidas), foi porque nada ficou e eu tive de fazer ficar.  Se estes jardins estão assim gelados, não são para enxames de agora, mas para quem encontrar a minha alma, lançada num iceberg, afim de bicadas de picaretas — ...

Gravidade e Elegância // Weil

(Tradução de "Gravity and Grace" de Simone Weil) Todos os movimentos naturais  da alma são controlados por leis semelhantes à da gravidade. A Elegância é a única excepção. Estamos sempre à espera que as coisas aconteçam em conformidade com as leis da gravidade, excepto quando existe intervenção sobrenatural. Há duas forças que governam o universo: a luz e a gravidade. Gravidade . O que costumamos esperar dos outros depende do efeito da gravidade sobre nós mesmos, o que deles recebemos depende do efeito que a gravidade exerce sobre eles. Por vezes (por sorte) estas expectativas coincidem com os resultados. Muitas vezes não. O que é que leva a que, quando um humano mostra precisar de outro (não importa a leveza ou a grandeza desta necessidade), este acabe por se evadir? Gravidade. O Rei Lear  é uma tragédia de gravidade. Tudo aquilo a que chamamos vil é um fenómeno da gravidade. Para além disso, a palavra vileza é indicativa deste facto. O objecto de uma acção e a quantidade de...

Caprichos da Preguiça

Descobri que o verdadeiro amor não é salvar a face, é incondicional. Quando é que me vais deixar em paz? Acredito que podes encontrar independência e, se não, vive como se estivesses perdoado. Lamento não ter podido salvar o teu mundo. Estava ocupado a construir o meu. Eu escolhi-me a mim. — Mirror, Kendrick Lamar se não é para viver aqui, mas do outro lado, quem são os abutres e as psicoses para nos guiar? limpa o pó às auréolas da cisão entre o antigo e o amor. ergue-te, mariposa proxeneta. até aonde é que os caprichos do destino não nos levam? dos pedestais tudo parece mínimo e baixo, mas é a arrogância que é baixa, — plinto sem nome ou título, sangue no lodo de pantanosos lençóis. até aonde é que os caprichos do azar  não nos levam? qual é o correlato entre o teu  smoking e toda a mão desta batota? porque é que a magia verde não teve em olho o bom partido e se coibiu com  full house ? até aonde é que os caprichos da preguiça não nos levam? e se sabes tanto das manilha...

Estalagmite

Aqui se cantou o gelo eléctrico, que flutua sujo, sob os descobertos tectos de mármore da caverna. A estátua de gelo que, como todo o mal — desde o tolo ao vilão — foi condicionada e seguiu moldada pelo Acaso, esse pai bastardo, falsário, nutrimento da paranóia e da nostalgia! Aqui se cantou o gelo decaído e errante — que flutua, iridescente como bolhas de sabão. O gelo solipsista das masmorras inóspitas, nos glaciares a que se submetem mitos à tortura de água — lágrima a lágrima. Aqui se contemplaram os vitrais das pirâmides — estalagmíticas, formadas nas retinas! Aqui se cantou o gelo dirigido à opulência do fim. Aqui se pretendeu por coda dar à luz o céu. E escama a escama, a reluzente transparência do nosso herói foi destilada. Agora chamam-lhe Nostos, já não canta e já não toca, serpenteia em direcção ao mar, sem sair do lugar.  Do tétrico ao mítico! Aqui se cantou o gelo eléctrico, acompanhado pela harpa das vísceras que não são das mulheres, nem dos homens: mas das almas. De...

Bárbaro // Rimbaud

Passados os dias e as estações, os seres e os continentes, A bandeira encarnada sob a seda marítima e as flores árticas (das que não existem.) Livre das velhas fanfarras do heroísmo—que ainda assolam o coração e a mente—longe dos velhos assassinos. Ó! A bandeira encarnada sob a seda marítima e as flores árticas (das que não existem.) — Ternura! Das lareiras chovem rajadas de gelo, — Ternura! — fogos à chuva no vento de diamantes, cuspidos pelo núcleo que eternamente carbonizamos. — Ó mundo! (Longe dos velhos retiros e das velhas chamas, ainda ouvidas, ainda sentidas,) Fogo ardente e espuma. A música contorna os abismos e as colisões entre os astros no gelo. Ó ternura, ó mundo, ó música! E lá, todas as formas, os suores, as cabeleiras e os olhos a flutuar. E as lágrimas brancas, efervescentes, — ó ternura! — e a voz feminina chega à profundeza dos vulcões e das grutas árticas. A bandeira...

Proveito Caveiroso

Tecidos nutritivos agarrados a ossos, Vermes cegos que se afastam da luz, Quantos preferem afogar-se nos poços A aceitar a decomposição que os seduz. Incidências que nos remordem (enquanto lhes roemos o intradorso) Dissidências para uma desordem (para os outros fica o remorso) Esqueletos a nadar no fundo do quintal Ou no bem limado crucifixo do Anticristo Qualquer outro feito: puramente acidental. E é este um trabalho mal visto Fagulhas de sangue, chuva horizontal— De todos, o menos imprevisto.

Apetite pelo Nada // Baudelaire

Esfriado espírito, espantado amoroso pela luta, O esporão da Esperança que acendia esse ardor, Já não te quer montar! Vai, então, deitar-te, Velho cavalo de pés que acertam em cada obstáculo. Resigna-te, meu coração; dorme o teu sono, selvagem. Espírito exausto e vencido! Para ti, velho saltimbanco, O amor já não tem gosto, não tanto como a disputa; Então adeus, cantos metálicos, suspiros de flauta! Não tenteis de prazeres mais um coração aborrecido! Adorável Primavera que perdeu o seu odor!  E o tempo engole-me minuto a minuto, Como a imensa neve pesa sobre um corpo; Contemplo de alto as redondezas do globo E não procuro mais o abrigo de uma cabana. Podes, avalanche, levar-me com a tua queda?